Como o Norte transformou o kitsch numa “cena estética”

By | 21/06/2026

Entre feiras populares, salões de jogos, concertinas e cultura de bairro, Marco Brandão percorre o universo de David Bruno, João Não & Lil Noon, Chico da Tina, PORTOBOYZMAFIA e Smorra Records para perceber como o kitsch se transformou numa das linguagens culturais mais interessantes da música feita a Norte.

Às 7h30 da manhã, algures no verão de 2007, lá estava eu num autocarro de excursão com os meus pais, provavelmente a caminho do Gerês, rodeado de cotas e com uma certeza absoluta: durante os próximos três dias haveria, no mínimo, três bailaricos e duas tentativas de vender aspiradores milagrosos. Pelo meio, tocava a banda sonora inevitável: Diapasão, Bandalusa, Nel Monteiro, Clemente — artistas que, na altura, pareciam apenas parte de um universo meio constrangedor de excursões, festas populares e tardes de limpeza.

Eu, naturalmente, estava muito mais interessado em ouvir “Bartender” do T-Pain do que o “Garçon” do Marante. Resistia como podia, com os fones enfiados até ao cérebro, o volume no máximo e a ilusão de que aquilo seria suficiente para abafar quarenta cotas a cantar exatamente a mesma música que eu estava a tentar ignorar. Impossível vencer. Os mais velhos ganhavam sempre. Durante anos, aquilo foi só isso — música dos pais, das excursões e bailaricos.

Mais tarde, a universidade, as semanas académicas e o distanciamento que acontece quando crescemos fizeram o resto. De repente, dou por mim a recordar refrões inteiros, a cantar sem ironia e a perceber que afinal havia ali qualquer coisa de familiar. Um certo orgulho no foleiro, no kitsch, na falta de vergonha.

A música era apenas uma parte. Toda uma estética paralela começava a ganhar outro significado. Talvez por nostalgia, talvez por revivalismo. Ou porque há coisas que, de tão foleiras, acabam por dar a volta e regressar como memória, identidade ou até estilo.

Os fatos de treino da Acliclas, as sapatilhas da Fute a imitar Total 90 da Nike e todas as versões “da feira” que evitava em miúdo começavam agora a bater de outra forma. Eram outros tempos: antes das réplicas perfeitas, vivíamos a era das imitações baratas. Ninguém olhava para uma sweat da Acliclas e acreditava genuinamente que aquilo era Adidas. E, claro, isso tornava-se facilmente motivo de gozo entre putos. Durante muito tempo aprendemos a olhar para determinadas referências como foleiras — quase como se gostar delas significasse falhar num certo ideal de sofisticação cultural.

Hoje em dia curtia usar umas Adidas Superstar com um casaco da Acliclas. Não pela ironia, nem porque uma coisa é “falsa” e a outra “verdadeira”, mas porque ambas passaram a representar um passado cultural e social muito específico. E há qualquer coisa de paradoxal nisso — um certo “I don’t care” que também acaba por ser performativo. Não no sentido de performar um ideal, mas de tentar usar o espaço da performance para evocar o que é genuíno, abdicando do que antes era um critério qualitativo.

Olhando à minha volta, e para a minha playlist, vejo que não estou sozinho. Nos últimos anos assistimos ao aparecimento de uma nova vaga de artistas que começou a recuperar referências pessoais e locais frequentemente vistas como foleiras. Vêm do Porto, Gaia, Gondomar e Viana do Castelo e baralham os conceitos de alta e baixa cultura, do que é genuíno e performático, do local e universal.

Não falo necessariamente das sonoridades associadas ao pimba, mas de tudo aquilo que tradicionalmente foi tratado como foleiro: o exagero, o dramatismo, o nonsense, o romantismo, a falta de vergonha e aquela capacidade bem portuguesa de dizer o absurdo com total seriedade.

É neste território que identifico nomes como Conjunto Corona, David Bruno, João Não & Lil Noon, Chico da Tina, Joint One & Yung Juse, Isak, Zigarro, Armando Teles & Basílio Teles — artistas que, cada um à sua maneira, transformam códigos locais e culturais tradicionalmente vistos como foleiros em algo relatable, contemporâneo e assumido.

O kitsch como arquivo cultural

Vi Conjunto Corona uma única vez, em 2017, no Vodafone Mexefest. Não sabia qual seria o alinhamento do concerto e muito menos as letras das músicas. Mas num meio artístico onde, por norma, “ser levado a sério” parece importante, havia qualquer coisa de libertador naquele desprendimento em palco, protagonizado por Logos, David Bruno e o Homem do Robe.

