Nas redes sociais, crianças e adolescentes fazem GRWM, testam produtos de beleza, dançam músicas virais. As fronteiras entre a vida adulta e a infância parecem estar cada vez mais esbatidas. TOSHIIB4, peça vencedora da Bolsa Amélia Rey Colaço, convida-nos a olhar para uma outra internet e para um espaço liminar subvalorizado: a adolescência. Carolina Franco parte de TOSHIIB4 para uma reflexão alargada sobre girlhood, o quarto da adolescência e as festas pijama.
“I don’t need permission, make my own decisions. That’s my prerogative”
— “My Prerogative”, Britney Spears
Há uma cena de Clueless, filme de culto do final dos anos 90, que me vem imediatamente à cabeça quando penso na confusão de sentimentos que um filme datado, mas que nos marcou profundamente, pode ter. Cher e Dionne, duas melhores amigas que estudam juntas e são ícones da moda na sua escola secundária em Beverly Hills, Califórnia, decidem acolher uma nova amiga no grupo, Tai, e fazer-lhe uma makeover. “I don’t care what my teachers say, I’m gonna be a supermodel”. Enquanto ouvimos a música Supermodel, de Jill Sobule, a tocar como banda sonora, Cher e Dionne tiram a tinta do cabelo de Tai, maquilham-na, cortam uma camisola para a transformar num crop top e vestem-lhe uma mini saia.
Durante o processo, Cher e Dionne parecem genuinamente interessadas em ajudar a amiga e proporcionar-lhe um momento de girlies. Tai parece sentir-se mais confiante. Mas, no final de contas, percebemos que o desafio era tornar Tai, a nova amiga, digna de fazer parte do grupo de miúdas populares. Torná-la mais atraente para rapazes e invejável para outras raparigas. Até porque esse é o seu ponto em comum. Como diz Cher logo na cena de abertura: a Dionne também sabe o que é ser invejada.
Esta separação entre as bonitas e as feias, as magras e as gordas, as ricas e as pobres foi retratada vezes e vezes sem conta em filmes coming of age que marcaram o imaginário de quem estava a crescer no final dos anos 90 e na primeira década de 2000. E as cenas de transformação (makeover) para fazer a travessia estavam sempre lá. O makeover de Cady para poder começar a fazer parte das plastics em Mean Girls. Laney de She’s All That, que passa de miúda geek a par ideal para o rapaz popular da escola. Ou até Mia Thermopolis, no Diário da Princesa, que tem de deixar de usar óculos, fazer as sobrancelhas e alisar o cabelo para ser uma princesa a sério.
A investigadora Julia Wagner sintetizou este fenómeno, num artigo da BBC a propósito dos 25 anos de Clueless: “As transformações visuais nos filmes encenam a concretização de um desejo — o de que todos nós podemos, apenas com algum conhecimento, transformar-nos em pessoas bonitas e confiantes”. Resta perguntar dentro de que parâmetros de beleza.
Muito tem sido escrito sobre a forma como a cultura pop nos passou o standard dos padrões de beleza e normalizou a objetificação dos nossos corpos. Se dúvidas existirem sobre o impacto que o cinema, a televisão ou a publicidade podem ter na forma como nos vemos, basta pensarmos quantas vezes fomos duras demais connosco e nos comparámos com outras mulheres e qual era a aparência da maior parte das mulheres com algum tipo de visibilidade mediática. As atrizes de Hollywood, as cantoras pop, as apresentadoras de televisão, as top models. Magras, desejáveis, limpas. Eram elas as referências que nos apresentavam para nos fazer sonhar com a vida adulta. Nós não sabíamos, mas estávamos a ser ensinadas a submeter-nos ao olhar masculino.
Nas revistas para adolescentes, em páginas e páginas dedicadas a como ser mais atraente e como conquistar rapazes. Nos filmes, histórias sobre raparigas que mudam de visual para conquistar rapazes. Nos videoclipes com corpos femininos magros a serem objetificados.
