As parede do casino caíram. Agora, as apostas estão por todo o lado e são sobre tudo. Desfechos de guerra, as palavras utilizadas nos discursos de Trump, resultados de eleições. Neste ensaio, Bartolomeu Marçal Grilo reflete sobre a origem inata das apostas e o caminho até aos mercados de previsão.
Numa casa da árvore, longe do mundo dos adultos, três miúdos estão a matar o tempo durante uma tarde das suas longas férias de verão. Em cima da mesa, ao lado de um monte de cartas, estão meia dúzia de moedas. O jogo é tenso. Entre as mãos nas cartas e o fumo impuro dos cigarros, os rapazes riem-se às gargalhadas e implicam uns com os outros. Esta imagem é um pretexto para a entrada do narrador, que também lá está sentado: “Chris Chambers era o líder do gangue, era também o meu melhor amigo e vinha de uma família problemática”; “Teddy era o mais maluco de nós todos, o pai tinha acessos de raiva e uma vez queimou-lhe a orelha no fogão”. A voz é interrompida por Vern, o quarto membro do grupo e a personagem mais inocente, que aparece do chão com uma proposta que deixa os amigos na casa da árvore congelados: “Malta, querem ir ver o corpo de um morto?”
Este é o início de Stand by me, filme de 1986 realizado por Rob Reiner. Depois de lhes chegar o rumor de que o corpo do miúdo que andava desaparecido está algures ao pé de um rio, quatro rapazes partem numa odisseia pelas florestas cerradas do Oregon, determinados a ser os primeiros a encontrá-lo. “Aposto o que quiserem que, se o encontrarmos, as nossas fotografias saem no jornal”, diz um deles.
Apostar não é um desejo desconhecido para quem já foi adolescente. Quando regressávamos da escola, uma voz atrevida desafiava-nos a chegar primeiro àquela árvore. Na maioria das vezes, não havia nada em jogo para além de uma breve humilhação, caso ficássemos em último. Mas a palavra “aposto” tinha um poder mágico que transformava uma pequena proposta num evento soberano que provocava a atenção de quem estivesse à volta. Nesta idade, tudo era apostável. A imaginação era o limite. Em parte tínhamos acabado de herdar esta qualidade das crianças, as grandes inventoras do jogo, que não é nada mais que uma forma de experimentar o mundo dentro da bolha protetora da infância.
A amizade dos quatro rapazes está condenada pela melancolia da vila americana onde vivem. Chris vai seguir o caminho da família. Teddy não tem hipótese. Vern e Gordie são “inteligentes” — mas também carregam a sua própria culpa. O futuro destes rapazes, atravessado pelos erros dos adultos, assombra a viagem — no som crescente do comboio que os encurrala na travessia da ponte sobre o rio. E no entanto continuam. É o fascínio pelo rosto pálido do rapaz morto que os puxa para a frente — porque é para lá do extremo limite da morte que as diferenças que o mundo lhes impôs se dissolvem e a amizade encontra o espaço onde floresce.
É nessa vertigem que surgem os cigarros, as mentiras aos pais e as apostas. Juntos, os rapazes tocam onde nenhum deles conseguiria tocar sozinho — não no limite da lei ou da moral, mas da sua própria finitude. É precisamente isso que Bataille via a desaparecer das nossas vidas: o desejo de experienciar o incontrolável. A aposta nasce deste desejo. O objetivo não é o dinheiro, nem a glória, nem qualquer coisa útil. Se assim fosse, ninguém apostaria depois de perder a primeira vez — pois todos sabemos que a casa ganha sempre, que é o mesmo que dizer que o futuro nunca deixa de ser imprevisível.
O apostador invoca o futuro para dentro de um espaço fechado — relacionando-se com ele de um modo íntimo, em vez de lógico. O peso do tempo fica do lado de fora. Talvez por isso o olhar de quem aposta tenha algo em comum com o dos amantes: em ambos há uma suspensão do cálculo, uma entrega ao que não pode ser previsto.
Não é por acaso que o dinheiro é o objeto de eleição no ato sacrificial da aposta. O dinheiro é o símbolo máximo do cálculo e da utilidade — o símbolo do mundo dos adultos que os prende. Quando as moedas em cima da mesa e os cigarros acesos na casa da árvore são queimados sem propósito, produzem um gesto. No ecrã, esse gesto produz a imortalidade das estrelas de cinema americano. No espaço ritualístico da aposta, o homem reencontra-se com a natureza no interior da civilização.
É o sacrifício que torna a aposta num ato sagrado — não é ilegal, não é imoral, é ousada. O apostador usurpa, por um momento, o que a civilização sempre reservou aos deuses e aos sacerdotes: o poder de manipular o futuro. Cassandra, princesa de Troia, previu a queda da cidade e a sua própria morte — Apolo dera-lhe o dom da profecia e, como castigo por esta lhe ter resistido, condenou-a a que ninguém acreditasse nas suas palavras. As suas profecias eram verdadeiras mas, no mundo dos homens, impotentes. Ver o futuro tem sempre um custo.
