Enquanto Portugal sufoca, na China há prédios que fazem “chover”. Um condomínio de Yuncheng instalou nebulizadores gigantes nos telhados para combater o calor. As autoridades chinesas falam em descidas de 5 a 8 graus em minutos. A ciência confirma o princípio, mas com números mais modestos.
Chama-se “chuva de telhado” e tornou-se viral nas redes sociais em plena vaga de calor no hemisfério norte. As imagens mostram cortinas de névoa a descer dos telhados de torres residenciais em Yuncheng, no norte da China, e a arrefecer fachadas, ruas e pátios em baixo.
O vídeo ganhou projeção internacional depois de ter sido partilhado, a 1 de julho, nas redes sociais da porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning.
Segundo Ning, o sistema consegue baixar a temperatura de superfície dos edifícios entre 5°C e 8°C em poucos minutos. A publicação ultrapassou os 8,3 milhões de visualizações, segundo a imprensa asiática.
Daí saltou para outras redes sociais, onde utilizadores em países confrontados com temperaturas extremas fizeram a pergunta óbvia: se funciona, porque é que não se vê isto em mais cidades?
O princípio é conhecido: chama-se arrefecimento evaporativo. Bicos de alta pressão instalados nos telhados libertam gotículas de água muito finas, que evaporam rapidamente e absorvem calor do ar e das superfícies próximas.
É o mesmo mecanismo que faz o suor arrefecer o corpo humano, mas aplicado à escala de um conjunto residencial.
Segundo o China Daily, o sistema instalado no complexo residencial Shichang Guobinfu usa equipamentos de pulverização de alta pressão nos telhados para dispersar água sob a forma de névoa fina. À medida que evapora, essa névoa retira calor ao ambiente envolvente e reduz a temperatura sentida nos espaços exteriores.
O sistema não é exatamente novo. Tecnologias semelhantes já são usadas em parques, praças, estufas, explorações agrícolas, esplanadas, paragens de autocarro e zonas de espera ao ar livre.
A novidade, neste caso, é a escala residencial e o efeito visual: vários prédios altos a libertar uma espécie de chuva artificial a partir dos telhados.
Os responsáveis pelo empreendimento dizem que a primeira fase do sistema abrange 12 edifícios residenciais. O investimento total terá sido de 16,5 milhões de yuans, cerca de 2 milhões de euros, e cada ativação custará mais de 10 mil yuans, aproximadamente 1.200 euros, incluindo eletricidade, água e manutenção dos mais de 200 bicos de nebulização.
Segundo a gestão do condomínio, cada utilização consome cerca de 15 toneladas de água, mas os custos são suportados pela empresa gestora e não implicam cobranças adicionais aos moradores.
E funciona mesmo?
A ciência valida o princípio, mas com números mais prudentes do que os que mais circularam nas redes sociais.
Um estudo de campo em Xi’an, também na China, publicado em 2024 na Frontiers of Architectural Research, concluiu que um sistema de nebulização foi capaz de reduzir a temperatura do ar entre 2,4°C e 4,9°C, à custa de um aumento da humidade relativa entre 17,1% e 17,8%.
Outro estudo sobre pulverização intermitente em espaços exteriores, 8publicado também em 2024 na revista Buildings, encontrou uma redução média da temperatura de 2,42°C, com um máximo de 5,68°C. Também aqui, o arrefecimento veio acompanhado de aumento da humidade.
A diferença entre estes resultados e os 5°C a 8°C divulgados no caso de Yuncheng não significa necessariamente que os valores chineses estejam errados. Significa que é preciso perceber o que está a ser medido: temperatura do ar, temperatura de superfície, temperatura do solo ou sensação térmica.
O desempenho também depende da humidade, do vento, da exposição solar, da altura dos sensores e da duração da pulverização.
Quanto mais seco o ar, melhor tende a funcionar o arrefecimento evaporativo. Em ambientes muito húmidos, as gotículas evaporam pior, o arrefecimento é menor e a sensação de abafamento pode aumentar.
O entusiasmo, por isso, não é unânime. Nos comentários ao vídeo, muitos utilizadores questionaram o consumo de água doce num mundo cada vez mais exposto a secas e stress hídrico. A questão é particularmente sensível porque Shanxi é uma província relativamente seca.
Os defensores respondem que a névoa ultrafina usa menos água do que uma pulverização convencional e evapora quase totalmente.
Ainda assim, o próprio caso de Yuncheng mostra que a solução tem custos relevantes: milhares de euros de investimento por edifício, consumo de água, eletricidade, manutenção e necessidade de controlo da qualidade da água.
Há ainda uma limitação essencial: a nebulização arrefece o exterior, mas não substitui o ar condicionado dentro de casa.
O objetivo é tornar ruas, pátios e espaços comuns mais suportáveis e reduzir, localmente, o efeito de ilha de calor urbana — o calor acumulado pelo betão e pelo asfalto, agravado também pelo próprio ar condicionado, que despeja para a rua parte do calor que retira do interior dos edifícios.
E em Portugal, faria sentido? Em teoria, os verões secos de grande parte do interior e do Sul do nosso país favorecem este tipo de arrefecimento evaporativo. É o mesmo princípio dos nebulizadores usados em muitas esplanadas, mas em versão XXL.
Entre a física e um telhado português que “faz chover”, porém, há ainda uma distância considerável: investimento, manutenção, consumo de água, regras urbanísticas e uma pergunta inevitável num país cada vez mais exposto à seca — onde é que esta solução faria sentido?
(ZAP)