No livro Girl On Girl, a jornalista Sophie Gilbert descreve-o da seguinte forma:
“Durante grande parte da década de 2000, o passatempo cultural e de entretenimento mais popular consistia em ver e observar mulheres: nos reality shows, em conteúdos pornográficos, em videoclipes, em revistas, no cinema — géneros que se iam fundindo, cruzando e apropriando uns dos outros com uma facilidade perturbadora.”
Mas a dado momento, o mundo começou a gostar particularmente de assistir à sua destruição. No fatídico ano de 2007, Britney Spears entrou num salão de cabeleireiro e rapou o seu próprio cabelo num ato de desespero. O momento foi capa de jornais sensacionalistas e o tempo acabou por se encarregar de o transformar num meme da internet. Mais do que isso, tornou-se num produto: dez anos depois, a Urban Outfitters vendia canecas com a frase “Britney survived 2007. You can handle today”.
Como Britney, outras celebridades pop da altura assistiram à tentativa de degradação pública da sua imagem. Lindsay Lohan, Paris Hilton, Nicole Ricci, Kate Moss, só para nomear algumas. O ano de 2007 marcou uma viragem: foi lá que o voyeurismo promovido hoje pelas redes sociais se começou a culturalmente. Foi nesse ano que estreou aquele que viria a ser o mais bem sucedido programa de reality TV de sempre: Keeping Up With The Kardashians. E curiosamente, também foi nesse ano que foi lançado o primeiro iPhone, uma das ferramentas principais de qualquer voyeur digital e um símbolo de status intimamente ligado à tecnologia.
Mas 2007 também nos trouxe o Tumblr, a loucura da adolescência retratada em Skins, os edits com os melhores momentos de Effy Stonem, no YouTube, ao som de Crystal Castles, a carreira de Lily Allen a emergir no MySpace e a sua honestidade brutal a ganhar espaço entre o público mais jovem. Já vivíamos o auge do Habbo e ainda tínhamos a naturalidade do anonimato nos jogos e fóruns da internet.
Os media podiam estar a querer mostrar o lado menos glamouroso das celebridades, sobretudo mulheres. Mas havia um movimento paralelo a acontecer na internet, onde os mecanismos de mediação não eram os mesmos e a destruição era vindicada. Em redes sociais, fóruns e blogs, pessoas comuns, mas também as próprias celebridades, começaram a contar as suas histórias, com as suas palavras e o seu ponto de vista. Com este movimento, as personagens femininas nos filmes e nas séries mainstream começavam também a ser mais complexas, menos polidas, com narrativas menos estereotipadas.
Em 2012 estreia Girls, série de Lena Dunham sobre um grupo de amigas jovens adultas a viver em Nova Iorque, e Frances Ha, filme de Noah Baumbach com Greta Gerwig. Havia qualquer coisa inspiradora para uma adolescente em olhar para personagens como Hannah Horvath ou Frances Halladay. Eram meio desajeitadas, já refletiam as preocupações do seu tempo, tinham uma série de contradições, mas eram protagonistas.
Algures numa pequena cidade no norte de Portugal, numa vila em Itália, numa aldeia noutro canto do planeta, a internet já era um portal para o mundo. E em qualquer um desses lugares havia um grupo de amigas a conversar sobre todas estas transformações numa festa do pijama, numa noite quente de verão.
Um quarto para todas nós
“No matter where we come from we can be ourselves and still be… one”
— “Amigas Cheetas”, Cheetah Girls
Há uma publicação que vai surgindo na internet, ora em forma de carrossel, ora em forma de meme ou vídeo, que diz algo como: pessoas nascidas no final dos anos 90 e início dos 2000 viveram uma adolescência irrepetível. Viram a tecnologia e a internet ocupar o lugar dominante na vida de todas as pessoas, cresceram a assistir a isso, mas ainda experienciaram brevemente o que era a vida antes dessa revolução. Antes dos algoritmos das redes sociais se começarem a internalizar e, por todo o lado, se padronizarem formas de vestir, de decorar a casa e se diluirem as fronteiras entre a infância e a vida adulta.
