Assusta a dor ou só mesmo assustador? A 2wai não se fica pelos que já partiram e também lhe traz o seu “gémeo digital”. “É tudo sobre controlar a nossa própria identidade IA”, diz o fundador.
“Okay, mãe, só preciso de um vídeo rápido. São só três minutos”. Palavras de uma filha que, à sua maneira, se prepara para o que aí vem. Grávida, segura no smartphone, coloca a mãe no enquadramento desenhado pela 2wai e… ‘puf’: “três minutos duram para sempre”, diz a empresa de inteligência artificial.
Explicando melhor: quando a pessoa a ser gravada morre, a 2wai prepara o seu avatar digital IA, programado para surgir no ecrã sempre que requisitada para falar com aqueles que fazem (ou fariam) o luto. Ou, pelo menos, é isso que a nova campanha da empresa promete.
No anúncio do produto, intitulado Preserve Your Legacy (“Preserva o Teu Legado”), a avó, falecida, “reaparece” no ecrã sob a forma de uma personagem de IA em tudo idêntica à sua versão de carne e osso. E, quase como se nada tivesse acontecido, fala com a filha, com o filho, com o neto. Até lê histórias à neta que está por nascer.
O anúncio promove os HoloAvatars, descritos pela empresa como recriações de pessoas reais suportadas por um grande modelo de linguagem. Apesar de o produto se focar no luto e na ideia da imortalidade, a 2wai apresenta-o como versátil: a mesma tecnologia pode ser usada para simular personagens fictícias, figuras históricas, celebridades e até “gémeos digitais”, isto é, avatares que, segundo a empresa, “parecem e falam” como o consumidor e partilham as mesmas memórias.
“Uma só versão de si é suficiente?”, provoca a empresa, no seu site.
A empresa foi fundada por Mason Geyser e pelo actor Calum Worthy, antiga estrela infantil da Disney. Geyser admite ao The Independent que a campanha foi desenhada para causar fricção e gerar debate público, mas também defende o produto que vê, explica, menos como “imortalidade” e mais como uma forma de transmitir boas recordações, como as que o próprio guarda dos avós.
A controvérsia levanta questões sobre ética, consentimento, exploração comercial do luto e risco de substituir memórias humanas por réplicas digitais. De facto, a campanha levantou uma onda de críticas negativas. Algumas ameaçadoras, como um utilizador que escreve “Vamos tornar ilegal o que vocês estão a fazer”, outras cómicas, como uma pessoa que comenta: “Perdi a parte em que a ‘avó’ deixa de funcionar e diz para atualizarem para a versão premium para continuar a conversa”.
No futuro, com um gémeo digital, “será possível fazer dinheiro passivamente, de se ligar globalmente sem uma barreira de tempo ou linguagem. Isto democratiza a habilidade de ter a nossa ‘biografia’ contada da nossa perspetiva a futuras gerações”, defende o filho, Calum, em entrevista à BBC News.
Sobre os avatares “ressuscitados”, a ideia é que estes, em vida, se assim quiserem, façam o avatar e passem os direitos deste a quem entenderem. “É tudo sobre controlar a nossa própria identidade IA”, explica Worthy à CNN.
(Tomás Guimarães, ZAP )
