A recente polémica com o fim da obrigatoriedade da leitura de uma obra integral de José Saramago no ensino secundário só é compreensível se entendermos o ensino da literatura como um processo em que a canonização dos autores toma precedente em relação ao ensino da literatura.
O ensino da leitura e da literatura não é um tema apelativo para a imprensa. A informação que nos chega é parcial, limitada e frequentemente contraditória. Desde a pandemia, no entanto, tudo indica que algumas tendências negativas se estão a inverter. Vendem-se cada vez mais livros em Portugal. Os jovens leem cada vez mais e são eles quem impulsiona o crescimento do mercado. Alguns grupos editoriais têm virado a sua sorte criando chancelas especificamente dedicadas ao público mais jovem.
Poder-se-ia pensar que isto colocaria algumas políticas recentes de promoção e ensino da leitura no foco da atenção mediática. Várias iniciativas recentes, como o Projeto de Leitura ou o projeto LOSA, deveriam estar a ser alvo de alguma atenção e apreço. Presumivelmente, quando mais tarde no ano se souberem os resultados do PISA, caso sejam maus o suficiente, o ensino da leitura poderá vir a ser tema nacional novamente.
Entretanto, pouco vamos sabendo sobre o que se passa com o ensino da leitura em Portugal, com uma exceção.
Saramago deixará de ser obrigatório
Foi manchete em todos os jornais, em papel e no digital.
José Saramago, o único Nobel de Literatura português, não mais terá um dos seus romances como leitura obrigatória. Um escândalo literário de repercussões nacionais. O anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, achou estranho. Para o único escritor português considerado candidato realista ao Nobel num futuro previsível, Gonçalo M. Tavares, é uma vergonha. A Fundação José Saramago insurgiu-se. Os académicos do país, e cito Carlos Reis como exemplo, protestaram.
A partir de agora, poderá escolher-se entre Memorial do Convento e uma obra de Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, um livro igualmente desafiante, escrito por um autor contemporâneo de Saramago e com o qual tinha uma boa relação.
Lendo toda a monção de tinta que se verteu sobre o tema, uma das questões que a mim me parecem óbvias continuou por esclarecer. Na maior parte das vezes em que se falou do assunto, quase por perguntar. Saúdo o Público por ter, ao menos, sinalizado a questão: será que as leituras obrigatórias são fulcrais para a aprendizagem dos alunos? Outros países, com populações com muito melhores hábitos de leitura que nós, fazem dos seus prémios Nobel, mesmo que únicos, leitura obrigatória?
A resposta a ambas as questões é: não.
Um exemplo paradigmático é a Irlanda, um país com notável reputação global pela sua literatura e quatro laureados na sua história. No que diz respeito ao nível de leitura, está em segundo no mais recente PISA, de 2022, apenas atrás de Singapura. E, surpreendendo apenas os mais desatentos, não tem uma única obra de leitura obrigatória. É proposta à escola uma lista, com várias alternativas adequadas ao grau, sendo que o próprio aluno tem alguma autonomia para escolher o que quer ler.
Essa lista inclui não só autores irlandeses como também britânicos, americanos, africanos de expressão inglesa e até autores em tradução.
Se as leituras obrigatórias não são condição necessária para a boa aprendizagem ou sequer para o bom funcionamento de uma ecologia literária, então talvez estejamos a ter o debate errado.
Porque incomoda tanto a exclusão de um autor (qualquer autor) desta condição de obrigatoriedade? Para minha grande surpresa, nem o Presidente da República, nem Gonçalo M. Tavares, nem Carlos Reis, nem ninguém cuja opinião tivesse partilhado nos parágrafos anteriores, baseou a sua argumentação naquilo que me pareceria ser o mais importante: as necessidades educativas dos alunos.
Os argumentos, até aqueles de índole política, e dos quais o governo teve de se defender, foram sempre de defesa não da aprendizagem da leitura ou da literatura por parte dos alunos, mas sim da reputação do próprio Saramago. Saramago tem de ser lido. É uma vergonha não ter lido Saramago.
Porquê?
Bloom, Bourdieu e saber escolher questões
Para compreender esta polémica, um momento sobre dois pensadores obrigatórios (?) acerca desta grande temática da construção do cânone ao longo do século XX, Harold Bloom e Pierre Bourdieu, duas visões contrastantes mas igualmente instrutivas.
Bloom, o mais célebre defensor do cânone ocidental, teria provavelmente algum apreço pela posição dos defensores de Saramago, ainda que não necessariamente pelos seus argumentos. Para Bloom, um autor está no cânone porque é esteticamente superior. A escrita de um autor canónico tem aquilo a que chamou “estranheza” (strangeness), uma originalidade irresistível capaz de forçar os autores que lhe sucedem a responder-lhe e a reagir-lhe. A qualidade do autor canónico é tal que provoca ansiedade (the anxiety of influence) a quem o sucede, forçado a reinterpretar e repisar a obra canónica. Assim, o autor canónico eterniza-se naturalmente. Shakespeare está no cânone não porque alguém o tenha colocado lá, seja a universidade, a escola, ou outra instituição qualquer, mas porque os escritores posteriores a si continuam “forçados” pela sua influência a continuá-lo. Bloom desprezava aquilo a que chamou “a Escola do Ressentimento”, aqueles críticos que tratavam o cânone como uma construção política.
