Avançar depressa e destruir as mulheres: o guião das Big Tech

By | 01/08/2026
“Move fast and break things” foi um das frases que Mark Zuckerberg terá usado durante os primeiros anos do Facebook para motivar as suas equipas a desenvolver rapidamente os seus produtos sem prestar demasiada atenção às consequências. Passado mais de duas décadas, Katie Jgln escreve sobre o lançamento dos Meta Glasses, como esse mote parece mais real do que nunca e as principais vítimas são as mulheres.

Nota introdutória: este texto fala sobre assédio, stalking e abuso sexual mediado por tecnologia.

Uma manhã, no caminho até à escola secundária, um rapaz adolescente deslizou até ao lugar do autocarro imediatamente atrás de mim. Disse-me que vivia perto de mim e que tínhamos andado na mesma escola. A dado momento, tão naturalmente como se estivesse a comentar como estava o tempo, disse que gostava de me fotografar quando me via a correr.

Quando contei a história às minhas amigas, enojada com a ideia de um estranho a assediar-me desta maneira, elas disseram que já tinham passado por episódios semelhantes. Estávamos no começo da década de 2010; quase todos os telemóveis já tinham uma câmara incorporada. Os rapazes já a usavam para tentar tirar fotografias à socapa quando raparigas de saia subiam escadas. Ou nas casas de banho. Ou enquanto se estavam a vestir para uma aula de educação física. E, às vezes, essas mesmas fotografias eram partilhadas, tal como outras que algumas raparigas enviavam à confiança apenas para um rapaz.

Internalizei rapidamente a ideia de que este tipo de coisas “acontecem”, de que este é um acontecimento desconfortável mas inevitável da experiência de ser uma rapariga — e mais tarde mulher —, até porque raramente existiam consequências para os rapazes que o faziam. O que é que podemos fazer? São rapazes a ser rapazes. 

Hoje em dia tratamos as formas de assédio abuso mediadas pela tecnologia da mesma forma. Cada vez que surge uma nova ferramenta, homens e rapazes arranjam uma forma de a transformar numa arma contra nós, enquanto as empresas que as lançam, e o público em geral, reagem num gesto coletivo de indiferença. Estas coisas simplesmente acontecem.

A última adição a esse conjunto de ferramentas de abuso digital? Os óculos inteligentes da Meta. 


Os óculos inteligentes são basicamente smartphones para a cara. Podem enviar mensagens, responder a questões, gravar fotografias e vídeos, tudo isto sem ter de se usar as mãos. A última versão da Meta, com IA incorporada, a que acabaram por chamar de Meta Glasses, tem uma armação que a torna praticamente indistinguível de uns óculos de designer comuns. E a empresa até contratou a Kylie Jenner e uma série de outras influencers para promover o produto.

Como é que consegues saber se alguém a usar estes cybertrucks dos óculos te está a filmar? Na teoria, os óculos ligam uma pequena luz LED sempre que a gravação se inicia. Na prática, a internet já está cheia de tutoriais passo a passo sobre como cobrir a luz ou desativá-la permanentemente. 

Este “companheiro de mãos livres” da Meta pode ser vendido como uma ferramenta para ajudar as pessoas a viver o momento e “registar a vida”, mas também tornou mais fácil do que alguma vez foi registar as vidas de pessoas que nunca aceitaram ser filmadas — e que provavelmente nem vão reparar que isso está a acontecer.  E, para surpresa de ninguém, a maior parte das pessoas filmadas sem consentimento são mulheres

Uma investigação recente da CNN desvendou que alguns homens a usar os óculos inteligentes da Meta têm vindo a gravar-se secretamente enquanto abordam mulheres em público e as tentam engatar. As gravações acabam por ser publicadas nas suas redes sociais sem o consentimento, ou sequer o conhecimento, dessas mulheres, recebendo milhões de visualizações e milhares de comentários — muitos deles explicitamente sexuais ou abusivos. Tudo isto enquanto os seus “criadores” geram lucro. Nenhuma das mulheres com quem a CNN conversou disse ter visto a tal luz de gravação durante estes encontros. E as que contactaram os homens e lhes pediram para remover os vídeos tiveram pouco sucesso. Como outras reportagens têm mostrado, este tipo de experiências normalmente deixam as mulheres a sentir-se humilhadas, consternadas, e com a sensação de lhes ter sido retirado o direito de circular livremente nos espaços públicos. Uma mulher contou o seguinte à BBC:

Não fazia ideia de que isto me estava a acontecer, não autorizei que o vídeo fosse publicado, não dei o meu consentimento para que fosse sequer filmado secretamente. Isto deixou-me aterrorizada — fez-me ter medo de sair à rua.

