Adeus reels e shorts? O “momento Big Tobacco” chegou às Big Tech

By | 04/04/2026

Decisões de dois tribunais dos EUA desta semana podem assinalar o início do fim de uma era nas redes sociais, admitem analistas.

No espaço de dois dias, tribunais na Califórnia e no Novo México concluíram que a Meta e o YouTube, detido pela Google, são os responsáveis pelo vício de utilizadores nas suas redes sociais.

Segundo um dos processos, “Kaley” começou a usar o YouTube aos seis anos e entrou no Instagram aos nove, contornando um bloqueio imposto pela mãe. Afirmou que passava “o dia todo” ligada e que o uso precoce das plataformas deteriorou a sua autoestima, prejudicou amizades e levou-a a abandonar passatempos. Levou o caso a tribunal, ganhou, e vai receber três milhões de indemnização.

A pressão é inédita, a decisão sem precedentes e está a ser vista como um ponto de viragem para o modelo de negócio das redes sociais. É um pouco como a revolução sofrida pela indústria do tabaco, como alguns analistas estão a dizer, numa alusão à vaga de processos dos anos 1990 que obrigou a indústria tabaqueira a rever profundamente a sua atividade depois de os tribunais reconhecerem o carácter aditivo e prejudicial dos seus produtos.

Tanto a Meta como a Google garantem que investiram em ferramentas de segurança para utilizadores mais jovens e rejeitam a ideia de que as suas plataformas sejam diretamente responsáveis pelos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes. Muitos acham no entanto que as conclusões dos dois tribunais desta última semana foram um choque para Silicon Valley.

Isto porque estes processos poderão ser apenas o começo. Os casos julgados agora integram um primeiro conjunto de cerca de 22 julgamentos-piloto, no âmbito de ações movidas por mais de 350 famílias em 250 distritos escolares norte-americanos, que poderão abrir caminho a muitos milhares de novos processos.

E a atual vaga judicial está a avançar a uma velocidade muito superior àquela que se verificou contra a indústria do tabaco, recorda o The Independent.

Ao mesmo tempo, há quem sublinhe a complexidade jurídica destas decisões, embora considere evidente que as empresas conheciam o potencial aditivo das plataformas e os riscos associados para os mais novos. Apesar disso, os mercados financeiros mantiveram-se relativamente tranquilos: as acções das tecnológicas registaram apenas quedas ligeiras, e as indemnizações actualmente em causa continuam a representar uma parcela reduzida dos lucros destas empresas.

Por enquanto, as ações das Big Tech ainda não abalaram para lá de quedas ligeiras, e as indemnizações atualmente em causa continuam a representar uma parcela muito reduzida dos lucros destas empresas. A Meta e o YouTube já anunciaram que vão recorrer, mas, se os recursos falharem, poderão ser obrigados a eliminar funcionalidades centrais para a lógica (propositadamente) aditiva das plataformas. Estamos a falar dos reels, shorts e da sua capacidade de nos pôr a fazer scroll infinito.

(Tomás Guimarães, ZAP)