Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, Estados Unidos, México e Canadá recebem o Mundial de Futebol. Serão 48 seleções, 104 jogos disputados com o mundo a assistir. Mas o Mundial é muito mais do que futebol: também é política, poder, exclusão e violência.
Quando a bola se prepara para rolar nos relvados dos Estados Unidos, México e Canadá, importa perceber como foi criado o contexto para o Mundial 2026. Numa organização marcada por um Presidente que se sente todo-poderoso, uma estrutura que se faz subserviente para animar o seu lucro, e arrebatando com outros estados de duvidosa promoção dos direitos humanos o campo onde o futebol acontece, a história começa lá atrás.
No dia em que os Estados Unidos perderam a organização do Mundial 2022 para o Qatar, alguém na América sentiu ser necessário intervir. Estávamos em dezembro de 2010 e a incapacidade da maior economia do mundo fazer valer a sua candidatura denotava que algo estava mal no reino da FIFA. O desconforto deu lugar a uma investigação do Ministério Público Federal dos EUA, em conjunto com o FBI, que começou a dar resultados logo após o primeiro ano, mas foi-se prolongando no tempo. Até 2015 foram indiciados 41 nomes, entre dirigentes da Federação Internacional de Futebol, dirigentes de Federações Nacionais e responsáveis de empresas ligadas à compra e venda de direitos televisivos. Entre estas foram identificadas transferências de dinheiro que revelavam esquemas de compra de votos para a organização de competições. No meio da investigação, transações entre a FIFA e representantes da UEFA fizeram o caso ganhar novos contornos, levando a que os principais líderes de cada uma das organizações — o suíço Joseph Blatter, presidente do organismo mundial, e Michel Platini, presidente do organismo europeu — fossem suspensos pelo Comité de Ética. Estava assim aberta a porta para a ascensão de Gianni Infantino ao lugar de maior poder institucional do futebol internacional e criado o quadro Mundial 2026 fez o seu crescimento.
Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, Estados Unidos, México e Canadá recebem o Mundial de Futebol. Serão 48 seleções, 104 jogos disputados com o mundo a olhar. Mas nem todos os anfitriões pretendem ser vistos da mesma forma. Os três países co-organizadores têm pesos diferentes (desde logo no número de estádios que emprestam à competição), atitudes diferentes e terão objetivos diferentes. Se, num país pequeno como Portugal, uma competição desta génese tem um impacto significativo na economia, numa economia da dimensão dos Estados Unidos da América, e depois e já terem recebido o Mundial de Clubes no ano passado, duas das últimas quatro edições da Copa América (organizada por uma Confederação que não inclui os EUA), bem como açambarcado todas as edições da Gold Cup da CONCACAF, os interesses moram, por certo, noutro lado.
Transformar não é revolucionar
Voltemos ao início e à investigação do advogado norte-americano Michael J. Garcia que acabou por estar no centro do terramoto que abalou o mundo do futebol. Em 2012, Garcia foi contratado no âmbito de uma decisão da FIFA para melhorar o comportamento ético dos seus constituintes. O seu relatório ficou pronto em 2014 e fez cair muita gente, mas não sem que antes fosse alvo de críticas e de uma tentativa de censura, demorando três anos até que acabasse por ser revelado, só depois do jornal alemão Bild ter ameaçado antecipar a publicação através de uma fuga de informação. As consequências não demoraram a fazer-se sentir. A queda de dirigentes da CONCACAF, a denúncia do predomínio da Traffic Sports na gestão dos direitos televisivos e a constatação de graves problemas na votação dos Mundiais de 2014, na África do Sul, 2018 na Rússia e 2022 no Qatar, obrigaram a FIFA a uma reformulação na maneira como as votações são realizadas. Mas a essência do organismo não sofreu qualquer transformação, como provara na altura a realização do Mundial na Rússia, em que Gianni Infantino se demonstrou ao serviço de Vladimir Putin quando o país já tinha invadido a Crimeia e era colocada em causa por parte da comunidade internacional, bem como o Mundial no Qatar, onde a exploração de trabalhadores migrantes, as mortes em locais de obra dos estádios e as polémicas sobre os direitos humanos levantados por algumas seleções passaram ao lado de um presidente da FIFA deliciado com os milhões do Médio Oriente que asseguravam cada vez maior lucro ao seu organismo.