Não deixa de ser curioso que nenhum dos defensores de Saramago tenha usado um argumento bloomiano. Quase ninguém disse o que muitos certamente queriam dizer: “Saramago deve ser obrigatório porque é melhor que todos os outros romancistas portugueses do século XX. Mário de Carvalho, Lobo Antunes, etc. pura e simplesmente não são tão bons.”
Isso exigiria um arrojo que Bloom tinha, mas difícil de replicar nas tíbias águas do que se publica em Portugal. Os argumentos de facto usados, para meu grande interesse, sugerem que o teórico mais associado à posição antagónica à de Bloom talvez tivesse alguma razão. Trata-se de Pierre Bourdieu.
Saramago é Nobel. Portugal só tem um Nobel. Retirar o Nobel é uma vergonha nacional. Não há qualquer vestígio de Bloom nestas ideias. Bloom provavelmente consideraria tudo isto uma capitulação. A substituição do julgamento estético pelo prestígio de um prémio.
Pierre Bourdieu era sociólogo, não crítico literário, e dedicou grande parte da sua obra a analisar os mecanismos de produção e reprodução do prestígio cultural. Vou arriscar que veria esta polémica como um caso de estudo absolutamente delicioso. Para Bourdieu, o campo literário funcionaria como qualquer outro campo social: os agentes que nele operam competem por capital simbólico e o valor de uma obra não é determinado por qualidades intrínsecas, mas sim pela posição que ocupa numa rede de relações. Rede essa que se estabelece entre editores, críticos, universidades, prémios e instituições.
O Nobel de Literatura é uma forma poderosíssima de consagração, mas não é a forma suprema. A forma suprema de consagração, de um ponto de vista bourdieuano, teria de ser capaz de transformar essa consagração em reprodução sistemática.
Ora, que mecanismo será esse? A obrigatoriedade curricular. Apenas a obrigatoriedade curricular garante que cada nova geração recebe e interioriza o valor simbólico desse autor. Retirar a obrigatoriedade é interromper a cadeia de reprodução do capital cultural.
A Fundação José Saramago, Gonçalo M. Tavares, que é Prémio Saramago e que foi apadrinhado pelo autor em vida, Carlos Reis, comissário do Centenário de Saramago e estudioso da sua obra — todos são parte interessada na distribuição desse capital simbólico. A sua desvalorização também os toca.
Mas há talvez quem elucide ainda melhor esta polémica que Bloom ou até Bourdieu.
Guillory e o cânone como currículo
Em 1993, o teórico literário americano John Guillory publicou Cultural Capital: The Problem of Literary Canon Formation. O livro era uma resposta directa às chamadas “guerras do cânone” que tinham assolado as universidades americanas ao longo da década anterior. Essas guerras, francamente divertidas de reler e relitigar, reproduzem algumas das dinâmicas exibidas em Portugal com esta polémica. Os “conservadores” de Guillory defendem a construção de um cânone de princípios bloomianos, supostamente meritocrático, incluindo apenas obras consensualmente magníficas. Os “progressistas” de Guillory defendem a inclusão, argumentando que esse cânone ocidental como proposto pelos conservadores só não contempla mais mulheres ou minorias por motivos que nada têm a ver com qualidade, mas sim com preconceito. Essa magnificência só é reconhecida a alguns.
Ambos os lados, no entanto, afligem Guillory pelo mesmo motivo: estão a discutir quem merece estar no cânone, quando o cânone não é uma mera lista. Se o cânone se limitasse a listar autores e/ou obras, independentemente do critério de inclusão, seria inútil. O cânone tem de servir um propósito.
Segundo Guillory, o cânone é um currículo.
É um mecanismo institucional, produzido e reproduzido por escolas e universidades, cuja principal função não é preservar a grande literatura, mas sim distribuir o “capital cultural” bourdieuano. Ou seja, os grandes livros e os grandes autores não são aqueles que são esteticamente superiores, ou sequer aqueles que são mais interessantes a quem possui esse capital cultural. Os grandes livros e os grandes autores são aqueles que devemos conhecer para sermos reconhecidos como culturalmente competentes no contexto da nossa formação.
A ideia de que o cânone se preocupa principalmente com qualidade é rejeitada por Guillory, contrariando também ele Bloom. Quando debatemos que autores devem entrar ou sair do cânone, não estamos a debater qualidade literária. Estamos a debater que tipo de competência cultural o sistema educativo (qualquer sistema educativo) distribui e a quem. Guillory preocupa-se muito com a ideia de que esse capital cultural esteja não só a debate entre escritores ou artistas, mas sim entre a própria literatura e outras formas de conhecer emergentes numa sociedade tecnológica.
