Em nome do algoritmo: a batalha contemporânea pela atenção

By | 06/09/2026

Há uma nova espécie de personalidade política que parece ter nascido só para existir num ecrã. Devotos ao algoritmo, não precisam de saber se uma afirmação é verdadeira, justa ou intelectualmente honesta. Precisam apenas de prever se alguém vai clicar nela, comentá-la, partilhá-la, indignar-se com ela ou voltar amanhã para consumir mais.

Nietzsche escreveu sobre a vontade de poder. Hannah Arendt analisou a transformação da política quando a realidade factual deixa de funcionar como limite comum. Guy Debord descreveu uma sociedade em que a experiência direta é progressivamente substituída pela representação.

Hoje podemos acrescentar uma nova figura a essa genealogia: o sujeito algorítmico.

“O que penso?” é gradualmente substituído, consciente ou inconscientemente, por: “O que fará isto circular?” 

Quando uma pessoa publica centenas ou milhares de mensagens, recebe constantemente métricas e aprende quais das suas formulações produzem maior reação, ocorre uma espécie de seleção natural do discurso. É assim que começa o self-branding.

As ideias deixam de competir pela verdade e começam a competir pela distribuição. O discurso começa assim a evoluir em função do ambiente em que circula.

Muitas destas personalidades parecem falar da mesma forma, mesmo quando defendem ideias diferentes. Há um ritmo comum. Uma velocidade. Uma economia da indignação. Tudo precisa de ser imediatamente reconhecível: o inimigo, a ameaça, a vítima, a solução — os temas complexos demoram tempo a compreender.

O algoritmo vive da interrupção. Quanto mais difícil é manter a atenção, maior é o prémio para aquilo que interrompe: a indignação, a surpresa, o medo, a identificação imediata. Não é por acaso que uma das perguntas mais importantes da nossa época já não seja apenas quem controla os meios de comunicação, mas quem controla a nossa capacidade de prestar atenção.

O Veículo Algorítmico – Circuito de retroalimentação entre dados, algoritmo, indivíduo e comportamento observável de João Pedro Fonseca, 2025

A batalha contemporânea pela atenção não é uma questão secundária da tecnologia, mas uma questão sobre a própria formação dos indivíduos. Aquilo a que prestamos atenção acaba por participar naquilo que somos.

E, numa economia construída sobre a captura dessa atenção, a personalidade também se torna um recurso.

É aqui que o sujeito algorítmico deixa de ser apenas um utilizador. Torna-se produtor de si próprio. Aprende a editar a própria personalidade em tempo real através das visualizações, comentários, partilhas, seguidores.

O teórico dos media Geert Lovink tem insistido que o problema das plataformas não pode ser reduzido à ideia de uma tecnologia exterior que simplesmente utilizamos. Vivemos dentro de uma cultura de plataformas, e essa cultura organiza as nossas expectativas e formas de relação. O feed não é apenas aquilo que vemos. É também aquilo que nos ensina, silenciosamente, a querer ser vistos.

O algoritmo não precisa de nos dizer o que pensar. Não precisa sequer de nos convencer. Basta-lhe criar um mundo em que aprendemos, voluntariamente, a tornar-nos aquilo que ele consegue distribuir.

E quando uma personalidade política aprende perfeitamente essa lição, torna-se difícil saber se está a usar o algoritmo ou se o algoritmo encontrou, finalmente, uma voz através da qual pode falar.

A mulher que escolhe

Há ainda um paradoxo particularmente interessante quando esta transformação é protagonizada por mulheres.

Algumas das novas personalidades conservadoras defendem o regresso aos valores tradicionais, à família hierárquica, à centralidade da maternidade e a uma ideia mais restrita do papel feminino. No entanto, fazem-no ocupando precisamente o espaço público que as lutas pela emancipação das mulheres ajudaram a tornar possível. Falam para milhares ou milhões de pessoas, constroem marcas pessoais, participam no debate político, acumulam capital económico e simbólico e apresentam-se como indivíduos cuja voz merece ser ouvida.

Não é uma contradição simples.

Uma mulher pode, evidentemente, utilizar a liberdade conquistada por gerações anteriores para rejeitar o feminismo que tornou essa mesma liberdade mais possível. A liberdade contém a possibilidade de ser usada contra as próprias condições históricas que a produziram.

Mas há aqui uma enorme ironia.

A nova mulher conservadora não aparece necessariamente como uma vítima. Aparece como uma mulher autónoma, assertiva, pública e dona da sua própria narrativa. A sua rebeldia consiste, paradoxalmente, em escolher aquilo que apresenta como uma rejeição da emancipação.

O gesto torna-se particularmente eficaz porque a plataforma recompensa precisamente essa performance de autonomia. A mulher que diz “eu escolho” pode transformar a própria escolha numa marca. A submissão deixa de ser apresentada como uma forma de subserviência e torna-se autenticidade. A renúncia deixa de parecer uma perda de liberdade e passa a ser vendida como a sua forma mais pura.

E é aqui que o sujeito algorítmico revela uma das suas características mais curiosas: ele não precisa de abandonar as contradições. Pode transformá-las em conteúdo. A contradição, que antes podia ser uma fraqueza argumentativa, torna-se agora uma oportunidade de circulação.

Firecracker, na série The Boys 2019 – 2026. Uma mulher que transforma uma identidade conservadora numa persona pública: hiperfeminina, religiosa, sexualizada e politicamente radical. 

A mulher que afirma rejeitar o feminismo pode tornar-se uma celebridade precisamente porque dispõe de uma esfera pública que o feminismo ajudou a conquistar. A personalidade que denuncia a cultura mediática pode construir a sua carreira dentro dela. O indivíduo que rejeita a modernidade pode transformar essa rejeição numa marca perfeitamente adaptada à economia digital.

Nada disto invalida a liberdade dessas escolhas. Mas obriga-nos a perguntar o que significa escolher livremente quando as próprias condições da escolha são produzidas por uma história que se pretende rejeitar.

A contradição não está apenas nas pessoas. Está também no próprio sistema: uma máquina capaz de transformar qualquer posição — inclusive a sua própria negação — em visibilidade, identidade e mercadoria.

Já não somos apenas utilizadores do sistema: somos o material através do qual ele aprende aquilo que será.

Autor:
  • João Pedro Fonseca é um artista e investigador transdisciplinar cujo trabalho explora políticas pós-humanas e filosofias especulativas, com enfoque nas interações entre tecnologia e natureza. É cofundador e codiretor, com a artista Carincur, da ZABRA – Centro de Investigação de Arte Pós-humana (2018–presente), estrutura sediada em Lisboa dedicada à criação e ao pensamento crítico sobre as relações entre arte, ciência e pós-humanidade. A sua prática desenvolve-se entre performance, instalação, videoarte e cenografia, articulando corpo, máquina e estética especulativa numa lógica de hibridização material e conceptual. Entre os seus trabalhos mais relevantes destacam-se ANATOMIA DA EXTINÇÃO (2019), WIRED DREAMS (2023), NO MORE FIREWORKS (2023) e METAVIOLENCE (2025) e em colaboração com Carincur: Jezabel (2024), carne.exe (2025) e Jeffthielmusk®  (2026). O seu trabalho tem sido apresentado em contextos institucionais e independentes, em colaboração com estruturas como Centro de Arte Moderna – Gulbenkian, Fundação Champalimaud, TNDM II, Futurama, ModaLisboa, Lux Frágil, Sónar Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado ou Gnration. Colabora regularmente com criadores nas áreas do teatro, ópera e dança, integrando a sua concepção cénica, desenho de luz e vídeo.

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