Percebia-se assim que a queda de Joseph Blatter e Michel Platini não potenciava uma revolução na organização do futebol mundial, mas antes um desvio que viria a intensificar a sua perseguição de objetivos que parecem laterais à sua missão. O que interessava, no pós-investigação, era reabrir portas para o futuro, não entrar em conflito com outros poderes, mas acreditar que o bolo poderia crescer e ser partilhado. A busca do lucro tomou conta da FIFA, um campo onde Gianni Infantino se encaixa na perfeição, como demonstra nas suas relações com a Rússia, o Qatar, os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita. E trouxe mudanças no futebol, onde não se vê limites na criação de novas competições e no aumento do número de países participantes, entendidas como novas oportunidades de negócio. O Mundial de 2026 será o maior de sempre, e surge pouco depois de ter estreado um novo formato com o Mundial de Clubes em 2025, um momento onde foi possível ter um vislumbre das dinâmicas que compõem o novo normal do organismo. Nessa competição, a ambição desmedida na cobrança de valores de transmissão dos jogos chocou com o mercado, mas acabou salva por intervenção saudita. O exato preço cobrado pela FIFA à DAZN pela venda dos direitos foi o preço pago pelo Fundo de Investimento Público saudita para garantir uma cota de 5% da empresa transmissora de eventos desportivos e salvou a face dos gestores.
O desejo da Arábia Saudita realizar um Mundial foi demonstrado com pressa e vontade. A sua diplomacia interveio de forma decisiva na calendarização. A FIFA tudo fez para conseguir incluir o país numa lista de países organizadores, primeiro com o Mundial Feminino, o que chocou com as queixas de algumas das principais jogadoras mundiais, não vendo sentido na realização da competição num país onde os direitos das mulheres são restritos. E depois com o Mundial Masculino. Mas para conseguir realizar um Mundial em 2034, depois da Confederação Asiática já ter organizado uma prova em 2022, foi preciso gastar as fichas de diversos continentes o mais depressa possível. O Mundial 2030 é o resultado dessa engenharia. A candidatura afro-europeia composta por Marrocos, Espanha e Portugal viu juntar-se-lhe a Argentina, o Uruguai e Paraguai para a realização de jogos que festejam o centenário da competição. Desta forma, voltando a Ásia a ter o direito à organização em 2034, a Arábia Saudita foi o único país a responder ao curto prazo dado para a apresentação de candidaturas.
Lavagem completa
O sportswashing tornou-se quase indissociável das decisões da FIFA. O organismo tem-se mostrado permeável — tanto com o atual Presidente, como com o anterior — aos desejos de países que procuram nos grandes eventos desportivos uma forma de reformular a sua reputação, lavando os problemas sociais e políticos e a falta de compromisso com direitos humanos e ambientais. Rússia, Qatar, China e Arábia Saudita — casa de vários grandes patrocinadores da FIFA e anfitriã do Mundial 2034 — encaixam-se neste conceito com perfeição. Os Mundiais russo e qatari cumpriram o que as suas administrações desenhavam: em 2018, com manifestações e protestos limitados ao mínimo, o que ficou foi a capacidade organizativa e o fausto das celebrações. No Qatar, as obras dos estádios e a obrigação imposta aos jornalistas de instalarem uma app que rastreava os seus percursos no território não deixaram que ninguém fechasse os olhos. Mas, uma vez mais, mesmo com a mão na consciência, fez-se o elogio da organização, das festas no centro das cidades e da conveniência de um Mundial em que as distâncias entre estádios não ultrapassavam um trajeto dentro de uma grande capital europeia.