Não era “alta cultura”, mas era um convite para olhar para as expressões populares com outros olhos. Narrando as idiossincrasias da vida sem menosprezar as especificidades culturais da zona onde nascia, a personagem Corona servia de marioneta para os seus criadores canalizarem tudo o que viam de mais genuíno. Um elemento unificador de um universo. Como uma daquelas personagens clássicas do sítio onde crescemos, que carregam consigo um sem fim de histórias.

“Corona está na casa atrasa o tempo mais um buca, Vem sem peúga para que vejas bem a fuça do chunga, Corona vem ao cheiro da chamuça, não muda.”

“Corona”, Conjunto Corona

Com Conjunto Corona ficou provado que o kitsch podia funcionar como arquivo cultural. Não apenas pela piada ou pela nostalgia, mas pela naturalidade com que articulava referências suburbanas, personagens improváveis e pequenas imagens do quotidiano geralmente desvalorizadas.

David Bruno, uma das partes de Conjunto Corona, explicou numa entrevista à agência Lusa que esta intenção estava quase sempre lá: “A minha música até pode ter uma camada não literal, mas há uma camada sempre muito literal, sobre sítios, lugares e hábitos portugueses que à partida não seriam muito interessantes ou serviriam para construir uma coisa muito artística”. E a própria mudança de nome — de Corona para Conjunto Corona — ilustra esta vontade. “Conjunto Corona tem tudo a ver com este universo foleiro, das danceterias. De início até tínhamos imaginado o vídeo numa danceteria. (…) E quem é que toca nas danceterias? Os conjuntos, as bandas… tem tudo a ver com este universo foleiro e kitsch” — explicava David Bruno em entrevista ao Rimas & Batidas.

Corona era a personificação do espírito que 4400OG mais tarde testemunhará. A partir dos registos da sua cidade, este “indivíduo de Gaia que faz pela vida” acrescentava-lhe mais audácia, mais descaramento e um novo conjunto de personagens, situações e referências abrindo o leque de possibilidades.

David Bruno é Mafamude, Gaia — e um certo Portugal. Obcecado por caloteiros, chulos e personagens caricatas, o seu trabalho é um compêndio de detalhes do quotidiano português. De tal forma que a sua composição parece começar menos na música e mais no contexto, ou na situação particular, que o artista pretende representar. Há sempre um lugar, um ambiente ou um detalhe concreto a organizar a narrativa. O cenário sugere o som e o som abre espaço para novas imagens.

Quando é questionado sobre se o seu trabalho é sátira ou elogio, a resposta é direta: “Eu relato o que anda aqui e são tudo factos. Esta cultura, estas coisas, isto existe, não fui eu que inventei. Se as pessoas acham que é para rir, estão à vontade. Se acham que não é a sério também estão à vontade.” Sátira, homenagem ou simples reconhecimento cultural? Pouco importa. Talvez a força deste imaginário esteja precisamente no facto de conviver tranquilamente com esta ambiguidade: nunca percebemos totalmente onde acaba a piada e começa o retrato cultural. Em vez de tentar resolver a dicotomia entre o que é sério e humorístico da forma mais expectável, o trabalho de David Bruno habita esse espaço liminar aberto à interpretação individual e longe dos preconceitos que nos obrigam a decidir.

A danceteria do revivalismo

“Na danceteria eu ’tou lone, não é discoteca nem club, sempre à procura do teu love, na danceteria eu ’tou gone”

“danceteria love”, João Não & Lil Noon

Chegar a Setúbal de ferry depois de um dia em Tróia e ir diretamente para a Feira de Sant’Iago, passear entre as luzes dos carrósseis a ouvir o concerto do Toy como pano de fundo, enquanto trocava mensagens com a crush da altura. Quando oiço João Não & Lil Noon, é para aqui que sou transportado de imediato. Um imaginário de verão dos anos 2000 composto por feiras populares, danceterias, neons e Windows XP e MSN.

Este “Cúmplice do Cupido” apresenta-se como um observador das emoções quotidianas. E sem procurar transmitir uma mensagem explícita, processa sentimentos universais e cria espaços de identificação, escape e partilha emocional. Quando afirma que “o romantismo nunca cai em desuso e está sempre a renovar-se”, João Não acaba também por resumir uma parte importante deste movimento: a ideia de que certas abordagens, como o romantismo, sobrevivem precisamente porque continuam a encontrar novas formas de serem reutilizadas.

