Qualcomm aposta em 6G com inteligência artificial integrada à própria rede

By | 06/09/2026

Qualcomm desenvolve arquitetura 6G com inteligência artificial integrada à rede e testa, com a Ericsson, tecnologias nas frequências entre 6 GHz e 8 GHz.

A próxima geração das redes móveis começa a ganhar forma com uma mudança importante em relação ao 5G: a inteligência artificial poderá deixar de ser apenas uma aplicação executada sobre a infraestrutura de telecomunicações e passar a fazer parte do funcionamento da própria rede.

Essa é uma das linhas de pesquisa conduzidas pela Qualcomm no desenvolvimento do 6G. A fabricante trabalha em uma arquitetura denominada “AI-native”, na qual recursos de inteligência artificial poderão estar distribuídos entre smartphones e outros dispositivos, a rede de acesso por rádio (RAN) e o núcleo da infraestrutura móvel.

Na prática, a proposta é fazer com que a IA participe de decisões relacionadas à comunicação entre dispositivos e rede. Modelos de inteligência artificial poderão auxiliar na interpretação das necessidades das aplicações, na distribuição de recursos, no escalonamento da rede e na definição de parâmetros de transmissão.

IA passa a fazer parte da arquitetura do 6G

A principal diferença da abordagem está justamente na posição que a inteligência artificial ocuparia dentro da infraestrutura.

Em vez de funcionar exclusivamente em serviços utilizados pelo consumidor, a IA poderia contribuir diretamente para o gerenciamento da conexão. Um dispositivo, por exemplo, poderia fornecer à rede informações sobre o tipo de aplicação em execução e suas necessidades de comunicação.

Com essas informações, a infraestrutura poderia ajustar dinamicamente recursos disponíveis, capacidade de transmissão e outros parâmetros para atender às demandas de cada aplicação.

Esse modelo também ganha relevância diante da expansão de sistemas baseados em IA, sensores conectados e agentes autônomos. Essas aplicações tendem a produzir e transmitir volumes maiores de dados, aumentando a importância do chamado uplink, que corresponde ao fluxo de informações enviado dos dispositivos para a rede.

Por isso, a Qualcomm coloca entre os desafios do 6G questões como cobertura, eficiência espectral e consumo energético, especialmente no tráfego de dados no sentido dispositivo-rede.

Qualcomm e Ericsson testam espectro entre 6 GHz e 8 GHz

Paralelamente ao desenvolvimento da arquitetura de rede, a Qualcomm e a Ericsson vêm realizando experimentos com tecnologias que utilizam frequências entre 6 GHz e 8 GHz, uma faixa considerada nos estudos internacionais para a evolução das redes móveis.

As duas empresas anunciaram, em fevereiro, uma demonstração utilizando uma portadora de 400 MHz e espaçamento de 30 kHz entre subportadoras. A configuração está relacionada às pesquisas realizadas no âmbito da Release 20 do 3GPP, grupo responsável pela padronização internacional das redes móveis.

Os protótipos empregados nos testes utilizam quatro antenas de transmissão e quatro de recepção. Também estão sendo avaliadas técnicas voltadas à melhoria da cobertura do uplink.

Uma das tecnologias pesquisadas pela Qualcomm é o Giga-MIMO, que utiliza grandes conjuntos de antenas para lidar com as características de propagação das ondas em frequências mais elevadas.

A utilização de múltiplas antenas permite explorar canais mais largos e, consequentemente, ampliar a capacidade potencial de transmissão de dados.

Outro aspecto considerado pela empresa é a possibilidade de utilizar essa camada de espectro em locais que atualmente já contam com infraestrutura 5G em bandas médias. Isso poderia facilitar a evolução da cobertura à medida que novas tecnologias forem incorporadas às redes móveis.

Decisão da Anatel afeta o uso da faixa de 6 GHz no Brasil

No Brasil, entretanto, a discussão sobre o espectro entre 6 GHz e 8 GHz também envolve decisões regulatórias.

Em agosto, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) determinou que os sistemas WAS/RLAN na faixa de 6 GHz operem entre 5.925 MHz e 6.425 MHz.

Com a decisão, foram preservados 500 MHz da faixa para sistemas de acesso sem fio, incluindo tecnologias como o Wi-Fi, enquanto o tratamento regulatório da parte superior do espectro foi alterado.

Isso não significa, contudo, que a faixa superior tenha sido automaticamente destinada ao 6G no país.

Os experimentos realizados pela Qualcomm e pela Ericsson fazem parte de um processo internacional de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. A definição de quais frequências serão efetivamente utilizadas pelo 6G em cada país dependerá de decisões regulatórias, estudos de compatibilidade e da evolução dos padrões internacionais.

Padronização do 6G deve avançar até o fim da década

O desenvolvimento do 6G ainda está em uma fase anterior à implantação comercial em larga escala. A expectativa da Qualcomm é que os primeiros padrões da nova geração sejam concluídos entre 2029 e 2030.

Até lá, fabricantes de chips, empresas de equipamentos de telecomunicações, operadoras e companhias de tecnologia devem continuar realizando testes para determinar quais tecnologias terão condições de integrar a especificação definitiva.

Em março, a Qualcomm também anunciou uma iniciativa envolvendo fabricantes, empresas de tecnologia e operadoras com o objetivo de estabelecer uma trajetória para a comercialização do 6G a partir de 2029.

Entre as empresas participantes estão Ericsson, Nokia, Samsung, Google, Microsoft, Amazon, Meta, Cisco, Dell, HPE, T-Mobile e TIM Group.

O movimento mostra que a corrida pelo 6G já ultrapassou a simples busca por velocidades maiores. A próxima geração deverá envolver uma transformação mais ampla na forma como as redes são projetadas e operadas, com inteligência artificial, automação, novos modelos de antenas e utilização mais eficiente do espectro trabalhando de forma integrada.

Se essa visão avançar conforme o planejado, o 6G poderá representar não apenas uma evolução na velocidade das conexões móveis, mas uma mudança na própria arquitetura das telecomunicações, tornando a rede mais adaptativa e capaz de tomar decisões em tempo real de acordo com as necessidades de dispositivos, aplicações e usuários.

(Engenhatiae)