Eis os 22 pontos polémicos do livro de Alex Karp.
A Palantir divulgou no passado fim de semana uma polémica síntese, em 22 pontos, do livro do seu diretor-executivo Alex Karp.
O documento divulgado no X resume o The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, livro de 320 páginas coassinado por Karp e publicado no início de 2025. Na mensagem publicada na rede social, a empresa apresentou o texto como uma resposta sucinta a perguntas frequentes sobre a obra.
As ideias condensadas nesses 22 pontos refletem posições que Karp tem defendido há vários anos. Entre estas está a convicção de que a indústria tecnológica não tem apoiado de forma suficiente os interesses estratégicos e de segurança dos Estados Unidos, mas o líder da Palantir, doutorado em teoria social neoclássica pela Goethe University, na Alemanha, também sustenta que a ascensão da inteligência artificial tenderá a desvalorizar cursos na área das Humanidades e a reforçar a importância de profissões técnicas e de ofícios tradicionais.
A lista percorre temas variados. Alguns pontos focam-se no papel de Silicon Valley perante problemas internos, defendendo, por exemplo, que o setor tecnológico deve participar no combate ao crime violento.
Outros pontos centram-se na relação entre empresas tecnológicas e forças armadas, com uma formulação particularmente direta: se um fuzileiro norte-americano pedir uma arma melhor, essa necessidade deve ser satisfeita e o mesmo princípio deve aplicar-se ao software. A síntese inclui ainda referências à religião, ao defender resistência ao que descreve como intolerância perante crenças religiosas em certos meios.
Um dos aspetos mais polémicos do resumo é a sugestão de que os Estados Unidos deveriam reconsiderar o regresso do serviço militar obrigatório. O país não recorre à conscrição desde a Guerra do Vietname, após uma transição profunda para um modelo de forças armadas assente no voluntariado.
Eis os 22 pontos publicados por Karp.
1.º Silicon Valley tem uma dívida moral para com o país que tornou possível o seu surgimento. A elite da engenharia de Silicon Valley tem a obrigação de participar na defesa da nação.
2.º Devemos rebelar-nos contra a tirania das aplicações. Será o iPhone a nossa maior conquista criativa, senão a maior, enquanto civilização? O aparelho mudou as nossas vidas, mas também pode estar a limitar e a restringir a nossa perceção do que é possível.
3.º O e-mail gratuito não chega. A decadência de uma cultura ou civilização, e na verdade da sua classe dominante, só será perdoada se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento económico e segurança para o público.
4.º Os limites do soft power, da retórica eloquente por si só, foram expostos. A capacidade de as sociedades livres e democráticas prevalecerem exige algo mais do que o apelo moral. Exige poder coercivo, e o poder coercivo neste século será construído sobre software.
5.º A questão não é se serão construídas armas de IA; é quem as vai construir e com que propósito. Os nossos adversários não hesitarão em debates teatrais sobre os méritos do desenvolvimento de tecnologias com aplicações militares e de segurança nacional críticas. Eles prosseguirão.
6.º O serviço nacional deveria ser um dever universal. Como sociedade, devemos considerar seriamente a possibilidade de abandonar um modelo de forças armadas totalmente voluntárias e só entrar na próxima guerra se todos partilharem os riscos e os custos.
7.º Se um fuzileiro americano pedir um fuzil melhor, devemos construí-lo; o mesmo acontece para softwares. Como país, devemos ser capazes de continuar a debater a adequação das ações militares no estrangeiro, mantendo-nos firmes no nosso compromisso com aqueles a quem pedimos que se exponham ao perigo.
8.º Os servidores públicos não precisam de ser nossos sacerdotes. Qualquer empresa que remunerasse os seus funcionários da mesma forma que o governo federal remunera os funcionários públicos teria dificuldades em sobreviver.
9.º Devemos demonstrar muito mais benevolência para com aqueles que se submeteram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão — o abandono de qualquer tolerância às complexidades e contradições da psique humana — pode deixar-nos com um grupo de personagens no comando que iremos lamentar.
10.º A psicologização da política moderna está a desviar-nos do caminho certo. Aqueles que procuram na arena política nutrir a sua alma e o seu sentido de identidade, que dependem demasiado da expressão da sua vida interior em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão desapontados.