A realização do Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá poderá beneficiar desta dinâmica, ainda que o tempo passado entre a candidatura, a sua aprovação e a implementação tenha alterado a realidade da mesma. Com o lema “United 2026”, a promessa feita pela união de intenções destes três países procurava dar uma imagem externa dos Estados Unidos diferente daquela que começava a marcar a presidência Donald J. Trump no seu primeiro mandato. Mas se a candidatura foi realizada apesar de Trump, é hoje o próprio presidente quem mais terá a beneficiar deste evento. A amizade criada com Gianni Infantino fá-lo ter, no palco de uma modalidade planetária, um autêntico fã de carteirinha, como aliás já ficou à vista de todos. No ano passado, aquando da entrega do troféu de campeão mundial ao Chelsea, Trump manteve-se entre os jogadores em festa, beneficiando da receção de uma medalha de vencedor e apresentando-se como um presidente integrado entre os melhores do futebol (como o fez, mais vezes, na Casa Branca, recebendo a equipa da Juventus ou o português Cristiano Ronaldo). Mas foi ao receber o Prémio da Paz da FIFA, troféu criado propositadamente para o satisfazer no dia do sorteio dos jogos do Mundial, que Donald J. Trump viu alcançado um dos seus sonhos: ser reconhecido como uma influência positiva do planeta.
Apesar da organização tripartida, o desígnio de sportswashing releva-se também pela maneira como os Estados Unidos tomaram a dianteira da organização e quase apagaram a voz e as vontades dos dois países parceiros. Quase se diria que a Administração Trump olha para este Mundial como uma oportunidade para, mais do que uma limpeza da sua imagem, impor a sua agenda e confirmar o seu enorme poderio, no campo de uma modalidade onde se mantém longe do sucesso, mas que lhe serve para ser reconhecido como grande líder. Esta demonstração de força acima das regras do próprio desporto passou, por exemplo, pela colocação em dúvida, pelo próprio presidente, da presença do Irão. Pelas exigências feitas para entrega de vistos a adeptos, sendo que catorze países participantes no Mundial estão inseridos numa lista de nações que têm as entradas bloqueadas no país, quase anula a possibilidade de muitas equipas terem apoiantes dos seus países de origem. E pela forma como Trump obrigou à realização do sorteio em Washington, DC, quando a FIFA tinha no seu plano a realização do evento em Las Vegas. Cedência que demonstrou como Trump, ao invés de agradar, quer mandar. Em lugar de lavar, percebe-se a vontade de sujar para seu bel-prazer, enquanto o mundo assiste calado.
Onde estão as pessoas
A imposição das políticas de Trump têm efeitos concretos na organização da competição. Com uma organização central fragilizada pelas diferentes organizações locais, a FIFA viu-se obrigada a negociar caso a caso a sua vontade de manter benefícios fiscais e investimento público. Algumas cidades tentaram cobrar à FIFA a sua presença, ao contrário do que esta estava habituada, com Chicago a recusar assumir contratos leoninos que deixavam os custos ao Mayor e levavam os lucros para a FIFA, enquanto Montreal, no Canadá, recusou a perda de autonomia na gestão dos eventos da cidade, como pretendia a organização do futebol mundial. Mas também a organização da competição tem efeitos na política de Trump. Este último ponto esteve muito presente na forma como Donald J. Trump tentou usar a segurança das cidades e o seu tratamento às manifestações anti-ICE como uma demonstração da capacidade para organizar jogos. Muitas populações recusaram veementemente a presença do ICE nas suas ruas, levando inclusive à ameaça de greve dos trabalhadores do estádio em Los Angeles para os dias onde ali se realizarão partidas. Mas os conflitos criados não terão abrandado o desejo da administração americana de utilizar o Mundial para exercer a sua força independentemente da popularidade das suas ideias.
