Com a ascensão da IA aplicada ao desenvolvimento e com ferramentas como Claude Code, Codex, assim como de outros assistentes, a principal vantagem do low-code está a perder força, defende Luís Quinta.
Ao longo dos últimos anos, o low-code e o no-code ganharam espaço nas empresas com uma promessa simples: desenvolver mais depressa, com menos dependência de equipas técnicas e com maior autonomia para as áreas de negócio.
E durante muito tempo, essa promessa fez sentido.
Ferramentas como Power Automate, Power Apps, Copilot Studio, Zapier ou Bubble tornaram mais simples a criação de automatismos, aplicações internas e fluxos de trabalho. Para muitas empresas, essa rapidez foi suficiente para justificar a escolha.
Mas esse equilíbrio já não é o mesmo.
Com a ascensão da IA aplicada ao desenvolvimento e com ferramentas como Claude Code, Codex e outros assistentes cada vez mais capazes, a principal vantagem do low-code está a perder força: a rapidez.
Não porque estas plataformas tenham deixado de ser úteis. Mas porque desenvolver em código ficou muito mais rápido, mais acessível e, em muitos casos, mais eficiente.
Até há pouco tempo, a lógica era clara, low-code para velocidade, desenvolvimento à medida para flexibilidade. Hoje, essa divisão não é tão óbvia. Com o apoio da IA, e ferramentas como Claude Code ou Codex, é possível criar APIs, interfaces, integrações, lógica de negócio, documentação e testes numa fração do tempo que antes seria necessário.
E isso muda a forma como esta decisão deve ser feita. A questão não é apenas “como evitamos escrever código?”. E passa a ser: “porque aceitar as limitações de uma plataforma, se conseguimos construir algo mais ajustado quase à mesma velocidade?”
Vale a pena desmontar uma ideia comum: o low-code nunca eliminou complexidade. Limitou-se a escondê-la melhor. A lógica continuou a existir, as integrações continuaram a falhar, os casos de exceção continuaram a precisar de tratamento e os desafios de escalabilidade, segurança e manutenção nunca desapareceram.
Enquanto os casos de uso são simples, isso não representa um problema. Mas quando a solução cresce, os limites aparecem rapidamente. Dependência de conectores, restrições da plataforma, dificuldades de customização, debugging menos transparente e dívida técnica continuam a fazer parte da equação.
E é precisamente aqui que a IA está a mudar o custo real de desenvolver software.
Tradicionalmente, o principal argumento contra desenvolvimento à medida era previsível: demora mais, custa mais e exige competências difíceis de encontrar. Hoje, esse argumento perdeu força. A IA ajuda a acelerar arquitetura, geração de código, integração, documentação, refactoring e troubleshooting. Em muitos casos, o verdadeiro atalho não é o low-code, é o código com IA.
Isto não significa que o low-code deixou de fazer sentido. Continua a ser útil em automatismos simples, processos internos estáveis ou cenários em que a rapidez inicial pesa mais do que a flexibilidade futura.
Mas agora não deve ser a resposta automática.
As empresas já não querem apenas ligar sistemas ou automatizar aprovações. Querem construir agentes, copilots, soluções RAG e aplicações com lógica de negócio cada vez mais específica. Esses cenários exigem flexibilidade, controlo e capacidade de evolução, e isso aproxima-se mais do desenvolvimento à medida do que do drag-and-drop.
Na minha opinião, esta é a verdadeira mudança: o low-code não desaparece, mas perde centralidade. A IA está a reduzir drasticamente o esforço de escrever, testar, documentar e evoluir software, e isso obriga as organizações a repensar uma ideia que, até aqui, parecia quase óbvia.
O futuro não será uma escolha simples entre low-code e código. Será uma escolha entre soluções que apenas parecem rápidas e soluções que estão realmente preparadas para evoluir.
Por Luís Quinta – AI & Analytics Unit Manager na Gstep
(Teksapo)
