Miguel S. Albergaria dá continuidade aos seus artigos sobre a Ética na IA e escreve sobre o seu processo, ou sobre conceber a inteligência que estes artefactos implementam.
Para refletirmos eticamente sobre o que é feito, antes temos de reconhecer isso que se faz. Nestes reconhecimentos, distinguimos a natureza da obra ou o âmbito em que é feita, e o processo pelo qual é feita.
Relativamente a algoritmos “inteligentes”, na crónica anterior delimitei o âmbito da sua obra no subconjunto não criativo da racionalidade inferencial, que por sua vez constitui um subconjunto do pensamento geral. Cabe agora explicitar a forma do seu processo, ou seja, conceber a inteligência que estes artefactos implementam.
Comecemos pelos desiderata que deverão ser satisfeitos por qualquer conceção de inteligência que possa integrar um modo artificial. Talvez possamos concordar no requisito de que, pelo menos:
- A inteligência seja neutra em relação às estruturas que a implementem, sejam estas biológicas, inorgânicas, ou até nem físicas.
- A inteligência em geral, assim, será constituída por certas funções.
- As quais, pelo menos no caso específico da inteligência própria a algoritmos, poderemos determinar em ordem à resolução de problemas – para que a conceção desta inteligência corresponda tanto à IA moderna (Turing, 1950), que aprende a realizar inferências não-dedutivas (apenas probabilísticas) a partir de grandes conjuntos de informações, quanto à IA clássica, que realiza inferências dedutivas mediante manipulação de símbolos.
Em conformidade, chamaremos “inteligência” a qualquer coisa que desempenhe as funções de:
- Determinação dos objetivos inferenciais (pelo menos os específicos) a cumprir nas circunstâncias dadas.
- Assim como, consequentemente, de seleção e de utilização eficiente dos meios oportunos.
Por outro lado, a condição de aprendizagem implicará:
- Uma adaptação aos contextos concretos. Os quais, sendo múltiplos, obrigarão a
- uma persecução eficiente de objetivos, eventualmente distintos, em contextos frequentemente bastante diferentes.
Assumimos, assim, uma conceção funcionalista da inteligência. Esta conceção será ainda grosseira, uma vez que, como Ned Block (1978) alertou, a abordagem funcionalista aos processos mentais em geral peca por excesso, ao admitir a ocorrência de tais processos em estruturas que nos parecem irreconciliáveis com qualquer conceção de mente. E peca por defeito, ao recusá-los a entidades que se afiguram, de algum modo, tê-la. Mas, para o nosso propósito aqui, já se revela útil.
Desde logo, para precisarmos o que a IA faz em geral (face ao que, no começo desta série, admiti que fazem quaisquer artefactos técnicos): mediante a utilização de algoritmos com essa inteligência, o mundo surge-nos como um mero horizonte de dados e recursos, que podem ser selecionados e combinados de modo a se obter os mencionados resultados inferenciais. E nós somos constituídos como fonte de dados; eventualmente como reguladores, mas já não agentes, dos processos de tratamento dessa informação; e como seres condicionados pelos produtos de tais algoritmos, entre os estatutos de utilizador ou de beneficiário… e o de complemento, porventura dispensável, desse novo processo automático.
Eticamente, questionar-nos-emos então sobre as condições em que será bom utilizarmos uma tecnologia que assim nos constitui e ao mundo que habitamos.
Além disso, o facto de ela aí estar fazendo o que lhe é próprio remete, por um lado, para o modo como a IA se faz. Começando pela extração dos dados que lhe servem de matéria-prima. Mas também a extração das matérias-primas para as condições da sua possibilidade técnica, como minerais para chips, hidrocarbonetos para a produção de energia elétrica, água potável para refrigeração das infraestruturas de Big Data… até a extração – se assim se constituírem as relações laborais – de trabalho humano necessário à classificação desses dados.
Às questões de ética ambiental e sociopolíticas que aí se colocam acrescentam-se as que se referem, em seguida, ao modo como estes algoritmos funcionam – p.e. a falta de transparência do deep learning. Bem como aos processos do design, produção e disponibilização deles.
Por outro lado, o facto da IA remete para o que esta faz concretamente, ou o que se faz com ela. Produtos como a classificação de pessoas, a geração de conteúdos, o microdirecionamento das mensagens… Cujo alcance ético é fácil de reconhecer. Especialmente se controlados por uma oligarquia.
Todo o triângulo entre o que a IA faz, como ela se faz, e o que se faz com ela, é atravessado por esta dimensão ética.
Por Miguel S. Albergaria – Professor do ensino secundário, São Jorge (Açores).
(Teksapo)