11.º A nossa sociedade tornou-se demasiado ansiosa para apressar, e muitas vezes regozija-se com, a derrota dos seus inimigos. A vitória sobre um adversário é um momento para pausar, não para regozijar.
12.º A era atómica está a chegar ao fim e uma nova era de dissuasão baseada na inteligência artificial está prestes a começar.
13.º Nenhum outro país na história do mundo promoveu mais valores progressistas do que este. Os Estados Unidos estão longe da perfeição. Mas é fácil esquecermo-nos de quantas oportunidades existem neste país para aqueles que não pertencem às elites hereditárias, em comparação com qualquer outra nação do planeta.
14.º O poder americano possibilitou uma paz extraordinariamente longa. Muitos esqueceram-se, ou talvez considerem como certo, que quase um século de alguma forma de paz prevaleceu no mundo sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações — milhares de milhões de pessoas, os seus filhos e agora netos — nunca conheceram uma guerra mundial.
15.º O enfraquecimento da Alemanha e do Japão no pós-guerra tem de ser desfeito. O desarmamento da Alemanha foi uma correção exagerada pela qual a Europa paga agora um preço elevado. Um compromisso semelhante e altamente teatral com o pacifismo japonês, se se mantiver, ameaçará também alterar o equilíbrio de poder na Ásia.
16.º Devemos aplaudir aqueles que tentam construir onde o mercado falhou. A cultura quase troça do interesse de Musk pelas grandes narrativas, como se os multimilionários devessem simplesmente manter-se na sua esfera de enriquecimento pessoal. Qualquer curiosidade ou interesse genuíno pelo valor do que ele criou é essencialmente descartado, ou talvez se esconda sob um desprezo mal disfarçado.
17.º Silicon Valley deve desempenhar um papel no combate à violência. Muitos políticos nos Estados Unidos têm simplesmente encolhedo os ombros quando se trata de violência, abandonando qualquer esforço sério para resolver o problema ou assumindo qualquer risco junto dos seus eleitores ou doadores ao procurarem soluções e experiências no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas.
18.º A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta demasiados talentos do serviço público. A esfera pública — e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer algo mais do que enriquecer-se a si próprios — tornou-se tão implacável que a república ficou com uma lista significativa de indivíduos ineficazes e vazios, cuja ambição seria perdoável se houvesse alguma estrutura de crença genuína escondida neles.
19.º A cautela na vida pública que, sem nos apercebermos, incentivamos, é corrosiva. Aqueles que não dizem nada de errado, muitas vezes não dizem quase nada.
20.º A intolerância generalizada à crença religiosa em certos círculos deve ser combatida. A intolerância da elite à crença religiosa é talvez um dos sinais mais reveladores de que o seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos no seu seio afirmam.
21. Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas. Todas as culturas são agora iguais. As críticas e os juízos de valor são proibidos. No entanto, este novo dogma encobre o facto de que certas culturas e, na verdade, subculturas… produziram maravilhas. Outras mostraram-se medianas e, pior, regressivas e prejudiciais.
22.º Devemos resistir à tentação superficial de um pluralismo vazio e oco. Nós, na América e, de forma mais ampla, no Ocidente, resistimos, durante o último meio século, a definir as culturas nacionais em nome da inclusão. Mas inclusão em quê?
A Palantir mantém uma forte ligação ao setor da defesa e, segundo o The Washington Post, o exército norte-americano utilizou o sistema Maven Smart System, uma plataforma avançada de seleção de alvos com recurso a inteligência artificial, no conflito com o Irão.
As reações ao manifesto foram imediatas e variadas. Shaun Maguire, sócio da Sequoia, elogiou os 22 pontos e considerou que a Palantir representa um “centro ideológico” raro no atual debate político. Já Eliot Higgins, fundador do Bellingcat, citado pelo Business Insider, argumentou que o manifesto não é mera reflexão abstrata, mas antes a expressão pública da visão política de uma empresa cuja receita depende precisamente das áreas — defesa, informação, imigração e policiamento — sobre as quais aqui intervém.
(ZAP)
