Recentemente alguém se deu ao trabalho de compilar as múltiplas “profecias digitais” de Elon Musk – a generalização dos robótaxis, o Tesla Roadster Voador, Inteligência Artificial Geral (IAG), etc. –, tudo supostamente seria atingido antes de 2025, e a conclusão foi que: “Elon Musk não cumpriu nenhum dos objetivos para 2025” (1).
Está surpreendido? Eu não. E também não interessa. O preocupante é achar-se que são as profecias Muskianas que criam evolução tecnológica.
A tecnologia continuará certamente a evoluir, a maravilhar-nos e a colocar novos desafios às nossas sociedades, com ou sem Elon Musk. Não é à custa de adivinhos ou messias digitais que tanto fascínio suscitam na turba digital que a tecnologia evolui.
As tecnologias evoluem fruto do estudo e trabalho de milhares de investigadores em universidades, centros de investigação e empresas, espalhados pelo mundo, que criam, promovem e partilham conhecimento. Infelizmente, nem sempre com o devido reconhecimento e/ou proveito.
Acreditar que a tecnologia evolui apenas porque uns privilegiados narcisistas têm dinheiro para a comprar, é desprezar todo o ambiente de ensino, científico e empresarial que possibilita a produção e partilha desse conhecimento.
Infelizmente, desprezar o conhecimento é uma das principais tendências da sociedade do século XXI. Ter seguidores e likes é muito mais valorizado na sociedade digital que qualquer nível de sabedoria acumulada.
Passamos a acreditar seriamente que o conhecimento humano já não é preciso!
Na era da imediação digital já não se escuta ou pensa sobre aquilo que se lê. Cita-se a primeira frase, mensagem ou imagem que encaixa no que se acha que é, sem a interpretar ou questionar. O conhecimento moderno caminha para o domínio do “achismo”. A opinião subjetiva, porque eu acho, é tão válida como o conhecimento resultante do estudo ou sabedoria acumulada de anos de experiência.
A opinião passou de um direito à liberdade de pensamento a uma forma de opressão de quem pensa.
Nenhum conhecimento se pode sobrepor a uma opinião, porque todos são livres de ter a opinião que quiserem. E qualquer opinião é tão válida como qualquer conhecimento, porque somos todos iguais.
Por isso, nesta acelerada sociedade digital, não se cria. Produzem-se conteúdos. E, para isso, não é preciso conhecimento, basta ter uma opinião e dominar a arte dos prompts nas roletas da inteligência artificial.
Não me refiro apenas aos influenciadores das redes sociais.
Nos dias que correm, nenhum comentador dos média tradicionais precisa de conhecer os factos, estudar o assunto ou ter qualquer compreensão do mesmo. Basta citar um facto (verdadeiro ou falso, não interessa), ter uma opinião (certa ou errada, é irrelevante), e saber articular um discurso que não seja desconexo para quem não percebe do assunto (quem percebe, as mais das vezes, assusta-se ou muda de canal). E, na verdade, produziu conteúdo, gerou audiência, cumpriu a sua função…
Por isso, infelizmente, não é apenas porque os algoritmos alucinam e os perfis afunilam a nossa visão do mundo que a desinformação em massa invadiu o nosso quotidiano digital.
A desinformação prolifera, reencaminhada acriticamente por todos nós, porque o conhecimento é uma aptidão intelectual fora de moda. Dá trabalho, importa tempo e silêncio. Tudo aquilo que o compulsivo scroll dos ecrãs não permite.
Não é só a inteligência artificial que está mais capaz de nos enganar, nós também estamos menos capazes de não nos deixar enganar.