Ao contrário do feeling mais antropológico de David Bruno, João Não & Lil Noon trabalham uma espécie de sentimentalismo pop português. Como se toda aquela estética dos early 2000 pudesse finalmente ser reutilizada sem vergonha.

Há qualquer coisa na música deles que transforma estas referências num romantismo kitsch muito próprio, onde o humor nunca elimina totalmente a sinceridade, nem a sinceridade elimina o humor.

Foi precisamente essa mistura que aproximou João Não de artistas como David Bruno, como contou em entrevista à Playback: “Eu tinha 15 anos, queria pertencer à cena de hip-hop e achei logo muita piada porque notava que, apesar do humor, havia ali muito talento. Acompanhei vários concertos deles (Conjunto Corona) – até já perdi a conta – e é muito bonito poder parar e pensar no facto de me ter aproximado deles ao ponto de estabelecer amizade e poder participar nos seus projetos.”

Talvez por isso João Não e Mike El Nite tenham criado o projeto Bar Dançante. “Porque dançar não é trair” — como dizem os dois românticos Miguel (Mike El Nite) e João Não — este projeto recupera precisamente o espírito das danceterias, bailes e festas populares portuguesas, a que o Conjunto Corona aludia. Um espaço por onde já passaram nomes como Marante ou Zé Cabra e onde o romantismo popular  volta a ser celebrado sem vergonha.

Mas o revivalismo português não se esgota no romantismo. Se João Não recupera as danceterias e o cancioneiro sentimental, Chico da Tina parece interessado em explorar ainda mais o arquivo cultural português.

Se no EP de homenagem a Tony de Matos, Chico da Tina se assume como um romântico nato, ao longo de toda a sua carreira tem-se mostrado incapaz de permanecer demasiado tempo na mesma frequência. O que começou como um gajo de skate e um acordeão à tira-colo transformou-se numa sequência constante de mutações: de trapstar do Minho a rei do luso-piseiro. E o resultado é uma figura meio folclórica, meio rapper, onde múltiplos elementos da identidade portuguesa vão sempre ecoando.

Mais do que recuperar referências específicas, Chico da Tina parece interessado em colocá-las todas a conviver no mesmo universo — em criar um arquivo cultural português onde folclore e trap, guitarras flamencas, acordeões e sintetizadores, o humor, pimba e cultura de internet coexistem sem hierarquias.

“Compraram-me o merch e disseram-me que nunca tinham visto um tão fixe. Ya bro é meio kitsch. Gostaste? Fui eu que fiz”

“RONALDO”, Chico da Tina

Meio meme, meio manifesto cultural, o nome do seu canal, “Renascença Portuguesa”, resume bem esta vontade de reaproveitar símbolos, linguagens e referências portuguesas. Chico da Tina é trap, rumba, forró e pimba. Tudo ao mesmo tempo. Cada nova personagem parece funcionar como mais um heterónimo, sem nunca deixar de ser Chico da Tina — uma figura onde o humor, o exagero e a cultura popular portuguesa convergem naturalmente.

Ao ouvir os seus trabalhos mais recentes, que nos confrontam muitas vezes com os nossos próprios preconceitos sobre o que gostamos ou devemos gostar, revela-se uma das consequências mais interessantes deste revivalismo: o colapso das hierarquias culturais. Nos artistas que vou mencionando não há grande preocupação em separar ironia e tradição, meme e património, “bom gosto” e cultura popular. Não há um reenquadramento, há uma mistura que talvez surja como resposta a uma certa homogeneização cultural.

Um “musical de gunas” de fato hazmat da feira

Em puto sempre me fascinou observar jovens empreendedores de chapéu da Lacoste, Air Max brand new, txibito na orelha, bolsa à cintura e uma fixação por túneis com pouca luminosidade. Enquanto os mais velhos estavam no baile, eles preferiam ficar à porta, encostados a um muro ou no salão de jogos ao lado. Os mitras mais velhos pareciam viver numa realidade paralela. Eram os mais prováveis a dançar o esquema e os mais prováveis a surgir no centro de qualquer confusão minutos depois.

Anos mais tarde, encontro muito dessa energia em PORTOBOYZMAFIA. Joint One tem a confiança e a postura de quem sabe que, mesmo com os olhos do mundo sobre ele, não pode vacilar. Yung Juse parece flutuar numa nuvem de fumo no seu “Bangalow”. Um anti-herói de olhos meio cerrados e atitude blasé. Juntos, dão vida a um “musical de gunas” sem máscaras nem alter egos. Um universo que parece safoda, mas é estrategicamente polido; e que embora possa não parecer imediatamente, é uma espécie de lado B do universo português: onde a vivência do bairro, a técnica e o exagero se transformam naquilo a que eles próprios chamam uma  “Cena Estética”.