Um quarto de adolescente era um espelho do seu mundo interior, dos seus gostos e aspirações. Imaginemos o seguinte cenário: de um lado uma parede rosa choque, no lado oposto uma parede branca com um poster da Audrey Hepburn, outro do filme Remember Me (pedido ao cinema local depois do fim de vida do filme em sala) com Robert Pattinson e Emilie de Ravin abraçados, outro do disco Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles. Uma secretária encostada à janela com um computador de torre, um monitor e umas pequenas colunas de onde ia saindo o som das notificações do Messenger, a música de introdução do Sims ou o MTV Unplugged in New York dos Nirvana. Estantes com revistas Vogue, Bravo e Dazed and Confused, livros que iam de A Lua de Joana e Filhos da Droga aos resquícios da coleção da Fada Carolina. Este era o meu quarto.
O livro In My Room: Teenagers in Their Bedrooms, da fotógrafa Adrienne Salinger, tem provas de que não era só eu. Quando se tinha um quarto só para si, ser adolescente, no Marco de Canaveses ou no Kansas, era sinónimo de construir um forte para o crescimento pessoal. Deixar o quarto da infância e colar posters na parede era um ritual de transição. Naquele lugar, nós estabelecíamos as regras possíveis dentro da nossa condição de não-adultas. Apercebi-me ao longo dos últimos anos, a trabalhar com adolescentes, que talvez o quarto já não fosse O Quarto. A memorabília espalhada entre quatro paredes foi desaparecendo. Os cinemas das pequenas localidades fecharam, as revistas para adolescentes deixaram de existir, os CDs e os DVDs passaram a ser obsoletos. E o aparato digital, do rolo de câmara do telemóvel aos perfis das redes sociais, começou a ocupar esse espaço.
Esta questão já foi levantada por Claire Marie Healy num artigo que escreveu para a AnOther, “Do Teenage Girls’ Bedrooms Mean What They Used To?”. Claire é seis anos mais velha do que eu, mas o quarto teve exatamente o mesmo papel na nossa adolescência. Neste texto analisa como agora é através das redes sociais que adolescentes interagem primeiro com aquilo a que chama de “mundo autorizado” e di-lo de forma clara: “O teu telefone e portátil são a última fronteira entre ti, no teu quarto, e tudo o resto.”
No meu quarto, passei muitas horas de porta fechada, a conversar com amigos e com estranhos na internet, a vestir bonecas no Stardoll e a ver séries que os meus pais não sabiam que eu estava a ver. Mas as melhores memórias daquele quarto são com as minhas amigas presentes. Só precisávamos de pelo menos duas para fazer uma festa do pijama. Para quem cresce fora das grandes cidades, os quartos das amigas são uma espécie de terceiro espaço. Não é o recreio da escola, onde podemos ser ouvidas ou interrompidas a qualquer momento pela autoridade das auxiliares ou o assédio dos rapazes, nem é uma divisão partilhada da nossa própria casa sob vigilância dos familiares. É um espaço íntimo e, por isso, poderoso.
Com as nossas amigas, partilhávamos as referências que tínhamos descoberto na internet, personalizávamos os perfis do Tumblr e do Blogspot, imprimíamos os kits de colagem da Rookie Magazine, fazíamos sessões de karaoke com Lana del Rey e Adele, procurávamos os melhores quizzes do Buzzfeed, assistíamos às nossas celebridades favoritas a metamorfosear-se. Às vezes entrávamos no Chatroulette para ver o que aparecia. Partilhávamos paixões, chorávamos pelos desamores, tiramos dúvidas sobre sexualidade. Era um momento para nos descobrirmos a nós mesmas, e umas às outras, em conjunto. Durante a festa do pijama, o tempo ficava em suspenso: enquanto o resto das pessoas dormia, nós falávamos sobre todos os temas neste espaço seguro e permitiamo-nos partilhar o que nunca tínhamos dito em voz alta. Oversharing não era um conceito. Ou talvez fosse, mas não estávamos preocupadas com isso. Enquanto uma amiga pintava as unhas à outra, ou lhe fazia uma maquilhagem que não veria a luz do dia, as conversas verdadeiramente profundas aconteciam.