A resposta da Meta foi tão previsível quanto o próprio abuso. Nas declarações que prestaram aos órgãos de comunicação social que estavam a cobrir esta história, a empresa disse que estava a par de um “pequeno número de utilizadores” que escolhiam “usar erradamente” os seus produtos, ao mesmo tempo que dizia que iria “continuar a analisar oportunidades de melhorar os nossos óculos com IA, com base no feedback dos clientes”.

Isto lembra-me do que aconteceu com outra das mais recentes apostas da Meta: o Metaverso e a sua plataforma de realidade virtual Horizon Worlds, construída com a módica quantia de “apenas” 80 biliões de dólares. Até durante a sua fase de desenvolvimento inicial, utilizadores do Horizon relataram terem sido assediadas e abusadas online. E quando uma pessoa que testava a versão beta disse ter sido “apalpada” — descrevendo a experiência como “mais intensa” do que assédio sexual online — o então Vice-Preditende do Horizon, Vivek Sharma, respondeu dizendo que foi um “infeliz” incidente.

Como escreve Laura Bates no seu novo livro, o brilhante The New Age of Sexism:

Para a Meta, as experiências de assédio e abuso vividas por mulheres online são todas conteúdo útil para melhorar os seus produtos e lucrar mais com isso. A abordagem “faz agora e resolve qualquer problema de segurança mais tarde” nunca esteve tão claramente em evidência.”1

E, como também seria de esperar, a tal pessoa que testou a versão beta do Horizon foi apenas a primeira de muitas vítimas, sobretudo entre as mulheres2. As funcionalidades de segurança que a Meta adicionou posteriormente nem sempre eram fáceis de encontrar, nem funcionavam consistentemente. O Horizon Worlds tornou-se rapidamente um antro de conteúdo sexualmente explícito, racismo, grooming, assédio sexual e abuso — incluindo contra crianças.

Tudo isto é um guião familiar às Big Tech: Andar depressa. Partir coisas* (sobretudo mulheres e raparigas). Preocupar-se com os danos mais tarde. Ou nem sequer se preocupar. Repetir tudo de novo.


Isto não quer dizer que a sociedade ignora por completo o lado mais obscuro da tecnologia. Alguns críticos, por exemplo, alertam para um apocalipse ao estilo do Exterminador Implacável, no qual uma IA superinteligente assume o controlo das armas e revolta-se contra a humanidade. Outros receiam que a desinformação política gerada por IA possa levar ao colapso da democracia.

Mas, geralmente, não são as mulheres a mostrar-se mais preocupadas com estes cenários grandiosos e hipotéticos que poderão acontecer num futuro distante. As mulheres não precisam de imaginar que a tecnologia as pode magoar. Já está a fazê-lo. E os horrores diários que esta permite também não acabam com o Metaverso ou os óculos inteligentes.

Em antecipação do Diálogo Global sobre a Governação da IA, em Geneva, a ONU Mulheres publicou um relatório baseado num inquérito de 2025 que englobou 119 países. Os resultados mostram que aproximadamente uma em cada quatro mulheres jornalistas, escritoras, ativistas, defensoras de direitos humanos, e outras que comunicam em público, experienciaram algum tipo de violência online com recurso a IA.  Entre as inquiridas, 27% recebeu conteúdo sexual não solicitado através de mensagens diretas — no qual se incluem imagens explícitas ou vídeos, uma prática conhecida como “cyberflashing” —, 12% viram imagens suas serem partilhadas sem o seu consentimento, e 6% foram vítimas de deepfakes — imagens, vídeos ou áudios falsos com uma aparência realista, gerados em ferramentas de IA.

As escritoras relataram dos mais altos níveis de abuso online. Sendo eu própria uma mulher escritora, não posso dizer que isto me surpreende. 

Imagem via ‘Tipping Point: Online Violence Impacts, Manifestations and Redress in the AI Age’, relatório da ONU Mulheres.

As deepfakes também têm afetado cada vez mais mulheres e raparigas com pouca ou nenhuma presença pública. De acordo com um relatório de 2023 conduzido pela empresa de cibersegurança Security Hero, o número de vídeos não consensuais, de conteúdo sexualmente explícito, gerados com IA aumentou 464% entre 2022 e 2023. Praticamente todo — 99% — é com mulheres. 