“Eu não me posso esquecer que vim da miséria, Isso é um musical de gunas, Filipe La Féria, Firma adora diamantes, eu amo high fashion, Novo guito no meu bolso, ya, I be stackin’”

MISÉRIA (FILIPE LA FÉRIA), Joint One

A par de Tiago Mob, fazem parte do coletivo Cara Podre — editora em que este encontro entre o bairro e o zeitgeist tuga se cruzam; onde a humildade e a arrogância coexistem sem grande esforço; onde a personagem e a pessoa real raramente parecem muito distantes.

Enquanto os Cara Podre celebram o espírito bairrista e o orgulho em gastar o dinheiro ganho em Lisboa no mítico Parque Nascente, a internet era ocupada por um universo semelhante, mas mais caótico: o da Smorra Records, que trazem a energia que ao longo dos anos preenchiam os tais túneis dos bairros ou as portas das discotecas.

Um dos momentos altos das saídas noturnas universitárias era a roda de freestyle. Ouviam-se as coisas mais absurdas possíveis, mas também barras que ficaram eternizadas nas cabeças dos mais sóbrios. Rimar continuava a ser importante, mas havia outra métrica em jogo: até onde consegues ir no nonsense sem perder a barra.

Smorra Records — coletivo do qual fazem parte Isak, Zigarro, Armando Teles, Basílio Teles e Vítor Hugo — pega exatamente nessa energia. O feeling do imprevisível, da inside joke, da rima que é completamente absurda até, de repente, encaixar perfeitamente.

Como se uma conversa de McDrive se transformasse em simultâneo numa roda de freestyle e num shitpost de internet dentro da mesma faixa. Tudo parece demasiado absurdo para encaixar numa ideia tradicional de “bom gosto” — e talvez funcione precisamente por isso. “A cultura brega faz parte de nós, da nossa forma de ser e da nossa forma de fazer música. De uma forma não intencional, acaba por fazer parte da nossa identidade estética”, explicaram Isak, Zigarro e Armando Teles em entrevista à Tranquilow.

Quando os oiço, é difícil não voltar a esse ambiente: uma roda onde tudo pode acontecer e onde, no meio do caos, há sempre alguém a encontrar uma forma inesperada de fazer aquilo resultar.

“Eu confesso, chorei quando o Savate saiu da quinta. Fumei crack, fiquei high, peguei na glock, meti na cinta.”

“Mia Fernandes”, Isak, Zigarro & Armando Teles

Esta lógica não é propriamente nova. O rap tuga sempre teve espaço para personagens absurdas, exagero e storytelling caótico. Mas a novidade está nas referências que são evocadas, na sua contemporaneidade e numa certa transversalidade conquistada ao evocar referências de vários nichos: desde o podcast sensação da Gen Z ao reality show que poucos assumem consumir.

Ao pensar no legado desse storytelling caótico, sou transportado para uma das músicas da minha adolescência: “Dia de Um Dread de 16 Anos”, de Allen Halloween. Essa música batia de outra forma não porque relatasse o meu quotidiano, mas porque, de certa forma e talvez sem que me apercebesse na altura, tinha exatamente esta energia: referências absurdas, exagero e uma sensação constante de caos iminente. Na altura, pouco me importava se era real storytelling ou invenção, por muito que agora racionalize o meu gosto e compreenda melhor o seu significado para lá do aparente caos.

A desordem organizada daquela música capturava o miúdo de 13 anos da mesma forma que a Smorra prende este miúdo de 33. Por utilizar essa excentricidade sem limites, sem pedir licença ou esperar que a música preencha os requisitos que a vão fazer “tocar na rádio”.

O colapso do “bom gosto”

Os millennials bem que tentaram afastar-se da estética das casas onde cresceram — os móveis, as vitrines cheias de loiça, os relógios ganhos em rifas, os mármores falsos, os bibelôs, os naperons. A ideia de “bom gosto” aproximou-se então de uma estética clean, minimalista: paredes brancas, monsteras, mobília do IKEA, tons neutros, less is more.