E é isto que torna o debate sobre Saramago tão apaixonante para a opinião pública e publicada: não é, nem nunca foi, um debate sobre pedagogia. É um debate sobre o prestígio institucional de um autor que, pela sua unicidade como nobelizado se tornou quase um totem da literatura portuguesa do seu período. É irrelevante se os alunos aprendem melhor, ou mais, a ler Saramago ou Mário de Carvalho. Essa questão nem sequer se põe. Ninguém a levanta.
O que se aprende com uma leitura integral de Memorial do Convento que não se possa aprender com Um Deus a Passear na Brisa da Tarde, ou até com qualquer outra obra de toda a literatura mundial? Irrelevante. Essa questão não é debatida porque não interessa.
A questão foi, é e será apenas uma: “o que diz de nós não termos lido Saramago?”
Guillory argumentaria, com razão, que as reações que vimos nas últimas semanas são perfeitamente previsíveis. Quando um autor, neste caso, um autor que personaliza uma visão de literatura que se entende estar em risco, perde o estatuto de leitura obrigatória, o que está em causa é a perda de uma forma de consagração institucional. A obrigatoriedade não garante que os alunos leiam melhor, que compreendam mais profundamente a literatura ou que se tornem leitores para a vida. Este argumento é quase indefensável e portanto ninguém o defende.
A única coisa que garante é que o autor é lido. Que o seu lugar no cânone é mecanicamente reproduzido, ano após ano, por uma estrutura burocrática. Retirar essa obrigatoriedade é uma espécie de desconsagração. O argumento mais revelador é o de Gonçalo M. Tavares, que certamente me perdoará isolá-lo desta forma, mas cito:
“Seria uma vergonha, é uma vergonha, se um miúdo português vai à Croácia e de repente o miúdo croata diz: ‘então, Saramago?’ ‘Eu não li’. É um bocado absurdo.”
A preocupação não é que o miúdo entenda mal a literatura. Não é que leia mal. Não é que saiba pouco do tema. Não é sequer que seja mais ou menos capaz de debater ou pensar Saramago. Não há nada de pedagógico no argumento. É reputacional. É um argumento sobre capital cultural, aquilo que um jovem português deve saber para não parecer inculto perante o mundo.
Isto é Guillory puro: o cânone não forma leitores, forma sujeitos reconhecíveis como culturalmente competentes.
Para não me focar demasiado em Tavares, umas notas sobre o comunicado da Fundação José Saramago. Novamente, não há qualquer tipo de argumentação sobre o potencial pedagógico da obra de Saramago. Não há uma única frase no comunicado da Fundação sobre a importância específica da obra de Saramago que a torne obrigatória mas a de qualquer outro autor subalterna.
O que se escreve é, e cito:
“A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra ‘ou’ pela palavra ‘e’, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.”
Ou seja, que Saramago deveria manter o seu lugar e Mário de Carvalho ser adicionado ao lado. Mais uma vez: o que se defende não é a aprendizagem, é a presença institucional. O que se defende não é o direito à aprendizagem dos alunos. É, isso sim, o direito dos autores a “participar” nessa formação.
Uma última pergunta
Vou confessar algo: não me interessa minimamente o que diz de nós não termos lido Saramago.
Interessa-me, isso sim, a pergunta aborrecida que ninguém quer discutir: para que serve o ensino da leitura e da literatura?
Se o nosso intuito com esta prática é que os alunos portugueses se tornem leitores competentes e autónomos, algo que na minha opinião é condição sine qua non para sequer poderem ler Saramago com proveito, então o modelo irlandês talvez seja mais interessante. Uma lista ampla que responsabilize professores e alunos, que permita a alunos diferentes escolhas diferentes. Que estimule a imaginação e a vontade de descobrir mais. Não consta que nenhum aluno irlandês alguma vez se tenha envergonhado na Croácia por não ter lido Beckett.
Essa lista ampla se calhar até já existe.
Se, pelo contrário, a leitura obrigatória serve para perpetuar o cânone, para garantir que cada geração de portugueses tenha lido os mesmos autores e possa reconhecer-se mutuamente como culturalmente competente, então devolvamos Saramago à lista, que corremos de facto aqui o risco de enfraquecer o mecanismo que reproduz a canonização.
O que sugiro nesse caso é que sejamos honestos. Que assumamos de uma vez por todas que não estamos a defender os melhores interesses dos alunos e estamos apenas a usá-los como ferramenta para construir uma ideia de literatura portuguesa.
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João Zamith é um escritor vimaranense. Tem um mestrado em Literatura Portuguesa Contemporânea tirado na Universidade do Porto e uma curta carreira académica em Coimbra dedicada aos romancistas do período contemporâneo. Tem três anos de experiência no editorial em Lisboa, tendo coordenado todo o tipo de livros, desde thrillers e histórias de terror a obras de Zbigniew Herbert, Ray Bradbury, Adolfo Bioy Casares ou a quinta impressão do décimo livro do Diário de um Banana. Também foi crítico literário no jornal Setenta e Quatro. Escreve como profissão e dedica-se ao marketing digital. Hoje coordena a estratégia de
(Shifter)

