Dyson já não quer limpar (só) o seu chão e aponta à sua boca. Cem mil píxeis, 28 imagens analisadas por segundo, reação em 100 milissegundos: uma forma “totalmente nova” de lavar os dentes. Mas é mesmo assim?
A Dyson, que ficou conhecida nos últimos anos por reinventar eletrodomésticos em produtos de alta tecnologia, acaba de voltar a deixar os consumidores de boca aberta (e desta vez, para usar este novo produto, têm mesmo de ficar com a boca bem aberta).
A empresa britânica lançou recentemente uma escova de dentes elétrica equipada com inteligência artificial (IA) e uma pequena câmara que filma o interior da boca enquanto se escova os dentes.
A inovação chama-se Dyson CameraJet. Tem três funções num único aparelho: escovar, limpar os espaços entre os dentes e elixir oral. Mas também tem uma câmara com uma objetiva macro de 100 mil píxeis, concebida para mostrar ao utilizador detalhes semelhantes aos que um dentista observa durante uma consulta.
Segundo a empresa já conhecida pelos seus aspiradores, o sistema analisa 28 imagens por segundo e recorre a um algoritmo de aprendizagem automática para identificar espaços entre os dentes e orientar a limpeza de acordo com as necessidades do utilizador da escova.
A escova recorre ainda a uma iluminação estroboscópica para contrariar a escuridão da boca e garantir que a câmara consegue captar imagens com suficiente detalhe. Quando a câmara deteta um espaço entre os dentes, reage em cerca de 100 milissegundos e lança um jato cónico de elixir oral nessa direção, segundo o comunicado da Dyson. Em vez de um fluxo fino, a Dyson criou um jato em forma de cone, mais largo e de menor pressão, para supostamente varrer melhor a placa bacteriana entre os dentes e pressionar menos as gengivas e esmalte.
O aparelho dispõe de ligação Wi-Fi e Bluetooth, o que permite associá-lo a outros dispositivos e acompanhar a filmagem da escovagem.
A Dyson vende ainda uma pasta de dentes própria sem lauril sulfato de sódio — um agente espumante muito comum em produtos de higiene oral que, apesar de não ser considerado tóxico, pode provocar irritação na pele ou olhos. A ausência de espuma tem como objetivo evitar que as bolhas dificultem a visão da câmara durante a escovagem.
A CameraJet custa à volta de 479 euros no mercado europeu e vem com duas cabeças de escova, cabo de carregamento e uma base para recargas.
O desenvolvimento da CameraJet envolveu 661 engenheiros, avançou a empresa fundada em 1991. O algoritmo foi desenvolvido com mais de 470 mil imagens dentárias e a escova funciona com cerca de 16 milhões de linhas de código.
“Os engenheiros e cientistas da Dyson passaram bem mais de uma década a compreender as rotinas de cuidados orais e a forma como as impurezas se acumulam na boca. A nossa investigação mostrou que as pessoas falham consistentemente as zonas onde a placa bacteriana se forma: os espaços entre os dentes”, sustentou James Dyson, o fundador e engenheiro-chefe da empresa, que defende que a combinação de câmara, aprendizagem automática, dinâmica de fluidos, tecnologias de escovagem e conectividade cria uma forma “totalmente nova” de cuidar da saúde oral.
A conectividade e o vídeo lançado pela Dyson levantou questões inevitáveis sobre privacidade e segurança informática. Perante as preocupações, a empresa garante que a câmara só fica ativa durante o Live View ou o Auto-Jet e que as imagens não são gravadas nem guardadas na escova nem na cloud.
Aliás, outras críticas são mais recorrentes pelas redes sociais. Utilizadores da cara escova de dentes denunciam que há unidades a “morrer” com muito pouco uso e surgiram relatos, citados pelo The Verge, de água encontrada dentro da bateria.
O preço da escova tem sido considerado injustificado, especialmente porque o ensaio clínico citado pela Dyson (com 71 participantes ao longo de quatro semanas) compara a CameraJet com uma escova manual, e não com uma escova elétrica premium acompanhada de limpeza interdentária. Dentistas ouvidos pela Allure questionam onde está a comparação com uma Oral-B ou Sonicare unidas ao fio dentário.
Os quatro dentistas consultados pela Allure disseram que não abandonariam o fio dentário por causa da CameraJet, sobretudo em dentes muito juntos ou apinhados.
Há também quem relate salpicos de pasta e elixir no espelho, na cara e na roupa: é preciso aprender a lavar os dentes com esta escova. Quem a experimentou diz que, para a câmara detetar os espaços, é preciso manter a cabeça num determinado ângulo, abrir bastante a boca e por vezes cuspir durante a escovagem para retirar espuma e líquido que bloqueiam a visão.
As críticas não ficam por aqui. Há também utilizadores irritados que dizem que o Auto-Jet funciona bem em certas zonas, mas falha noutras, sobretudo na face interior ou nos dentes da frente, com o jato a praticamente não disparar em alguns dentes. E outros utilizadores dizem o contrário: o jato dispara repetidamente até esvaziar o depósito.
(ZAP)


