Setembro foi o mês do primeiro grande encontro do Shifter, a Inferência. Numa conferência de dois dias debatemos os desafios que a Inteligência Artificial traz ao jornalismo. Em outubro, refletimos sobre arte e IA no Atelier-Museu Júlio Pomar. Os encontros ao vivo continuam a valer — talvez nunca tenham valido tanto.
Nas redes sociais falamos para as nossas bolhas. Os algoritmos procuram maximizar o engajamento nas plataformas, e para isso distribuem o conteúdo, ora junto de quem vai gostar de tudo o que dissermos, ora junto de quem, irritado, vai desatar aos insultos e partilhar a publicação para dizer mal. Num caso e noutro, o resultado é o mesmo: falamos muito e ouvimos pouco. A conversa transforma-se numa sucessão de reações, e quem pensa de maneira diferente ou apela menos às reações emocionais perde espaço no debate. O discurso público torna-se mais numa espécie de encenação, onde somos espectadores passivos, reativos a palavras-chave.
Foi contra essa lógica que nasceu a Inferência. Durante dois dias, juntámos numa sala jornalistas, especialistas em inteligência artificial, políticos de todo o espectro parlamentar e muitos leitores curiosos. Pelo Unicorn Stage, em Lisboa, passaram ao longo dos dois dias mais de 200 pessoas. Nem sempre concordaram, e ainda bem. Houve momentos aguerridos, perguntas que ficaram sem resposta e quem saísse com mais dúvidas do que trazia. Mas houve sobretudo aquilo que a Carolina Franco descreveu na abertura do segundo dia: “Um interesse genuíno de ouvir, de discutir, partilhar ideias que não eram sempre confirmadas pelo outro”.
Como Vania Baldi nos recordou no segundo dia, as redes dizem-se sociais mas são sociopatas, na medida em que promovem mais o desencontro do que o encontro. E uma democracia saudável precisa do contrário: de praças, cafés e esplanadas, de lugares onde se sai da bolha e se dá de caras com quem é diferente. Durante muito tempo, os jornais e as revistas foram também esses lugares. Mas hoje é preciso reconstruí-los, e o começo pode ser para lá do ecrã.
Talvez a coisa mais importante destes dois dias não tenha sido nenhuma resposta. Foi a sensação, partilhada por muitos, de não estarmos sozinhos. Recordo uma frase da Luísa Barbosa, que nos acompanhou como apresentadora: “Muito daquilo que nos faz sentir impotentes é sentirmo-nos sozinhos”. Ver uma sala cheia de gente preocupada com as mesmas questões, e disposta a procurar respostas em conjunto, é já uma forma de resposta.
Afinal de contas, a Inteligência Artificial e as mudanças que traz ao nosso quotidiano vieram para ficar, e só coletivamente é possível definir como nos podemos adaptar. E nem todas as soluções são simples ou óbvias. O momento é de discussão e de aprendizagem, de troca de ideias e perspetivas entre disciplinas e especialidades, e é por isso que não pode ficar dependente dos algoritmos das redes proprietárias — que em boa medida, são uma parte interessada na inexistência deste debate.










Para o Shifter, fazer acontecer este momento, com uma equipa de apenas 3 pessoas, foi um sinal positivo e que reforça a nossa convicção na importância de fomentar encontros, de operar em tempos diferentes da azáfama do online, de forjar comunidade para além dos seguidores. Tal como já tínhamos vindo a fazer, noutra escala, com workshops e ciclos de conversas — e continuaremos a fazer ao longo dos próximos tempos. Os encontros são a melhor forma de disseminar e gerar trocas de conhecimento.
E é por isso que, feito o rescaldo da Inferência, voltamos a marcar encontro na sexta-feira, dia 16 de Outubro, desta vez no Atelier-Museu Júlio Pomar, para refletir em conjunto sobre IA e Arte. “Do Latente ao Visível” é um evento de um dia, com duas conversas, que reúne artistas, curadores, investigadores e um advogado, e tem entrada livre. Contamos convosco?
Quanto à Inferência, o seu ciclo ainda não terminou, e depois de feito o balanço é hora de começar as transcrições das conversas e preparar a publicação que resumirá o encontro e reunirá os contributos daqueles que se juntaram à reflexão. Nesta publicação queremos dar destaque a algumas das ideias que passaram pelo palco da conferência — mas não só. Queremos trazer perspetivas de especialistas e profissionais que podem ajudar jornalistas, editores e leitores, a navegar a era da IA no mundo do jornalismo. Porque, no final de contas, não estamos sozinhos.
(Shifter)