Existe, no entanto, uma ironia curiosa que estes exemplos tornam clara. Muito daquilo que durante anos foi tratado como excesso, foleirice ou mau gosto regressou como memória afetiva. As pastelarias com néons, as tascas, os portões trabalhados ou as travessas decorativas voltam a aparecer como símbolos reconhecíveis de uma certa experiência portuguesa.

Talvez porque, num tempo em que grande parte da cultura se tornou homogénea, estas referências continuam a transmitir presença, familiaridade e identidade. Mas também porque existe nelas uma liberdade que muitos projetos mais “polidos” perderam pelo caminho ao tentar “fazer a coisa certa”. O exagero, o nonsense, a frontalidade, a piada interna e o caos funcionam aqui como linguagem própria — não apenas como paródia.

Se o minimalismo procura apagar ruído e o excesso, higienizando a cultura, esta linguagem faz precisamente o contrário: acumula símbolos, mistura referências, géneros musicais, memes, cultura de bairro e internet sem grande preocupação em separar o que é “elevado” do que é considerado lixo cultural; o que é bom do que é mau; o que é correto do que é marginal.

Talvez seja precisamente essa a diferença. Num momento em que muitos parecem aproveitar referências populares por estratégia de mercado, sem qualquer tipo de relação profunda com elas e com bytes que caem bem na rádio, o que torna estes projetos a Norte particularmente interessantes é fazerem precisamente o oposto. Raramente parecem olhar para estas referências como elementos exóticos ou mero recurso de estilo. Conhecem-nas profundamente, usam-nas como parte da sua linguagem própria e não como forma de aderir a uma moda externa.

O sucesso comercial de alguns destes artistas também não invalida este argumento. Chico da Tina é hoje uma figura claramente mainstream. Mas as sucessivas mudanças de sonoridade e cognome não parecem resultar de uma tentativa de revitalizar uma carreira. Pelo contrário, ele sai sempre no hype, dando uma sensação de seguir a mesma lógica que sempre definiu este “arqueólogo”: uma curiosidade constante por diferentes linguagens populares portuguesas e a vontade de as experimentar sem grandes complexos.

Essa exploração da portugalidade “está na moda, e às vezes de maneira errada”. Mas, como observa David Bruno, há projetos que “não se ri com, mas quase se ri de, aproveita-se de”. Não habitam verdadeiramente estas referências; apenas as utilizam com uma finalidade. Pelo contrário, quando David Bruno convoca o restaurante Carpa e o Adriano Malheiro caloteiro, João Não surge com o Coração de Viana ou quando Chico da Tina traz a concertina e o cantar à desgarrada para o centro, isso não surge como um elemento decorativo e passageiro. São uma espécie de extensão natural das suas identidades.

Sátira ou elogio? Depende da perspetiva. Bom ou mau gosto? Depende da expectativa.

Cresci em Setúbal nos anos 2000, não em Gaia, Gondomar ou Viana do Castelo. Muitas das referências específicas destes artistas não me pertencem. Os mitras eram outros, os sotaques eram outros, as tascas eram outras. No entanto, sinto que quanto mais hiperlocalizadas e despidas de preconceitos são as referências, maior é a sua capacidade de despertar reconhecimento e de nos levar a relacionar com as nossas próprias experiências.

Não é um fenómeno exclusivo à região Norte. Mas talvez seja a zona onde esta linguagem aparece de forma mais genuína. A proximidade com os temas, os lugares e as referências que convocam permite-lhes habitá-las em vez de apenas as utilizar. Neste sentido seria injusto ignorar o papel de Mike El Nite aka Miguel neste universo, um artista que, a partir de Lisboa, ajudou a demonstrar que a cultura popular portuguesa podia ser simultaneamente objeto de afeto, humor e experimentação.

Para uma geração que cresceu na internet, das descobertas de LimeWire e eMule até à homogeneidade das playlists de Spotify e à iminência da música criada por inteligência artificial, há qualquer coisa de refrescante em ouvir artistas que não têm medo receio em usar tanto as referências do seu quotidiano como do seu feed.

Talvez porque o kitsch funciona precisamente assim: quanto mais específico é o retrato, mais facilmente encontramos nele qualquer coisa de familiar.

Porque, às vezes, quanto mais foleiro, mais honesto.

Autor:
  • Escreve sobre cultura pop, música e fenómenos culturais. Andou entre festas de drum and bass e rap, câmaras fotográficas e videoclipes, quase sempre próximo da cultura hip-hop. Trabalha há mais de dez anos em marketing e comunicação e mantém uma curiosidade permanente pelas pessoas, tendências e subculturas. 93 til’ infinity