Este aumento acontece, em grande medida, graças à disponibilização de ferramentas de IA que geram esse tipo de conteúdo. Apenas uma plataforma global identificada pelos investigadores do Oxford Internet Institute armazena cerca de 53000 ferramentas de deepfake, que desde o final de 2022 já foram descarregadas 15 milhões de vezes. Algumas chegaram mesmo a plataformas de redes sociais, incorporadas em assistentes de IA (como o Grok, assistente do X) ou amplamente publicitadas por lá.  Uma app de deepfakes, Parky AI, colocou mais de 260 anúncios nas plataformas da Meta, vários dos quais com um nude falso desfocado da atriz, então menor de idade, Jenna Ortega. E embora perto de 30 desses anúncios tenham sido suspensos por violarem as políticas da Meta, os que tinham Ortega como protagonista não foram. E a app também continuou a estar disponível na App Store da Apple.

As empresas de tecnologia falharem constantemente a tentar corresponder aos seus standards de moderação — ou a ter standards de moderação de todo, como é o caso da Apple, que continua a não ter regras especificamente sobre apps de deepfake — é outro grande tema. Enquanto outro tipo de conteúdo feminino, particularmente relacionado com saúde, é frequentemente censurado ou sofre de shadowban, os deepfakes, o assédio misógino e as campanhas de bullying, bem como a enchente de conteúdo adjacente à manosfera — que agora também inclui gravações não consensuais captadas com óculos inteligentes — circula ampla e livremente. Como Bates mostra em The New Age of Sexism, toda uma “indústria de remoção de conteúdo” emergiu para lucrar com esta falha, cobrando às vítimas entre 3000 e 8000 dólares para rastrear e remover conteúdo online em que apareçam. Algumas destas empresas até foram descobertas a trabalhar de perto com os mesmos sites que armazenam o conteúdo.

E tudo isto que fui mencionando não é o enquadramento total. O Spyware3, aplicações de rastreamento de localização, gadgets inteligentes para a casa, e os wearables [tecnologias que se podem vestir]  também estão a ser cada vez mais usadas para controlar, monitorizar, assediar e perseguir mulheres, sobretudo pelos seus parceiros íntimos. A Refuge, a maior organização dedicada à violência doméstica no UK, registou um aumento de 62% nos casos encaminhados para a sua equipa interna dedicada ao abuso facilitado por tecnologia, apenas em 2025. 

Existe claramente um ecossistema em rápida expansão, e notavelmente ainda pouco debatido, de abuso de género mediado pela tecnologia, ao qual se espera que meninas e mulheres se adaptem. Porque estas coisas simplesmente acontecem, não é?


Enquanto mulher, muitas vezes fazem-te sentir louca por simplesmente quereres existir da mesma maneira que um homem.

Não teria acontecido se não fosses tão direta. Não teria acontecido se não estivesses a correr sozinha lá fora. Não teria acontecido se não tivesses respondido a homens que não conhecias. Não teria acontecido se não tivesses saído de casa. (Embora, algumas vezes, também aconteça sem que tenhas de sair de casa, considerando que, estatisticamente, é em casa que as mulheres têm mais probabilidades de sofrer de abuso, ou porque não respondem a um homem — ou porque respondem da forma “errada”.)

Mulheres e raparigas continuam confinadas num labirinto de dilemas e restrições à sua autonomia, privacidade, e capacidade de se mover livremente pelo mundo. Ao mesmo tempo, a nossa sociedade patriarcal e os homens continuam a tratar estas limitações como necessidades de senso comum, e qualquer abuso que aconteça como uma consequência inevitável por as mulheres os “ultrapassarem”.

Um dos efeitos mais profundos dessa ameaça constante de abuso, seja online ou offline, é o retraimento. O relatório recente da ONU Mulheres também descobriu que pelo menos metade das mulheres escritoras, jornalistas e outras comunicadoras públicas, se auto-censuram nas redes sociais por causa de ataques online. Entre as mulheres jornalistas especificamente, isto representa um aumento de 50% desde 2020. Cerca de 20% das mulheres inquiridas também dizem auto-censurar-se no trabalho.

Imagem via ‘Tipping Point: Online Violence Impacts, Manifestations and Redress in the AI Age’, relatório da ONU Mulheres.

Conheço demasiadas mulheres brilhantes que se retiraram da internet porque se tornou insuportável para elas. Não consigo culpá-las. Mas também não consigo deixar de ficar preocupada com o tipo de mundo em que nos estamos a tornar quando metade da população tem de escolher entre aguentar abusos por existir, ser vocal, ou simplesmente fazer o seu trabalho, e desaparecer completamente.