A proibição de idade nos casinos é um eco distante desta consciência. Foi nos casinos que o caráter sagrado da aposta encontrou a sua expressão mais honesta. “Apostar é em si uma forma desértica, desumana, inculta, iniciática. Mas também tem um limite estrito”, escreveu Baudrillard na sua passagem por Las Vegas. “As suas fronteiras são precisas, a sua paixão não conhece confusão”. A realidade líquida, que Baudrillard viu nos néones e nas luzes sintéticas que transformam a noite em dia na cidade do vício, foram uma condição para que o exercício da fantasia pudesse revestir a aposta do espetáculo que a torna numa quase-experiência religiosa. O que acontece em Vegas fica em Vegas porque a experiência do sagrado é incomunicável e não por outra razão.
O mesmo não é verdade para os mercados de previsão — as plataformas de apostas virtuais que resgataram a figura decadente do apostador das salas alcatifadas dos casinos para o instalar no sofá de casa, de pijama, com o smartphone na mão. As fronteiras de que Baudrillard falava desfizeram-se. O deserto foi domesticado — e sem o deserto, desapareceu a tensão que tornava a aposta num ritual. A mesma tensão que atravessa o olhar dos rapazes quando estes repetem mais uma vez “I bet”, como se esta fosse uma palavra perigosa. “Aposto que ele não vive para lá dos 20s”, diz Chris enquanto Teddy lidera o grupo por uma sucata abaixo, gritando e fingindo ser um soldado na invasão da Normandia. O pai era veterano da Segunda Guerra Mundial.
As apostas de desporto foram o protótipo dos mercados de previsão. O desporto não só tem a inocência típica do jogo como já tinha uma comunidade de fanáticos — e nos Estados Unidos é provavelmente o espetáculo mais consensual e democrático que existe. Nas apostas desportivas, o universo do apostável estava limitado ao resultado de um jogo, de uma corrida, de um campeonato. Nos mercados de previsão, esse universo multiplica-se até ao infinito — podemos apostar na próxima palavra de Trump, na queda de um governo ou no resultado de uma guerra. Cada aposta é um capricho do desejo transformado em posição financeira. A personalização não é um detalhe técnico — é a essência do modelo.
O Super Bowl foi sem surpresa um dos eventos preferidos do ano para apostadores do Polymarket. Não é uma coincidência, Trump e Bad Bunny lutaram pela centralidade do espetáculo americano. Para se legitimarem, os mercados de previsão precisam destes dois elementos em simultâneo: o amor universal que legitima as instituições ocidentais e a possibilidade da transgressão e do caos trumpista. Sem a primeira, ninguém acredita nas apostas; sem a segunda, ninguém quer apostar.
Trump nasceu do mundo dos casinos e do espetáculo, e a sua ascensão até Washington não foi uma anomalia. Foi antes o resultado da crescente descrença do povo americano nas instituições encarregues de manter o futuro legível e previsível — desde as ciências, à economia e à política. Esta perda de fé foi uma reação ao colapso da lógica industrial. O colapso da era industrial deixou uma geração cuja consciência, tal como a dos rapazes do Stand by me em relação aos pais, excede as regras e as instituições erguidas com o trabalho das mãos que herdou. O tom paternalista do democrata pedindo-nos que tomemos conta da democracia não é em nada diferente do dos nossos pais, quando nos pediam prudência depois de nos darem dinheiro para a mão pela primeira vez, para que não destruamos aquilo que construíram.
Mas o problema não é a desobediência — que é tão antiga quanto a civilização. É antes a perda dos meios que antes davam forma ao excesso. Nem o príncipe que sucumbiu a esta ira e matou o seu rei conseguiu livrar-se do sangue que lhe corre nas veias. A transmissão do mundo nunca foi um ritual pacífico. Na aventura dos rapazes, as implicações constantes, as apostas e os perigos são mecanismos onde a tensão que o excesso cria no nosso espírito se resolve. A vida social da era industrial também tinha os seus próprios mecanismos de expurgação — pequenos rituais onde o excesso podia circular e ser gasto. O cigarro, que aprendemos a desprezar, era um deles. Mais que nunca, precisamos do pecado.
O que desaparece sem estes mecanismos não é o excesso em si, mas a sua contenção. O fascínio pela morte — o extremo limite para lá do qual a civilização se desfaz — não pode ser eliminado, apenas deslocado. Nas sociedades seculares ocidentais, a gradual retirada destas estruturas deixou um vazio em praticamente todas as regiões da vida social. O que já não encontra lugar para ser gasto, regressa onde menos se esperava. Na América, reapareceu na esfera mais sagrada: na política, performatizada pelo ego de Trump.
