A emailite generativa

By | 24/09/2026

Nuno Saraiva defende que a inteligência artificial generativa está a aumentar não só a quantidade de coisas que consumimos, mas também o tamanho das coisas que somos obrigados a fingir que consumimos. E depois da “emailite” generativa há mais pecados a caminho, mas se o bom senso não chegar pode vir o regulamento para resolver.

A short declaration of love to AI: I love you, but we need to talk

A inteligência artificial veio para nos poupar tempo. É o que se diz. E é bonito. Quase comovente. Um dia destes ainda havemos de chorar diante de um botão que diz “gerar resposta” como quem chora diante de um filho que finalmente aprendeu a atar os sapatos. O problema é que, como todos os filhos prodigiosos, este também faz disparates. E nós, babados, deixamos.

A primeira vítima foi o conteúdo. Já havia demasiado, claro. Textos, posts, comentários, newsletters, relatórios, resumos, contra-resumos, vídeos sobre textos, textos sobre vídeos e pessoas a explicar em sete pontos aquilo que podia ter sido resolvido com um encolher de ombros. Mas agora temos ajuda. A máquina escreve. A máquina expande. A máquina melhora. A máquina acrescenta. Sobretudo, a máquina acrescenta.

Antigamente, um email começava assim: “Olá, podes enviar-me o ficheiro?” Era uma frase simples, quase rude na sua eficiência. Hoje, com a ajuda da inteligência artificial, o mesmo pedido pode vir embrulhado em quatro parágrafos de cortesia preventiva, empatia institucional e entusiasmo moderado. “Espero que este email te encontre bem.” Nunca encontra. Encontra-nos sempre a meio de outro email, que também espera encontrar-nos bem.

A inteligência artificial generativa está a aumentar não só a quantidade de coisas que consumimos, mas também o tamanho das coisas que somos obrigados a fingir que consumimos. Emails que antes eram bilhetes são agora pequenas teses com cumprimentos finais. Mensagens que antes cabiam numa linha chegam agora como se tivessem passado por um curso intensivo de diplomacia escandinava.

E isto ainda mal começou.

Porque a próxima epidemia não será a dos emails. Será a das apresentações. Quando toda a gente tiver uma ferramenta capaz de transformar três ideias soltas em cinquenta slides com ícones, gráficos, metáforas visuais e uma fotografia aspiracional de uma equipa a olhar para um vidro, acabou-se. Nunca mais ninguém fará dez slides. Porquê dez, se a máquina faz cinquenta? Porquê cinquenta, se também faz oitenta? E porquê parar nos oitenta, se há sempre uma secção chamada “contexto”?

O PowerPoint sempre teve uma inclinação natural para o pecado. A inteligência artificial veio apenas retirar-lhe a vergonha. Em breve, uma reunião de meia hora terá um deck de setenta e duas páginas, mais anexo, mais appendix, mais backup slides, que é o purgatório das apresentações: ninguém quer lá ir, mas toda a gente acredita que é prudente existir.

E quem vai consumir tudo isto?

Já temos reuniões para falar de emails e emails para resumir reuniões. Em breve teremos reuniões para discutir apresentações geradas por inteligência artificial a partir de emails que ninguém leu sobre reuniões onde ninguém falou. A humanidade não acabará com uma explosão. Acabará com alguém a dizer: “Vou só partilhar o ecrã.”

Vamos ter reunite. Já temos. Mas vem aí a emailite. E, depois, a slidite. Inflamações sucessivas do tecido profissional. Uma doença autoimune das organizações, em que o corpo ataca a própria agenda.

O mais curioso é que tudo isto nasce de uma promessa nobre: sermos mais eficientes. Mas a eficiência individual, quando não tem educação, transforma-se em ineficiência coletiva. Eu poupo cinco minutos a gerar um email enorme; vinte pessoas perdem três minutos a lê-lo, ou a não o ler com culpa. Eu poupo uma hora a fazer uma apresentação gigante; quinze pessoas perdem uma tarde a atravessá-la como quem atravessa uma autoestrada em hora de ponta.

A pergunta, portanto, não é se a inteligência artificial nos torna mais produtivos. A pergunta é: produtivos para quem? Para mim, que carrego num botão? Ou para todos os outros, que recebem o produto do meu botão?

Se o bom senso de cada um não chegar, talvez venham as regras. E é sempre triste quando o bom senso falha e entra o regulamento. Primeiro, regras de email. Depois, regras de apresentações. Limites de caracteres, como nos velhos SMS, mas com menos romantismo. Cem palavras por email, salvo autorização superior. Três perguntas por mensagem. Proibido “só para dar contexto” sem licença. Assunto obrigatório em forma de verbo: aprovar, decidir, enviar, cancelar, fugir.

Depois virá o crédito diário de comunicação. Cada pessoa terá um plafond para entupir a vida dos outros. Gastou tudo em emails longos antes do almoço? Paciência. À tarde, só pode comunicar por gestos. Quem quiser mandar um anexo de vinte páginas terá de preencher um formulário a explicar quem feriu.

E os slides também terão racionamento. Dez por reunião. Quinze em caso de força maior. Mais de vinte só com atestado médico. Quem usar a expressão “journey” perde dois slides. Quem disser “ecossistema” perde três. Quem abrir com “antes de começarmos, só um bocadinho de contexto” fica impedido de apresentar até ao trimestre seguinte.

Talvez seja este o destino natural da loucura generativa: depois de anos a produzir tudo em excesso, voltaremos aos cartazes. Posters. Uma folha grande na parede. Uma ideia principal, três argumentos, uma seta, talvez uma fotografia se houver coragem. As pessoas levantam-se, olham, conversam e seguem viagem. Um regresso à pré-história, mas com menos carga mental. Depois da inteligência artificial, a humanidade descobrirá o A3.

Não é que as ferramentas sejam más. Pelo contrário. São extraordinárias. O problema somos nós, que temos uma tendência antiga para confundir facilidade com necessidade. Porque agora é fácil escrever mais, vamos escrever mais. Porque é fácil apresentar mais, vamos apresentar mais. Porque é fácil gerar, vamos gerar. E gerar. E gerar. Até alguém, no fundo da sala, levantar a mão e perguntar a coisa mais revolucionária do século XXI: “Mas isto era preciso?”

Nesse dia, talvez haja esperança.

Por Nuno Saraiva –  Director da Divisão de Luxo da L’Oréal