Os carros elétricos provocam mais enjoos?

By | 25/10/2026

Chama-se cinetose, e é causada por “uma discrepância entre os sinais sensoriais”. Nos elétricos, o enjoo de movimento pode ser mais percetível.

Lola pede ao namorado que encoste o carro. Quarenta minutos depois do início da viagem, sente náuseas e vomita, no chão, ao lado do veículo. Aos 24 anos, nunca tinha sofrido de enjoos de movimento até o namorado ter comprado um carro elétrico, há dois anos. Desde então, sente muitas náuseas quando ele a leva em viagens longas de carro, em Inglaterra.

A situação tornou-se tão grave que Lola chegou a pedir ao namorado que trocasse de carro. Não é a única.

Outras pessoas dizem à BBC News que elas próprias ou os seus filhos sentem mais enjoos quando viajam como passageiros num veículo elétrico. Ao mesmo tempo, muitos condutores de veículos elétricos garantem que isso não tem sido um problema. Então, o que poderá explicar estes relatos de enjoos de movimento?

Cinetose

A investigadora Irene Di Giulio, professora sénior de anatomia e biomecânica no King’s College London, cuja investigação abrange a cinetose (enjoo de movimento), afirma que os estudos realizados até ao momento sugerem que algumas pessoas sofrem de enjoos de movimento mais intensos em veículos elétricos do que em veículos não elétricos.

É algo que o médico Nicholas Hac, neurologista da Northwestern Medicine, em Chicago, nos EUA, especializado em tonturas e vertigens, também ouviu de alguns dos seus pacientes.

“Simplesmente apercebem-se de que têm muito mais tendência para enjoar em veículos elétricos”, afirma. “Já ouvi falar disto muitas, muitas, muitas vezes”, acrescenta, explicando que cerca de dois pacientes por mês mencionam especificamente a sensação de enjoo em veículos elétricos.

No entanto, a investigação sobre uma possível ligação entre os enjoos e os carros elétricos ainda está numa fase inicial, e alguns académicos afirmam que não existem provas suficientes para tirar conclusões definitivas.

Bill Yates, que investigou os enjoos de movimento na Universidade de Pittsburgh, nos EUA, considera que a investigação existente ainda é “bastante superficial”.

“Existem alguns relatos pontuais, mas ainda não foram realizados muitos estudos sérios e abrangentes”, afirma.

“É maravilhoso conduzir… mas a minha filha fica enjoada”

Quando Mark Quigg estava a analisar as opções para comprar um carro novo, no ano passado, um veículo elétrico pareceu-lhe a melhor escolha, devido aos custos de manutenção mais baixos.

Mark, de 45 anos, de Lincolnshire, em Inglaterra, afirma que tem sido “maravilhoso” conduzir o seu novo e reluzente veículo elétrico, mas rapidamente se apercebeu de que os enjoos da filha, de nove anos, se tinham agravado bastante dentro do carro.

Antes, a filha só enjoava nas viagens longas até França, durante as férias escolares, mas agora, segundo Mark, até uma viagem de 30 minutos até à cidade mais próxima é suficiente para a fazer sentir-se mal.

Conta ainda que, numa viagem recente, a filha chegou a vomitar, algo que nunca tinha acontecido.

A cinetose não afeta todos os passageiros de veículos elétricos. Muitos proprietários contactaram a BBC News para dizer que nem eles nem os seus familiares enjoam nestes veículos. Outros disseram que sentem menos enjoos em veículos elétricos do que em carros tradicionais com motor de combustão.

Vicky Edmonds, diretora-executiva da EVA England, uma associação de condutores de veículos elétricos, afirma que os enjoos de movimento não constituem uma preocupação entre os seus membros. “Isso nunca foi apontado como um problema”, afirma.

No entanto, a fabricante chinesa de veículos elétricos XPeng, que tem concessionários em todo o Reino Unido, já abordou publicamente a questão, dizendo às pessoas que identificaram uma ligação entre os veículos elétricos e os enjoos durante as viagens que se trata de “uma pergunta pertinente e não é fruto da sua imaginação”.

A empresa acrescenta que os enjoos são causados por “efeitos secundários da forma como os carros elétricos são concebidos”.

O que poderá estar a causar estes enjoos?

A cinetose é causada por “uma discrepância entre os sinais sensoriais”, explica o neurologista Hac.

O nosso corpo depende de três fontes principais de informação sensorial para perceber que estamos em movimento: aquilo que vemos, aquilo que o sistema de equilíbrio do ouvido interno deteta e aquilo que as fibras sensoriais do nosso corpo sentem, explica.

Quando uma destas fontes de informação entra em conflito com as outras, por exemplo, quando estamos a olhar para o telemóvel e não vemos, através da janela, os sinais visuais de que estamos em movimento, isso pode provocar cinetose.

A investigação aponta para várias razões pelas quais este problema poderá ser mais grave nos veículos elétricos.

Os especialistas explicam que os seres humanos se habituaram a associar o som ao movimento dos veículos. Como os veículos elétricos não produzem os sons e as vibrações do motor a que estamos habituados, que nos indicam quando o carro está a acelerar, isso pode desencadear enjoos, afirma Di Giulio.

