Luís Rita defende que uma classificação nutricional deveria reconhecer que as necessidades mudam com a idade, o sexo e a fase da vida — e olhar para muito mais do que calorias, gorduras e açúcar. A tecnologia pode ajudar.
Uma adolescente de 15 anos, um homem de 40 e uma mulher grávida podem retirar exatamente o mesmo alimento da prateleira. A composição do produto não muda. A letra impressa na embalagem também não. No entanto, o valor nutricional desse alimento para cada uma destas pessoas pode ser muito diferente.
As escalas nutricionais simples têm mérito. Permitem comparar produtos em poucos segundos e traduzem tabelas difíceis de interpretar numa mensagem acessível. O problema surge quando uma classificação criada para o consumidor médio começa a ser tratada como uma verdade universal. O consumidor médio é útil para a estatística, mas não existe na vida real.
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos reconhece que as necessidades nutricionais variam com a idade e o sexo e que também são influenciadas pela atividade física e por fases como a gravidez. Existem valores de referência diferentes para vários grupos populacionais saudáveis. Se a ciência já reconhece essas diferenças, por que razão a informação apresentada ao consumidor continua quase sempre a ignorá-las?
Personalizar uma escala não exige começar por análises ao sangue, sequenciação genética ou sensores contínuos. Um primeiro passo poderia ser muito mais simples: escolher o grupo etário, o sexo nos nutrientes em que essa distinção é cientificamente relevante, a gravidez ou amamentação e uma categoria aproximada de necessidades energéticas. Não seria uma prescrição clínica, nem substituiria um nutricionista. Seria uma classificação por perfil — limitada, mas mais informativa do que atribuir a mesma nota a toda a população.
Um alimento rico em ferro pode ter uma relevância particular para uma adolescente ou para uma mulher em idade fértil. O cálcio, a vitamina D, o folato, o iodo, a vitamina B12, o zinco e o magnésio também não têm exatamente o mesmo peso em todas as fases da vida. Isto não significa que um alimento passe magicamente de “mau” a “bom” consoante quem o observa. Significa apenas que a sua contribuição para satisfazer necessidades concretas pode mudar.
É aqui que surge outra limitação dos rótulos atuais: olhamos demasiado para os macronutrientes e demasiado pouco para os micronutrientes. Na União Europeia, a declaração nutricional obrigatória apresenta energia, gordura, gordura saturada, hidratos de carbono, açúcares, proteína e sal. As vitaminas e os minerais podem ser acrescentados, mas não ocupam o mesmo lugar sistemático. Consequentemente, muitas classificações conseguem ver muito bem as calorias, o açúcar ou a gordura, mas observam apenas uma parte da densidade nutricional real dos alimentos.
Os macronutrientes continuam a ser essenciais. O problema não está em medi-los, mas em parar aí. Uma alimentação adequada não depende apenas de evitar o excesso de açúcar, sal ou gordura saturada. Depende também de receber ferro, iodo, cálcio e dezenas de outras vitaminas e minerais necessários em pequenas quantidades. Uma classificação mais completa deveria perguntar não só “quanto tem daquilo que convém limitar?”, mas também “quanto contribui para aquilo de que esta pessoa necessita?”.
Ao mesmo tempo, “mais” não pode significar automaticamente “melhor”. Para várias vitaminas e minerais, a EFSA estabelece níveis máximos toleráveis. A lógica deveria ser simples: um nutriente é valorizado enquanto ajuda a aproximar a pessoa de uma ingestão adequada; depois dessa zona, quantidades adicionais trazem benefícios cada vez menores; e, quando se aproximam de níveis potencialmente excessivos, podem justificar uma penalização. Uma escala que premie indefinidamente a adição de vitaminas seria tão enganadora como uma escala que as ignorasse.
Para os nutrientes que devem ser limitados, a regra tem de ser ainda mais clara. Aumentar açúcares livres, sódio ou gorduras saturadas e trans nunca pode melhorar a classificação. Os limites e as penalizações devem seguir orientações quantitativas assentes em evidência, como as publicadas pela Organização Mundial da Saúde, e não ser ajustados para favorecer uma categoria de produtos.
Este ponto é decisivo: a base da classificação deve ser científica, não política. Os governos podem decidir se uma escala é adotada, onde aparece e como é fiscalizada. Não devem, porém, definir por conveniência eleitoral, económica ou ideológica quanto ferro uma pessoa necessita ou que quantidade de sódio representa um consumo excessivo. Esses parâmetros devem resultar de avaliações científicas transparentes da EFSA, de orientações da OMS e de literatura revista por pares, com fontes, datas e versões públicas. A influência partidária, comercial ou setorial deve ficar fora do cálculo.
A ciência também obriga a reconhecer limites. Estudos mostram que pessoas diferentes podem apresentar respostas metabólicas distintas às mesmas refeições. Além disso, um ensaio clínico de 2024 encontrou algumas melhorias cardiometabólicas com aconselhamento nutricional personalizado. Mas uma escala baseada apenas em idade, sexo e fase da vida não capta o metabolismo, a doença, a medicação ou todo o contexto alimentar. É um primeiro passo para pessoas saudáveis, não uma promessa de precisão absoluta.
Também não devemos esconder a incerteza. Muitos alimentos não têm informação completa sobre vitaminas, minerais, gorduras trans ou açúcares livres. Quando faltarem dados relevantes, o sistema deveria indicar “informação insuficiente” ou uma confiança reduzida, em vez de inventar uma certeza. Uma letra só é útil se o consumidor puder perceber que nutrientes a fizeram subir ou descer.
A implementação poderia ser simples. A embalagem manteria uma classificação geral, enquanto um código QR, uma aplicação pública ou o sistema digital do supermercado mostraria a classificação correspondente ao perfil escolhido. Para a maioria das pessoas, bastariam poucos dados, que poderiam permanecer no próprio dispositivo. Personalizar não tem de significar recolher um historial clínico.
Não precisamos de construir um gémeo digital de cada cidadão para melhorar a informação alimentar. Basta começar por admitir algo evidente: uma criança, um adulto, uma grávida e uma pessoa mais velha não têm necessidades nutricionais idênticas. As escalas atuais ajudaram-nos a tornar a nutrição mais visível. O próximo passo é torná-la mais completa, mais transparente e um pouco mais pessoal. Entre o A e o E, falta ainda a pergunta essencial: para quem?
Por Luís Rita
(Teksapo)
