Cientistas desenvolvem “quimioterapia programável” capaz de destruir o DNA do câncer

By | 02/08/2026

A nova abordagem utiliza uma enzima programável capaz de reconhecer um RNA mensageiro específico, como o produzido por células cancerígenas. Ao identificar esse alvo, a enzima é ativada e fragmenta o DNA da célula tumoral, impedindo sua sobrevivência.

Uma nova estratégia baseada na tecnologia CRISPR pode representar um dos avanços mais promissores no tratamento do câncer. Pesquisadores criaram um sistema capaz de identificar células tumorais por meio de seu RNA mensageiro e, em seguida, destruir completamente o DNA dessas células, levando-as à morte de forma altamente direcionada.

Os resultados foram apresentados em dois estudos publicados na revista Nature e demonstram o potencial de uma nova classe de terapias que os próprios pesquisadores chamam de “quimioterapia programável”. Diferentemente da quimioterapia convencional, que também pode atingir células saudáveis, a nova abordagem foi projetada para reconhecer apenas células que produzem um RNA específico associado ao câncer.

Como funciona a nova tecnologia

A inovação utiliza uma enzima chamada Cas12a2, integrante do sistema CRISPR, conhecido por revolucionar a edição genética nos últimos anos. Enquanto a maioria das proteínas CRISPR atua realizando cortes precisos no DNA, a Cas12a2 apresenta um comportamento completamente diferente.

Ela pode ser programada para procurar uma sequência específica de RNA mensageiro (mRNA) — molécula responsável por transportar as instruções genéticas para a produção de proteínas. Quando encontra esse RNA, característico de uma célula tumoral, a enzima muda de comportamento e passa a fragmentar todo o DNA da célula, tornando impossível sua sobrevivência.

Na prática, funciona como um interruptor molecular de autodestruição: a presença do RNA cancerígeno ativa a enzima, que elimina apenas a célula que produz aquele marcador genético.

Segundo Yang Liu, biólogo molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah e um dos autores da pesquisa, trata-se de uma abordagem inédita para combater tumores.

“É um interruptor molecular de morte que reconhece um RNA específico. Basicamente, trata-se de uma quimioterapia programável.”

Novo caminho para tumores considerados difíceis de tratar

O grande diferencial da técnica está na capacidade de atacar mutações genéticas que, até hoje, eram consideradas praticamente impossíveis de atingir com medicamentos tradicionais.

Muitos tipos de câncer são impulsionados por proteínas alteradas que não possuem um alvo farmacológico adequado. Como essas proteínas são produzidas a partir de RNAs específicos, a Cas12a2 pode reconhecer essas moléculas antes mesmo que elas exerçam sua função, eliminando a célula inteira.

Nos estudos, duas mutações receberam atenção especial:

  • TP53, conhecido como o “guardião do genoma”, alterado em aproximadamente metade de todos os casos de câncer;
  • KRAS, associado a alguns dos tumores mais agressivos, incluindo câncer de pulmão, pâncreas e intestino.

Em ambos os casos, a enzima conseguiu distinguir células saudáveis das cancerígenas mesmo quando havia apenas uma única diferença na sequência do RNA, demonstrando um nível de precisão extremamente elevado.

Descoberta surgiu de um comportamento inesperado

A Cas12a2 não foi criada para combater o câncer. Sua função natural é proteger bactérias contra vírus.

Há cerca de dez anos, pesquisadores da Universidade Estadual de Utah estudavam essa proteína acreditando que ela funcionaria como outras enzimas CRISPR utilizadas em edição genética. No entanto, os experimentos mostravam resultados completamente diferentes.

Após diversas análises, os cientistas descobriram que, ao reconhecer um RNA específico, a proteína deixava de fazer pequenos cortes no DNA e passava a destruir todo o material genético da célula.

Na natureza, esse mecanismo impede que bactérias infectadas continuem propagando vírus para outras células. Agora, os pesquisadores estão adaptando esse mesmo princípio para eliminar células cancerígenas.

Resultados iniciais são animadores

Os testes foram realizados em culturas de células humanas e em camundongos.

Os pesquisadores observaram redução significativa de tumores associados à mutação do TP53, além de cânceres de cabeça e pescoço relacionados ao papilomavírus humano (HPV).

A tecnologia já deu origem a uma terapia experimental desenvolvida pela startup alemã Akribion Therapeutics, que pretende iniciar estudos clínicos e espera obter os primeiros resultados em humanos até 2030.

Ainda existem desafios importantes

Apesar dos resultados promissores, os especialistas ressaltam que a tecnologia ainda está em fase experimental.

Entre os principais obstáculos estão:

  • desenvolver métodos eficientes para transportar a proteína Cas12a2 até o interior das células tumorais;
  • confirmar sua segurança em organismos humanos;
  • garantir que tecidos saudáveis não sejam afetados durante o tratamento.

Outro ponto observado é que, embora a enzima tenha eliminado grande parte das células cancerígenas, ela ainda não conseguiu destruir todos os tumores nos experimentos realizados até agora.

Por isso, os pesquisadores acreditam que, inicialmente, a nova tecnologia deverá ser utilizada em combinação com outras terapias oncológicas, aumentando a eficácia do tratamento e reduzindo as chances de resistência das células cancerígenas.

Potencial vai além do câncer

Os cientistas acreditam que a Cas12a2 poderá ser aplicada futuramente em diversas outras doenças.

Como a tecnologia é baseada no reconhecimento de RNAs específicos, ela poderá, em teoria, ser adaptada para eliminar células envolvidas em doenças autoimunes, distúrbios neurológicos e outras enfermidades causadas por alterações na expressão genética.

Embora ainda haja um longo caminho até sua aprovação clínica, a pesquisa representa uma das aplicações mais inovadoras da tecnologia CRISPR já desenvolvidas e abre caminho para tratamentos cada vez mais personalizados e precisos contra doenças complexas como o câncer.

(Engenharie)