O railgun europeu saiu do laboratório — e deu o primeiro tiro ao ar livre

By | 20/07/2026

O novo railgun europeu usa eletricidade, em vez de pólvora, para lançar projéteis a grande velocidade. O objetivo de longo prazo é desenvolver uma possível resposta a ameaças hipersónicas.

O Instituto Franco-Alemão de Investigação de Saint-Louis (ISL) disparou, a 29 de junho, o seu canhão eletromagnético experimental, anunciou o instituto em comunicado.

Foi a primeira vez que o sistema europeu lançou um projétil em voo ao ar livre, num teste que abre caminho a disparos com mais energia e a distâncias maiores.

O railgun foi projetado e construído integralmente pelo ISL, mas o instituto não revelou a velocidade, a energia, o alcance ou o calibre usados no ensaio, pelo que  não é possível afirmar que este primeiro disparo tenha atingido velocidade hipersónica.

O objetivo imediato não era demonstrar uma arma pronta para combate. O teste, que teve lugar no campo de ensaios de Baldersheim, serviu para retirar a tecnologia do ambiente controlado do laboratório e começar a avaliar o comportamento dos projéteis em condições mais próximas de uma utilização real.

Um canhão que dispara com eletricidade

Ao contrário da artilharia convencional, um railgun não utiliza pólvora nem outro propelente químico para lançar a munição. Uma corrente elétrica de grande intensidade percorre dois carris condutores e gera o campo eletromagnético que acelera o projétil ao longo do cano em poucos milissegundos.

A força do impacto resulta sobretudo da energia cinética acumulada durante essa aceleração. O projétil pode, portanto, causar danos sem transportar uma carga explosiva.

O ISL considera que a tecnologia poderá, no futuro, contribuir para a defesa contra mísseis hipersónicos e veículos de reentrada manobráveis, que desafiam os limites dos atuais sistemas de interceção.

O teste foi realizado numa nova instalação ao ar livre, construída pelo ISL no âmbito do programa Railgun Free Flight Facility, iniciado há dois anos.

A instalação permitirá aumentar progressivamente a energia dos disparos, estudar o comportamento dos projéteis em voo livre ao longo de distâncias significativas, aprofundar a integração do lançador e desenvolver munições próprias para aceleração eletromagnética.

Os próximos ensaios terão mais energia e maiores distâncias de voo livre. O ISL adverte, porém, que serão necessários vários anos de investigação, aumento de escala e qualificação antes de a tecnologia poder dar origem a um sistema operacional.

China avança nos railguns; EUA apostam nas armas hipersónicas

O ensaio europeu ocorre num momento de forte investimento internacional em canhões eletromagnéticos e armas hipersónicas, duas tecnologias distintas, embora potencialmente relacionadas.

Investigadores militares chineses apresentaram, em 2025, o seu X-railgun, que combina dois sistemas de carris para aumentar a aceleração sem que os campos magnéticos interfiram entre si. O sistema poderá lançar projéteis a velocidades até Mach 7, mas estas capacidades são ainda projeções técnicas e não foram demonstradas numa arma operacional.

Os Estados Unidos investiram durante anos em canhões eletromagnéticos, mas dificuldades com o desgaste dos componentes, o fornecimento de energia e os custos travaram o programa naval. Washington mantém, contudo, vários projetos de armas hipersónicas terrestres, aéreas e navais.

O disparo de Baldersheim marca, porém, uma mudança concreta para o projeto do ISL: o railgun saiu do laboratório e começou a ser testado ao ar livre, com os projéteis em voo livre.

(ZAP)