As primeiras memórias são apenas reconstruções mentais

By | 24/03/2024

Longe de serem registros confiáveis ​​da realidade, as primeiras memórias são antes um mosaico composto de experiências reais, narrativas familiares e reconstruções mentais. À medida que crescemos, este mosaico é enriquecido e transformado, mas os fragmentos da nossa primeira infância permanecem, em grande medida, peças imaginadas num puzzle de memória.

No vasto oceano da memória humana, os primeiros anos de vida assemelham-se a uma nebulosa distante, um território mal iluminado por vislumbres de memórias que muitos consideram verdadeiras.

No entanto, a ciência convida-nos a questionar a autenticidade destas primeiras memórias, revelando que o que consideramos tesouros da nossa infância não poderiam ser mais do que ilusões habilmente implantadas.

Grupo de madres con sus bebés. Ellos no recordarán nada.

Um artigo publicado na Science confronta-nos com uma realidade desconcertante: é provável que não nos lembremos de nada do que aconteceu antes dos três anos de idade. Aquela viagem à Disneylândia aos 18 meses, ou a varicela aos dois anos, são cenas que, embora pareçam reais, possivelmente foram plantadas em nossas mentes por fotografias ou histórias de nossos pais. A repetição destas histórias consolidou estas memórias no nosso cérebro, dando-lhes uma vivacidade comparável às experiências recentes.

Maturação da memória

O neurocientista Flávio Donato , citado pela Science, apresenta-nos um paradoxo: numa fase em que o cérebro aprende a um ritmo sem paralelo na vida adulta, as memórias parecem desaparecer sem deixar vestígios.

Durante muito tempo, presumiu-se que a imaturidade cerebral dos bebés os impedia de formar memórias duradouras.

No entanto, estudos atuais sugerem que a capacidade de lembrar se desenvolve ao longo do tempo e que só aproximadamente aos sete anos de idade é que a memória infantil atinge uma maturidade semelhante à de um adulto.

Apesar da aparente ausência de memórias conscientes dos primeiros anos, a psicologia descobriu sinais de que estas poderiam persistir de forma latente, ou seja, não conscientemente.

Experimentos mostraram que bebês a partir dos dois meses podem aprender a mover um móbile chutando-o e lembrar dessa ação por alguns dias.

Além disso, observou-se que crianças de três anos, incapazes de lembrar explicitamente imagens de animais vistos meses atrás, conseguem identificá-los mais rapidamente quando são apresentados desfocados e gradualmente focalizados.

A influência da cultura e da narrativa familiar

A formação das nossas primeiras memórias é fortemente influenciada por fatores culturais e pelo estilo narrativo dos nossos pais. As histórias que nos contam e a forma como as partilhamos desempenham um papel crucial na construção da memória infantil.

Estas histórias familiares não só moldam o que lembramos, mas também contribuem para a criação da nossa identidade e para a tomada de decisões mais tarde na vida. A memória infantil, com todas as suas complexidades e mistérios, continua a ser um campo fértil para a investigação científica.

Entretanto, podemos relembrar as nossas primeiras memórias com uma mistura de nostalgia e cepticismo, reconhecendo que, embora possam não ser completamente fiéis à realidade, constituem uma parte essencial de quem somos.

(Tendendias21)