Quando se namora com um chatbot, não há qualquer risco de rejeição, mas também se perde qualquer possibilidade de encontrar o amor. Alegadamente.
O caminho entre “escreve-me um e-mail” e “és a única pessoa que me compreende” revelou-se mais curto do que se previa.
Os dados de um novo inquérito mostram que 15% dos homens já tiveram conversas de teor sedutor com um chatbot de inteligência artificial, contra 8% das mulheres — e fizeram-no em ferramentas que muitas pessoas mantêm abertas durante todo o dia.
Um inquérito da Talker Research a 2.000 adultos norte-americanos encontrou a mesma diferença entre homens e mulheres em duas perguntas distintas.
No que respeita à excitação sexual, o padrão repetiu-se: 17% dos homens disseram que uma conversa com uma IA os tinha excitado, contra 9% das mulheres.
Estes números não dizem respeito a uma aplicação de companhia virtual destinada a um público de nicho. O inquérito incidia sobre ferramentas generalistas como o ChatGPT, o Claude e o Google Gemini — programas que muitas pessoas já mantêm abertos enquanto trabalham.
O inquérito mostrou também que a geração Z recorre a estas ferramentas a um ritmo que faz todas as outras gerações parecerem pertencer a outro século — porque, em grande medida, pertencem mesmo.
Cerca de 27% dos inquiridos desta geração disseram já ter tido conversas românticas ou sexuais com uma IA, e a mesma percentagem afirmou ter ficado excitada com essas interações.
Entre os millennials, a percentagem foi de 16%, enquanto na geração X se ficou pelos 9% e entre os baby boomers pelos 2%.
Já uma pessoa da geração baby boom tem uma probabilidade mais de dez vezes inferior à de um adulto da geração Z de já ter flirtado com um chatbot.
O que torna os números relativos aos homens ainda mais interessantes é o facto de um chatbot oferecer algo que uma aplicação de encontros não consegue garantir: não há qualquer possibilidade de rejeição, e o interlocutor nunca perde o interesse.
Para uma população que vários estudos têm vindo a identificar como particularmente afetada pela solidão e pelo isolamento emocional, trata-se de uma combinação relevante, diz a Vice.
Um estudo de 12 meses, publicado em abril na revista Psychological Science, concluiu que as pessoas que recorriam a chatbots sociais em busca de companhia relataram, ao longo do tempo, níveis mais elevados de solidão — e não mais baixos.
Isto sugere que encontram alguma coisa nessas interações, mas não o suficiente para satisfazer as suas necessidades emocionais.
Essa tensão atravessa diretamente a conclusão mais marcante do inquérito.
Quase 1/4 dos norte-americanos (24%), considera que flirtar com uma IA equivale a trair o parceiro numa relação. Entre os membros da geração Z, precisamente o grupo que mais tende a fazê-lo, 36% afirmaram que esse comportamento seria motivo suficiente para pôr fim à relação.
Assim, a geração mais disposta a flirtar com um chatbot é também aquela que mais provavelmente terminaria uma relação por causa disso.
O inquérito não permite saber se se trata de hipocrisia, ou se estamos perante uma geração a negociar, em tempo real, os limites das relações na era da inteligência artificial.
(ZAP)