Guardei estas memórias numa caixa que voltei a abrir na Sala Estúdio Valentim de Barros, em Lisboa, quando assisti a Toshiib4, a peça com que Luísa Guerra ganhou a 8.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço.
Ser uma e todas ao mesmo tempo
“All the good things in my life have come to me through screens.”
— Girl Online, Joanna Walsh
A sala estúdio está transformada num quarto gigante. Há almofadas no chão para nos sentarmos ou deitarmos. A sensação parece-se com a ida a uma festa de anos onde só conhecemos a aniversariante. Nós, espectadoras, estamos entre a mesa redonda da festa do pijama que vai acontecer naquela noite e um ecrã oval onde vemos um ambiente de trabalho projetado. Somos público e parte integrante do espetáculo ao mesmo tempo. E há um conforto estranho desde o início. Estar ali deitadas no chão baixa-nos as guardas que o mundo fora daquela black box talvez nos impusesse — e nem importa se nunca vimos aquelas pessoas na nossa vida, estamos numa experiência partilhada desde o primeiro minuto.
Naquele universo tudo é girl coded. Em cima de uma mesa espelhada e com pêlo sintético rosa choque, há computadores, livros, vernizes, glitter, caixas que guardam coisas que não conseguimos identificar. Ser adolescente na década de 2010 não é o mesmo que passar por este processo no final dos anos 90 ou no início dos 2000. A internet trouxe-nos novas referências, novas linguagens e uma consciência apurada para, no mínimo, vermos com ceticismo as makeovers de Clueless ou Mean Girls.
Toshiib4 faz da festa do pijama um dispositivo cénico e põe-nos a pensar como esta é uma espécie de último reduto da conspiração feminina e queer. E não o faz por acaso. “Se muitas vezes a comunidade online me salvou, os momentos AFK, no contexto entre amigas, também”, dir-me-ia mais tarde Luísa Guerra, a autora da peça. Luísa percebeu que, mais do que simples momentos de encontro, essas festas pijama podiam ser “incubadoras do discurso e da resistência”. É a isso que assistimos assim que esta começa: a um momento de reparação coletiva.

Se é simbólico que a Sala Estúdio dos Jardins do Bombarda, onde este espetáculo decorre, tenha o nome do bailarino Valentim de Barros, que viveu aprisionado naquele mesmo lugar quando ainda era um Hospital Psiquiátrico, também é simbólico que se faça ali um espetáculo que fala para uma geração que se pensa mais a si mesma e aos seus traumas. Uma geração que teve acesso à informação através de pesquisas no Google, loops infinitos na Wikipédia e tutoriais do YouTube, mas também a partir de pornografia não-solicitada, guerras em livestream, as fronteiras entre a verdade e a mentira completamente diluídas.
E também é simbólico que Luísa Guerra o decida fazer com os códigos, a cadência e a linguagem da internet, sem pedir desculpa. Para falar a partir de um lugar temporal historicamente marginalizado: a adolescência.
“À adolescência é sempre retirada importância. A adolescência feminina, principalmente, é sempre minorizada”, disse Luísa Guerra, numa conversa que tivemos dias depois do espetáculo. “As adolescentes são sempre [vistas como] superficiais, frívolas, estúpidas. O que gostam, o que leem, o que ouvem, é sempre inferiorizado.” E está aí uma das frentes de reparação: levar este universo para o teatro, sob a alçada do Teatro Nacional D. Maria II, para mostrar que “ ser girly não significa ser vazio”.
