Morte de psicóloga atribuída ao sistema de IA de hospital

By | 22/06/2026

Um sistema hospitalar falível e inflexível recusou-se a ceder mesmo quando os dados dos exames mostravam que o estado da paciente se agravava. “Percebemos que os médicos perderam autonomia para decidir se um paciente está muito gravemente doente”.

À medida que a Inteligência Artificial entra nos sistemas hospitalares em todo o mundo, o caso de uma psicóloga brasileira deixa claro que esta tecnologia não precisa de diagnosticar doentes para determinar se vivem ou morrem.

Rebeca Cardoso Tenente Molina, de 32 anos, morreu depois de o sistema de IA de um hospital público, usado para atribuir camas hospitalares, a ter obrigado a esperar cinco dias por uma transferência para uma unidade de cuidados intensivos.

Em entrevista à Globo, familiares da jovem psicóloga explicaram que o sistema de IA, designado “Core”,  atrasou o acesso aos cuidados de que ela precisava.

Antes de morrer, Molina estava internada numa unidade hospitalar do município de São João Nepomuceno, onde esperava tratamento médico para cálculos biliares.

À medida que o seu estado de saúde se deteriorava rapidamente, Molina aguardou que ficasse disponível uma cama de UCI noutro hospital, em Oliveira,  a cerca de 300 quilómetros de distância.

Apesar de a família ter avançado com uma providência judicial urgente contra o sistema hospitalar para conseguir a transferência, o processo sofreu um atraso significativo. A família acredita agora que essa espera de cinco dias foi fatal, diz a Globo.

Segundo a irmã de Molina e advogada da família, Sâmela Furtado, o sistema de gestão hospitalar por IA atribuiu à doente uma “pontuação” muito inferior à que o seu estado clínico justificava.

Esta classificação automática, feita pelo Centro Estadual de Operações de Regulação de Minas Gerais (Core-MG) com recurso a ferramentas de inteligência artificial, terá desempenhado um papel decisivo no atraso da transferência para uma cama de UCI.

“O que percebemos foi que os médicos perderam autonomia para decidir se um doente está muito gravemente doente”, disse Furtado à Globo. “Quem tem de aceitar se um doente está em estado grave já não é o médico que está ali, a viver aquela realidade com o doente, é o Core.”

Na entrevista, Furtado descreve um sistema falível e inflexível, que se recusou a ceder mesmo quando os dados dos exames mostravam que o estado da irmã se agravava.

“Ela deveria ter tido uma pontuação de 10, e o sistema só a classificou como 6,8”. Por isso, não conseguia avançar no sistema, porque um doente com 8, um doente com 6,9, passava-lhe à frente. E o sistema não aceitava aumentar o grau de gravidade dela, apesar dos exames que estavam constantemente a alimentá-lo com dados”, detalhou Furtado”.

“A minha irmã, outras pessoas, não são apenas números, não são apenas protocolos, não são apenas um cartão de cidadão lançado no sistema”, disse a irmã de Molina. “Têm famílias, tinham sonhos, tinham uma vida inteira pela frente.”

Num comunicado divulgado após o lançamento do sistema de IA, no dia 19 de maio, a subsecretária de Saúde de Minas Gerais, Poliana Cardoso Lopes, explicava que “o Core disponibiliza um mapa de camas atualizado três vezes por dia”.

“Com isso, será possível ter muito mais controlo sobre o processo e gerar melhores dados sobre o estado clínico e as necessidades de cada pessoa à espera de uma cama”, lê-se o comunicado.

Em reação à morte de Molina, a Secretaria de Estado da Saúde disse à Globo que as transferências são determinadas com base na disponibilidade de camas compatíveis com as necessidades clínicas do doente, e que “o Core-MG não alterou de forma substancial o protocolo de transferência de doentes para outras unidades”.

(ZAP)