Alegadamente (e silenciosamente) a Meta também adicionou uma tecnologia de reconhecimento facial aos seus óculos inteligentes. Esta funcionalidade permitiria efetivamente que os seus utilizadores identificassem pessoas registadas na câmara dos óculos. Não vou especular sobre todas as possíveis consequências que uma tecnologia deste género poderá ter ao ser usada contra mulheres e outras pessoas, mas acredito que tu, cara leitora, consigas imaginá-las suficientemente bem.

Os gigantes da tecnologia podem defender que priorizam a segurança dos utilizadores, mas as suas ações contam uma história completamente diferente.  Uma e outra vez, priorizam o crescimento e a rapidez para comercializar, lançar ferramentas, plataformas e equipamentos sem salvaguardas de segurança suficientes, e adicionam proteções (frequentemente pouco mais do que pensos rápidos) apenas depois dos estragos já terem acontecido, e a pressão pública se tornar inevitável. Sarah Wynn-Williams, autora do livro Careless People, um relato de quem viveu por dentro a experiência de ser executiva na Meta, chama, com propriedade, a esse comportamento: “negligência letal”. E algures pelo caminho, a negligência letal das Big Tech misturou-se com o privilégio patriarcal. Como escreve Bates:

“Tudo vai dar, uma e outra vez, ao privilégio masculino. O direito ao progresso. O direito à riqueza. O direito à negação plausível. O direito aos nossos corpos. O direito às nossas caras. O direito às nossas vidas. O direito aos nossos genitais.”4

Os governos também têm falhado, em grande medida, em responsabilizar as empresas de tecnologia quando as coisas correm mal e têm permitido que a regulação fique muito atrás da velocidade a que as tecnologias evoluem. Dos 138 países avaliados pela ONU, apenas 18 (13%) incluem disposições substantivas que têm em conta as questões de género nas suas estratégias nacionais de IA. A esmagadora maioria nem sequer menciona o género.


É ilusório acreditar que não há nada que possamos fazer para garantir que as mulheres podem existir de forma segura online e nos espaços offline, ou até nos seus próprios corpos, e se há alguma coisa que pode ser feita, que cabe inteiramente às mulheres, sozinhas, que tomem as precauções necessárias. 

Estas coisas não acontecem “simplesmente”. A nossa sociedade permite que aconteçam.

E nós continuamos a permitir que aconteçam hoje, nomeadamente através de novas formas de humilhação e desumanização. Quantas mais teremos de testemunhar? Quantas mais mulheres e meninas destruídas serão um preço “justo” a pagar pelo progresso tecnológico?


“Avançar depressa e destruir as mulheres” [Move Fast and Break Women] foi originalmente publicado em Noösphere, newsletter de Katie Jgln. A tradução para português é da Carolina Franco.

  1. Tradução livre de Carolina Franco a partir de Laura Bates: “For Meta, women’s online experiences of harassment and abuse are all helpful fodder for improving their product and making more money out of it. The ‘make it now and fix any safety issues later’ approach has never been more clearly on display.
    ↩︎
  2. Entre as primeiras vítimas também estava a empreendedora tech e investigadora Nina Jane Patel, que passou por uma experiência de assédio virtual apenas 60 segundos depois de entrar no lobby público no Horizon Worlds. Ela descreveu-a como “uma experiência horrível que aconteceu tão rápido”, antes sequer de ter tido acesso às funcionalidades de segurança da plataforma.
    ↩︎
  3. O Spyware, também conhecido como “stalkerware”, é um software malicioso instalado no dispositivo de uma pessoa sem o seu conhecimento, que regista a sua atividade— rastreando a sua localização, lendo suas mensagens, monitorizando as suas chamadas, ativando o seu microfone, etc. — e as partilha com quem a pessoa que o instalou.
    ↩︎
  4. Tradução livre de Carolina Franco a partir de Laura Bates: “It all comes back, again and again, to men’s entitlement. Entitlement to progress. Entitlement to wealth. Entitlement to plausible deniability. Entitlement to our bodies. Entitlement to our faces. Entitlement to our lives. Entitlement to our genitals.
    ↩︎
Autor:
  • Katie Jgln é uma cientista social e escritora. Nasceu na Polónia, estudou em França e na Bélgica — onde tirou o mestrado em Economia na UCLouvain — e atualmente vive em Londres, no Reino Unido, com um gato, um italiano e montes de plantas. Quando trabalhava num emprego de que não gostava, criou o The Noösphere, uma publicação para pessoas de todas as idades e grupos de interesse onde escreve com um tom pessoal, político, às vezes engraçado, por vezes sério, e sempre agitador.

    (Shifter)