Os algoritmos de IA são cada vez mais usados nos processos de recrutamento mas Márcia Patrício avisa para os riscos de usar a Inteligência Artificial na avaliação de talento.
A Inteligência Artificial trouxe para a avaliação de talento a capacidade de analisar grandes volumes de informação, reconhecer padrões e apoiar decisões com rapidez e consistência. O seu valor é evidente. O problema começa quando a eficiência se transforma em certeza e aquilo que a tecnologia consegue medir passa a definir o que se considera talento.
Uma pessoa nunca é apenas a soma dos dados que deixa para trás. O talento inclui conhecimento e experiência, mas também capacidade de evolução, leitura do contexto, julgamento, criatividade, adaptabilidade, empatia e pensamento crítico. Revela-se na forma como alguém reage perante a ambiguidade, aprende com uma situação nova, influencia os outros ou encontra uma resposta quando os dados deixam de ser suficientes. São dimensões decisivas, mas nem sempre fáceis de traduzir em variáveis.
É aqui que os limites da tecnologia se tornam mais evidentes. Um algoritmo pode identificar regularidades no comportamento passado e estimar probabilidades de sucesso com base em perfis semelhantes. Terá mais dificuldade em compreender o que mobiliza uma pessoa, a intenção por detrás das suas escolhas, a sua maturidade ou o potencial que ainda não teve oportunidade de demonstrar. Pode reconhecer uma competência, sem compreender o contexto em que surgiu ou se será transferível para outra realidade.
A questão torna-se crítica quando os modelos aprendem com dados históricos. Se esses dados refletem decisões anteriores, perfis dominantes ou desigualdades existentes, a tecnologia pode reproduzir os mesmos padrões com uma aparência de objetividade. O enviesamento pode estar nos dados, nas variáveis ou nos critérios de sucesso. Pode favorecer percursos convencionais, penalizar trajetórias menos lineares e afastar perfis capazes de trazer diversidade de pensamento.
O risco não está apenas no algoritmo. Está também na confiança que lhe atribuímos. Um resultado numérico ou uma recomendação automatizada transmitem uma sensação de rigor. Mas uma estimativa probabilística não é uma verdade sobre uma pessoa. E um processo consistente pode produzir decisões frágeis se os critérios em que assenta não forem questionados.
Isto não significa afastar a Inteligência Artificial da avaliação de talento, mas utilizá-la com clareza sobre o que pode concluir e sobre o que não pode. A tecnologia pode organizar informação, sinalizar padrões, tornar mais explícitos os critérios que sustentam a decisão e reduzir alguma variabilidade entre avaliadores, mas exige acompanhamento e capacidade para rever conclusões. O julgamento humano continua a ser indispensável, não porque seja infalível, visto que as pessoas projetam expectativas e confirmam crenças, mas porque são capazes de interpretar contexto, questionar incoerências, integrar informação contraditória e reconhecer que duas histórias semelhantes podem esconder potenciais muito diferentes.
A resposta não está em escolher entre tecnologia e pessoas, mas em desenhar processos em que ambas se complementem. A Inteligência Artificial pode ampliar a capacidade de análise, mas não deve substituir o discernimento necessário às decisões sobre pessoas. Quando o talento não cabe no algoritmo, importa garantir que aquilo que fica fora do modelo não fica também fora da decisão. O verdadeiro desafio não é limitar o talento ao que o algoritmo consegue reconhecer. É garantir que continuamos a reconhecer aquilo que o algoritmo não vê.
Por Márcia Patrício – Talent Assessment & Advisory Practice Manager na Neves de Almeida
(Teksapo)