Olhar para a adolescência feminina, num exercício quase auto-etnográfico, seria sempre uma proposta relevante. Mas é-o particularmente num momento em que a fronteira entre a adolescência e a vida adulta parecem estar tão esbatidas. Nas redes sociais das big tech, adolescentes e adultos vêem os mesmos conteúdos, criam conteúdos semelhantes, recebem recomendações semelhantes. Nas séries de adolescentes mais aclamadas, como Euphoria, a adolescência parece estar cristalizada nos cenários da escola secundária, dos bailes de finalistas e das festas em casa de pessoas. Só que a vida de cada uma daquelas personagens também é um reflexo dessas fronteiras esbatidas e da individualização (ou o síndrome de personagem principal) que as redes sociais podem trazer.

A proposta de Luísa Guerra vai num sentido inverso: ela parte dos códigos e do vocabulário da internet para pensar sobre a vida e as relações pessoais. O texto de Toshiib4 tem o ritmo de um feed de Instagram: os assuntos vão e vêm, mudam repentinamente, podem durar segundos ou minutos. E o vocabulário é o slang que quem não entende poderá encontrar com uma pesquisa no Urban Dictionary. Não é um big deal. Será que quando alguém vai ver uma peça de Shakespeare ou Tchekhov entende cada palavra proclamada? A resposta é simples: não.
Luísa não sabe o que é crescer sem internet. Esta é a sua realidade; é o lugar de onde parte para analisar o mundo. Se a melhor leitora de Girl Online, livro de Joanna Walsh, é a própria internet, a melhor espectadora de Toshiib4, de Luísa Guerra, também é a internet. Reconhecemos no olhar de quem se deita ali ao nosso lado o conforto de ouvir em voz alta as experiências partilhadas e os pensamentos que fomos tendo enquanto adolescentes. Mas também vemos o desconforto de quem não concebe que se fale sobre aqueles assuntos em voz alta, naquele lugar.
Lena Dunham ousou escrever sobre fantasias kink em Girls, e representar as contradições em que mulheres millennials feministas foram encontrando em si mesmas. Depois de escrever Famesick, o seu mais recente livro de memórias, decidiu apresentá-lo em cima de uma cama e chamar amigas para se deitarem consigo a conversar. Lily Allen escreveu sobre a tentativa de viver uma relação não monogâmica com o marido, que quebrou as regras acordadas por ambos, em West End Girl. Apresenta-o num cenário que replica a casa onde sentiu aprisionada, com a cama onde passou horas deitada, deprimida. Luísa Guerra escreveu, em Toshiib4, sobre como foi crescer na era da internet e ter uma introdução à sexualidade através de videojogos, pornografia, filmes e séries, e interações nem sempre consentidas. E convidou-nos a fazer parte de uma festa do pijama onde somos realmente acolhidas.
Todas elas desafiaram, de alguma forma, os códigos da televisão, da música e do teatro dizendo o que não se espera que elas digam, onde também não é suposto que o digam. Refletem a partir de si, mas não sobre si. Contam-nos histórias onde a tecnologia é co-protagonista — seja através de redes sociais, apps de encontros ou motores de busca cujo histórico guarda as perguntas que não teríamos coragem de fazer a alguém. E todas nós, que já estivemos lá a dado momento, sentimo-nos vistas.
Toshiib4 é, ao mesmo tempo, cronicamente online e puramente AFK. Desafia os conceitos que a internet das redes sociais acredita que domina e usa-os para hackear a própria internet. Aqui não tem de haver culpa, o conceito de romantização não é necessariamente um problema, o gossip pode ser um gesto político, a partilha nunca é too much. Os dispositivos eletrónicos, a memorabília da adolescência e os livros dão forma ao pensamento, não são meros objetos decorativos. A festa do pijama não surge como um símbolo nostálgico, mas antes como um dispositivo de representação da intimidade. Um espaço onde a competição é preterida pela cumplicidade.