Desde que as máquinas se encarregaram de trabalhar por nós, retiraram-nos aquilo que o trabalho projetava quando ainda estava nas nossas mãos: a finalidade. É por isso que se torna cada vez mais difícil imaginar um político com o brilho do futuro nos olhos. Não porque o futuro tenha desaparecido, mas porque já não nos pertence. O que nos resta é uma relação indireta com ele — simulada, fragmentada, reduzida à possibilidade de apostar. Mas enquanto podemos deixar que a máquina produza por nós, não podemos deixar de consumir. Pelo contrário, consumimos incessantemente, a partir do ecrã, sem propósito. O trabalho deixou de ser uma atividade situada no tempo e no espaço; tornou-se numa atividade interior — o consumo já não tem a forma de uma transgressão. Já não é um gesto que nos permita sair da ordem que o produz. É um circuito fechado, sem exterior, onde o excesso é imediatamente trabalhado pelo algoritmo no nosso bolso, esgotando-se sem nunca aparecer no mundo. É como se não valesse a pena sair da vila com os rapazes para experimentar a liberdade radical da transgressão — o mundo do trabalho move-se connosco, na nuvem (cloud) cinzenta que paira em cima de nós, como um pequeno anjo totalitário.
Os mercados de previsão apareceram para reorientar o excesso que o colapso do imaginário industrial libertou. O caminho racional que organizava o acesso ao futuro — a promessa de que o trabalho conduzia à compra de uma casa, a uma carreira ou uma vida legível — desfez-se. Mas o desejo de gastar o excesso não desapareceu, apenas ficou sem destino, e da morte do american dream nasceu o niilismo económico. O momento em que este princípio foi institucionalizado foi a seguir à vitória de Trump nas eleições de 2024, quando os mercados de previsão acertaram onde as sondagens, os peritos e as instituições falharam — e fundaram uma nova economia: a economia do espetáculo. Tal como em todas as economias, a escassez gera vencedores e perdedores. Neste caso, o bem escasso não é matéria-prima, mas sim a informação: atenção transformada pela máquina. Quem recolhe a informação primeiro não está a prever o futuro: está a produzi-lo. O insider trading deixa de ser uma exceção e passa a ser uma lógica central desta economia. Os lucros, tal como em Vegas, são reinvestidos no espetáculo, para garantir que o ciclo não tem fim.
Mas não será esta descrição só mais uma forma de descrever a lógica mercados financeiros? Em parte sim. No entanto, a linguagem técnica, os adultos de fato e as instituições reguladoras mantinham um limite que separava o mundo do trabalho de todos os outros — entre eles o da adolescência. Os mercados de previsão aboliram essa distância. E não é por acaso que encontram o seu público privilegiado nos mais jovens. O cloud capital já não precisa de trabalhadores disciplinados, mas de consumidores eternamente atentos. A máquina encarrega-se de prever e construir; aos humanos resta o desejo — menos prudente, menos calculista, disposto a arriscar.
Holsinger é o arquétipo do trabalhador da economia do espetáculo. Tem 26 anos e largou o emprego de contabilista para se dedicar aos mercados de previsão a tempo inteiro. Sentado de pernas cruzadas numa cadeira de escritório no seu apartamento em Brooklyn, de sweatpants e t-shirt, estuda transcrições de discursos de Trump para prever as palavras que ele vai usar na cerimónia anual do peru de Natal. Holsinger é um analista ou um apostador? Bataille via este paradoxo em Sade: a combinação da frieza do cálculo com o impulso transgressor. No Polymarket, podemos participar no desfecho de uma guerra sem nos sentirmos parte da tragédia. Isto já era verdade nos mercados financeiros — a vontade da indústria militar era suficiente para gerar uma guerra sem que houvesse algum vestígio de culpa no coração do investidor. Os mercados de previsão inovaram, e sem os contornos de Wall Street onde, ainda assim, a perdição estava discretamente contida, tornaram o caos no motor da política, permitindo que o apostador acelere até ao fim do mundo anestesiado.
Os quatro rapazes do Stand by me também não escaparam ao seu destino. Chris, que toda a gente sabia que havia de seguir o mesmo caminho que a família, tornou-se advogado — mas morreu novo ao tentar separar uma luta. Teddy tentou entrar no exército e foi rejeitado. Vern casou-se e levou uma vida normal. Gordie, o quarto rapaz, nunca mais viu os seus amigos. A profecia cumpriu-se, mas naquele verão, durante a aventura até ao corpo do rapaz morto, Chris, Vern, Teddy e Gordie foram transformados pela presença uns dos outros e experimentaram a amizade. Na era dos mercados de previsão, a tragédia desenrola-se para lá do nosso horizonte — no interior da máquina — enquanto nós permanecemos na escuridão do nosso quarto.
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Bartolomeu Marçal Grilo nasceu em 1999 e já escreveu para o Expresso e para o Público. É licenciado em Filosofia e mestre em Filosofia Política e Económica pela Universidade de Leiden.
(Shifter)