Uma polémica que tem percorrido todos os meses de aproximação ao início do evento é a da bilhética. Com uma tabela de preços dinâmica, uma versão utilizada nas grandes competições dos Estados Unidos e agora testadas no Mundial de futebol pela primeira vez, estabelece-se o preço pelo interesse demonstrado por quem compra. A questão é que o preço de base já é bastante alto, a pré-venda foi realizada em condições enganosas para os clientes, que viram os seus bilhetes de Categoria 1 ultrapassados por novas categorias Premium e VIP, e continuamos com inúmeros jogos longe de esgotar, sendo que demoram sinais da FIFA para intervir na questão. Uma das razões recentemente apontadas poderá estar na venda de lotes para revenda a um conjunto de empresas que não podem ver, agora, os seus ativos desvalorizados tendo em conta o desencontro entre a expectativa e a realidade. O mercado só funciona numa direção. E o único exemplo em sentido inverso vem de Nova Iorque, que terá os jogos mais próximos jogados em New Jersey, onde o Mayor, Zohran Mahmdani, decidiu avançar para a compra de bilhetes que agora vende a 50 dólares aos habitantes da sua cidade. Mas esta realidade não se estendeu para outras regiões do país. E o mesmo género de problemas espalham-se pelo mundo.
Um Mundial longe da televisão
Este mês, as pessoas enfrentam um Mundial que se vai afastando cada vez mais dos seus adeptos. O custo dos direitos de televisão e rádio atingem valores proibitivos, criando crescentes dificuldades para ter acesso aos jogos. No caso português, em 2026, a demora para os canais de televisão linear conseguirem garantir o acesso a um punhado de jogos, o mesmo tendo acontecido com a maioria dos canais de rádio, demonstrou como o custo de ir a jogo pelos direitos se aproxima da impossibilidade. O acordo oficializado a menos de uma semana do início do Mundial sofre por comparação com a última edição. Do Qatar, em 64 jogos, 36 jogos tiveram transmissão em sinal aberto. Este ano, em 104 jogos, apenas 20 beneficiarão dessa transmissão. Uma vez mais, para ter acesso a todos os jogos, só recorrendo aos canais fechado, com a novidade da transmissão em YouTube a valer um pequeno acrescento gratuito para parte da população. Grandes mercados, como a China ou a Índia, continuam a escassos dias do início da competição, a tentar encontrar um acordo que permita a transmissão legal dos encontros nos respetivos territórios. Percebe-se que o aumento do número de jogos não acontece para beneficiar a mais adeptos o acesso ao jogo, mas de forma a capitalizar uma competição que demonstra que a galinha de ovos de ouro tem os seus limites constantemente desafiados. Resta perceber até que ponto.
Há um futebol que se transforma com o mundo. Umas vezes campo de experiências, políticas e sociais, que visam testar o efeito de medidas nas massas. Outra vezes um território de aceleração de tendências, onde os poderosos atuam de forma mais crua, escudados na emoção de um jogo que as pessoas sentem como seu. No entanto, nada há de exceção no fenómeno — o que revela que o que acontece no jogo e à sua volta é a realidade humana de cada um, detida que está por forças poderosas que nem sequer precisam de atuar no escuro. O Mundial das Américas é um campo de demonstração de poder, de exclusão, de violência. Olhar a bola rolar poderá nem sequer servir de distração. Nos planos das bancadas e das tribunas estará bem explícita a realidade com que nos deparamos. Uma beleza que não engana.
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Luís Cristóvão nasceu em Torres Vedras em 1979. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalha como comentador desportivo na televisão (SIC Notícias e Eleven Sports) e na rádio (Antena 1). Foi publicado no Expresso, no jornal O Jogo, na Goalpoint.pt, no Lateral Esquerdo, no zerozero, no In Bed With Maradona, no Planeta do Futebol, e em vários outros jornais e sites. Foi co-autor, com o Tiago Estêvão, do podcast Linha Lateral, que se encontra disponível no iTunes ou Spotify.
(Shifter)