“Acho que o problema que o patriarcado mais nos imputa é que nós temos que ser escolhidas. A minha geração tem muito pop star syndrom.”, diz-me Luísa Guerra. E se em Euphoria vemos uma emulação dessa pop star syndrom, em Toshiib4 assistimos à sua dissecação. É no gesto partilhado, à volta da mesa, num ambiente de cuidado e afeto, que nos lembramos que os encontros íntimos com as nossas amigas são o ato diário mais revolucionário que podemos fazer para ensaiar um discurso e uma prática contra-corrente. Não se trata de uma apologia do analógico, mas de afirmar a intimidade e o encontro como forma de resposta aos novos constrangimentos que vão sendo impostos. Até porque, como diz Luisa Guerra, a internet não é um elemento externo, está “imprinted” em cada uma de nós.
Toshiib4 mostra que, por vezes, um pequeno espaço com apenas 3 ou 4 girlies pode ser mais plural do que um espaço hipermediado e hipervigiado como as redes sociais. Mas não o faz a partir da subtração; pelo contrário, convida ao desafio das novas formas de autoridade através de uma espécie de multiplicação. Apresenta-nos a girlhood como um espectro, alinhada com o manifesto de Glitch Feminism, onde cabem as brat, as cunty e todas as categorias que existirem nos submundos da internet. E sugere que talvez não seja sobre escolher um destes rótulos, mas escolhê-los a todos, e ao mesmo tempo. “Acho que quanto mais nós enumeramos, mais nos desidentificamos, porque pluralizamos a noção de self”, explica-me.
Mais do que usar a internet para descobrir o mundo exterior, a peça convida-nos a perceber como influencia aquilo em que nos tornamos. Isto num tempo em que o quarto nem sempre reflete a personalidade, onde os posters e os CDs perderam esse espaço físico de construção do self, em que somos obrigadas a descobrir-nos em público, e numa altura em que as festas pijama parecem estar em decadência — talvez por terem descoberto o seu potencial revolucionário.
Se nos filmes dos anos 2000 as makeovers eram um ritual de travessia claro que foi destronado pela multiplicidade da internet, com a consolidação das redes sociais algorítmicas, e a emergência das trends e dos virais, as imposições podem ser mais difusas mas continuam a moldar o processo de crescimento e a ditar em quem nos tornamos. Talvez não tanto à imagem do olhar masculino, mas definitivamente à imagem da performance digital (que assenta numa base igualmente misógina).
Toshiib4 não funciona como um manual de instruções, é mais uma espécie de ensaio e espaço de libertação. Uma ativação da incubadora de resistência que a festa do pijama pode ser. A internet está lá, impressa em nós e na nossa existência, mas é no encontro que nos regulamos. São as amizades, mais do que as conexões, que nos cuidam e reparam. Que nos ajudam a tornar-nos na nossa versão seguinte. São elas que nos resgatam do isolamento dos tempos modernos e do bedrotting.
Quando o espetáculo termina, ouvimos Luísa a dizer:
“The ego dies, the self comes apart, dissolves and remakes itself”.
Talvez possamos mesmo ser todas as girlies ao mesmo tempo, ser os nossos próprios avatares customizáveis, escolher no que ainda nos podemos tornar. Se pudermos fazê-lo juntas, pela noite dentro, melhor.
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Carolina Franco tem escrito sobre cultura, género e internet. Acredita cada vez mais que está tudo ligado. É jornalista e diretora do Shifter. Estudou Ciências da Comunicação no Porto, tem uma pós-graduação em Curadoria de Arte e mestrado em Antropologia-Culturas Visuais pela NOVA FSCH, com uma tese sobre representatividade trans* no audiovisual. Entre 2022 e 2025 colaborou com o projeto de literacia mediática PÚBLICO na Escola. O seu trabalho também pode ser lido no Gerador, na Revista MIL, na Vuyazi e no PÚBLICO. Co-fundou, em 2024, o projeto Perpétuas — uma leitura sobre o apagamento de mulheres e pessoas queer a partir dos cemitérios de Lisboa.
(Shifter)