Outra razão é a travagem regenerativa, um processo através do qual, quando o condutor retira o pé do acelerador, o motor do carro elétrico começa a funcionar como um gerador. Isto cria uma resistência que abranda o carro e também produz eletricidade, que pode ser armazenada na bateria. É necessário retirar o pé do acelerador suavemente, caso contrário, pode ocorrer uma desaceleração brusca.

“Isto pode fazer com que a pessoa tenha a sensação de estar a ser balançada para a frente e para trás naquele breve momento em que a velocidade do carro muda repentinamente”, explica Hac.

Carolyn Le, de 24 anos, da Califórnia, apercebeu-se disso. Conta que sente enjoos “horríveis” quando um amigo a leva no seu veículo elétrico por cidades movimentadas. A travagem regenerativa faz com que “pareça que o carro está constantemente a parar”.

Os veículos elétricos também conseguem acelerar e desacelerar muito mais rapidamente do que os carros convencionais com motor de combustão, o que, segundo Di Giulio, pode provocar enjoos.

Edmonds, da EVA England, afirma que os avanços na conceção dos veículos elétricos permitiram melhorar o controlo da aceleração, evitando que ganhem velocidade tão rapidamente.

Acrescenta que a associação considera que os enjoos em veículos elétricos são causados por “outros fatores”, como o estilo de condução do condutor, e não pelo próprio veículo.

Algumas características dos carros elétricos podem parecer estranhas aos condutores numa fase inicial, acrescenta Mike Hawes, diretor-executivo da associação britânica da indústria automóvel Society of Motor Manufacturers.

Segundo Hawes, os veículos elétricos podem proporcionar uma experiência de condução diferente.

“No entanto, os condutores adaptam-se normalmente com rapidez a estas características, e muitos modelos também permitem ajustar a travagem regenerativa às preferências individuais.”

Algumas pessoas têm simplesmente uma maior predisposição para sofrer de enjoos de movimento, sendo a genética o fator com maior influência, segundo Hac. Os especialistas afirmam ainda que as mulheres e as crianças são mais suscetíveis.

A cinetose (enjoo de movimento) atinge geralmente o seu pico entre os 8 e os 10 anos de idade, diminuindo posteriormente com uma maior exposição, afirma o professor John Golding, que investigou o tema na Universidade de Westminster, na Marinha Real Britânica e na Força Aérea Real Britânica.

Como lidar com os enjoos

Com a crescente popularidade dos veículos elétricos, evitá-los pode tornar-se um desafio: o número de novos automóveis de emissões zero registados no Reino Unido aumentou 40,5% entre abril e junho de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025, segundo os dados mais recentes do Departamento de Transportes.

No final de junho de 2026, 5,8% de todos os automóveis registados para circular nas estradas do Reino Unido eram veículos de emissões zero, segundo os dados. A venda de automóveis novos movidos exclusivamente a gasolina ou gasóleo deverá ser proibida a partir de 2030.

Lucinda Harrison, de 24 anos, de Londres, conta que reserva frequentemente táxis que acabam por ser veículos elétricos e que tem de suportar a viagem a sentir-se enjoada, transpirada e com a pele pegajosa.

A ideia de viajar num veículo elétrico deixa-a aterrorizada, afirma. Recentemente, até uma simples boleia de cinco minutos, de casa de um colega até uma estação de metro, foi suficiente para a fazer sentir-se “horrível”.

Os especialistas afirmam que existem várias medidas que os passageiros podem adotar para reduzir a sensação de enjoo durante as viagens:

– Olhe pela janela da frente e evite olhar para o telemóvel ou ler um livro.
– Se possível, sente-se no banco do passageiro da frente, em vez de se sentar no banco de trás. Se tiver de viajar no banco de trás, escolha o lugar do meio, para conseguir continuar a ver através do para-brisas.
– Mantenha a cabeça imóvel, apoiando-a no encosto de cabeça.
– Recline o banco.
– Controle a respiração.
– Abra a janela para deixar entrar ar fresco.
– Tome comprimidos para o enjoo de viagem, se necessário, embora estes possam provocar sonolência.
– Antes de uma viagem longa, certifique-se de que está bem hidratado, de que dormiu bem e de que ingeriu alimentos com baixo teor de gordura.

Os especialistas afirmam também que é possível reduzir a sensibilidade aos enjoos de movimento através da exposição prolongada. Quanto mais viagens fizer em veículos elétricos, menor será a probabilidade de sentir enjoos, à medida que o seu corpo se adapta, explica Golding.

Existem também medidas que os fabricantes de automóveis podem adotar para reduzir os enjoos em veículos elétricos, afirma Cyriel Diels, professor de design de mobilidade no Royal College of Art.

Estas medidas incluem sistemas informáticos que suavizam as acelerações bruscas, sistemas de som e vibrações subtis nos bancos para indicar aos passageiros que o carro está em movimento, bem como sistemas de travagem regenerativa adaptativa que reduzem as desacelerações repentinas.

Em alguns veículos elétricos, a travagem regenerativa também pode ser desativada.

Matt Adams, da BEAMA, que representa os fabricantes britânicos de postos de carregamento para veículos elétricos, afirma estar confiante de que, “se investigações futuras identificarem a causa dos enjoos durante as viagens de carro, os fabricantes de veículos poderão reagir e melhorar os seus produtos”.

Mas, para Lola, o que mais deseja é que o namorado troque de carro. Diz que esse dia nunca mais chega.

(ZAP)