Os críticos sustentam que o jornal nova-iorquino está a dar palco a este “delírio cruel e humilhante da oligarquia anti-arte”. Mas como é que se faz sequer o perfil de um modelo de IA?
O The New York Times está a ser duramente criticado por leitores depois de a sua revista ter publicado um perfil da “actriz” de inteligência artificial Tilly Norwood. “Faço perfis de celebridades para viver. Nada me preparou para Tilly Norwood”, lê-se no título do artigo, assinado por Taffy Brodesser-Akner.
O subtítulo reforça esta lógica de antropomorfização: “A actriz de IA fala sobre o seu ofício, o futuro do cinema e como definitivamente não tenciona matar-nos”.
Tilly Norwood, para quem não esteja familiarizado com o caso, é uma criação da antiga actriz Eline Van der Velden, fundadora de uma empresa de IA chamada Particle 6 Productions.
A criação foi apresentada no ano passado e recebeu uma reacção quase unanimemente negativa do público e, sobretudo, de actores reais. O popular actor Ralph Ineson foi particularmente sucinto na resposta: “Vão-se foder”.
Nesta altura, diz o Futurism, a pergunta impõe-se: como é que se faz sequer o perfil de um modelo de IA?
É uma questão com que Taffy Brodesser-Akner se debate ao longo de um texto de quase oito mil palavras, digerindo o absurdo do exercício ao mesmo tempo que desmonta algumas das implicações mais deprimentes desta tecnologia para a indústria. Por outras palavras, o texto está longe de ser uma ode à IA, e Brodesser-Akner ridiculariza, com humor, as promessas da indústria tecnológica.
Mas muitos leitores ficaram indignados com o jornal nova-iorquino por ter dado, desde logo, um palco tão grande ao projecto de IA, ainda por cima enquadrando-o como se fosse um verdadeiro perfil de celebridade.
“Taffy Brodesser-Akner é uma excelente argumentista de televisão… e marchou connosco durante a greve dos argumentistas. O facto de ter escrito este artigo de opinião é profundamente decepcionante”, lamentou um utilizador do Reddit. “Sim, é farsesco, sim, ridiculariza toda a ideia, mas isso não apaga o facto de estar a dar palco a este delírio cruel e humilhante da oligarquia antiarte”.
“Taffy é uma romancista extraordinária, com um olhar muito lúcido, estou surpreendido por ter aceitado isto. Sim, o texto tem um tom satírico e irónico, mas é decepcionante que tenha perdido tanto tempo com uma manobra publicitária tão óbvia”, escreveu outro.
A caixa de comentários do NYT não foi menos severa. “Uma actriz de IA? Não existe tal coisa, tal como não existe um jornalista de IA, um canalizador de IA ou um cavalo de IA”, lê-se num comentário representativo, com mais de 1500 gostos. “As palavras têm significados e distinções, e o jornalismo deve estar atento à sua importância. Sobretudo no início da era da IA.”
Particle 6

“Tilly Norwood”, uma personagem gerada por computador descrita como “a primeira atriz de IA do mundo”, tornou-se um ponto central no debate sobre a utilização desta tecnologia nos media
Em abono de Brodesser-Akner, a jornalista parece chegar à mesma conclusão no seu texto, ao confrontar-se com o artifício sem alma de Tilly Norwood. Embora leitores com menos paciência possam perguntar-se se eram mesmo necessárias milhares de palavras e um tratamento de destaque na revista do NYT para lá chegar.
“Tilly é apenas um computador”, escreve, repetindo um mantra que diz a si própria ao longo do perfil.
“Quanto mais esta história avançava, mais cansada eu me sentia. Ao princípio pensei que fosse jet lag. Mas, com o passar do tempo, percebi que era outra coisa. Era a sensação de estar o dia inteiro ao computador”, escreveu. “Era o tema. Era tentar escavar até às profundezas de alguma coisa e não encontrar nada.”
Isto leva-a a uma reflexão mais profunda sobre a sua carreira e sobre a natureza da arte. A razão pela qual faz perfis de artistas, escreve Brodesser-Akner, é “compreender a pessoa que fez a arte, algo tão essencial como a própria arte”.
“Há toda uma conversa sobre separar a arte do artista, mas talvez essa conversa persista porque sabemos que não conseguimos fazê-lo. A arte é a pessoa”, conclui.
Portanto,Tilly Norwood não pode ser arte? Não, mas pode ser lixo algorítmico, alerta Brodesser-Akner. “Não se podia pôr Tilly em Citizen Kane. Mas podia pôr-se numa série de streaming feita para ser vista a meias, por cima da borda do portátil, enquanto se fazem outras coisas, produzida por executivos do entretenimento mais preocupados com rotação de conteúdos do que com arte.”
Ora aqui está uma ideia horrível.
(ZAP)
