Uma desesperada startup de IA está a limpar apartamentos gratuitamente

By | 30/06/2026

Uma startup está a trocar limpezas gratuitas em casas particulares por imagens captadas no interior dos apartamentos. O novo “mercado de dados” para treinar robôs levanta preocupações sobre privacidade e substituição de trabalho humano.

A expressão “os dados são o novo dinheiro” ganhou um significado totalmente novo numa sociedade obcecada com a inteligência artificial: com cada vez mais dados, os modelos de IA continuarão a melhorar de forma drástica, transformando a informação usada no treino num recurso ou numa capacidade de enorme valor.

Algumas startups estão a levar esta noção ao extremo.

Segundo a BBC, uma empresa de inteligência artificial chamada Micro AGI está a enviar jovens com formação universitária e perfil típico de Silicon Valley, equipados com câmaras, para apartamentos imundos de Nova Iorque — para fazerem limpezas de graça, no âmbito de uma iniciativa chamada Shift.

A ideia da Shift é que as imagens recolhidas podem valer mais para as indústrias da robótica e da IA, enquanto dados de treino, do que aquilo que os moradores pagariam pelo serviço.

A recolha de imagens de treino, muitas vezes sensíveis, transformou-se numa pequena indústria própria, um mercado de dados onde as empresas se atropelam para conseguir matéria-prima.

A iniciativa bizarra da Shift mostra até que ponto as startups estão desesperadas para se manterem relevantes num panorama empresarial em rápida mudança. Em vez de empregos confortáveis de escritório, empreendedores estão agora a limpar sanitas e a lavar loiça no meio de um mercado de trabalho difícil.

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O jornalista Archie Mitchell, da BBC, recebeu no seu apartamento no Upper East Side, em Nova Iorque, “dois licenciados na casa dos 20 e poucos anos que tinham passado por várias startups e estavam à procura de trabalho”. A dupla disse que limpava cerca de cinco apartamentos por dia, cinco dias por semana.

Enquanto prestavam o serviço, câmaras presas à parte da frente dos seus bonés de basebol captavam tudo o que faziam — recolhendo dados que um dia poderão ensinar robôs humanoides, ou outros robôs especializados, a fazer o trabalho em vez deles. As indústrias da IA e robótica estão, na prática, a tentar tornar os trabalhadores dispensáveis.

O principal desafio técnico? Estranhamente, a iluminação, diz o Futurism.

“No mundo real, todos os objetos são diferentes, a iluminação é diferente e nada é igual ao que era algumas horas antes”, disse o fundador da empresa, Bercan Kilic, à BBC. “Os modelos precisam de aprender como as suas mãos, câmaras e ambientes funcionam em conjunto”.

Além de limpar apartamentos em Nova Iorque, o fundador afirmou que a Shift poderá avançar para outros serviços gratuitos ou com desconto. A empresa já está, por exemplo, a recolher imagens de mecânicos a reparar automóveis na Turquia.

“Hoje, limpeza em Nova Iorque”, prometeu Kilic numa publicação no LinkedIn. “Em breve, pequenas reparações, consertos e recados em todo o mundo“.

O serviço é gratuito. Só há um pequeno problema… “Acho que as pessoas subestimam enormemente o nível de informação sensível que as gravações dentro de casa podem captar”, diz Calli Schroeder, diretora do Electronic Privacy Information Center.

Há quem pague para ter privacidade. Há quem a venda a troco de uma aspiradela.

(ZAP)