Mazda CX-6e: É um SUV elétrico chinês mascarado?

By | 11/10/2026

A Mazda sempre foi aquela marca que nós, entusiastas de automóveis, olhamos com um carinho muito especial. Isto porque, enquanto a indústria inteira corria desenfreada para motores minúsculos de três cilindros e turbos até ao limite, os japoneses de Hiroshima batiam com o pé no chão. Ou seja, continuavam a apostar em blocos atmosféricos de grande cilindrada, caixas manuais com um tato especial e aquela obsessão quase doentia pela ligação homem-máquina, o famoso Jinba Ittai.

Pois bem, os tempos mudaram. E a culpa é da eletrificação! O novo Mazda CX-6e é a prova de que até os mais teimosos têm de se render à realidade do mercado global.

Mas, há aqui um senão muito importante e que precisa de ser clarificado.

Mazda CX-6e: É um SUV elétrico chinês mascarado?

Portanto, se fores pesquisar este carro na Internet, é muito provável que encontres muito boa gente a dizer que é um carro 100% chinês mascarado de Mazda. Isto porque este automóvel nasceu de uma parceria com a Changan, ao aproveitar a plataforma EPA1 que dá vida ao Deepal S07. Ou seja, muitos vão dizer que na mesma fábrican vão sair Changans por uma porta e Mazdas por outra.

Mas, segundo a Mazda, as coisas não funcionam bem assim. A fábrica é das duas marcas, e apesar da partilha de componentes, o CX-6e conta com alma Mazda até à ponta dos seus parafusos.

Será que é mesmo assim? Há de facto muitos detalhes Mazda, mas também é fácil perceber que há muita inspiração a vir da Changan. Porquê? Simples! Foi preciso criar um elétrico mais barato para tentar apanhar o comboio, e claro, para tentar bater a concorrência onde ela mais domina.

Pois bem, já tivemos a oportunidade de conduzir este carro em Portugal.

Não fiquem já escandalizados: A Mazda sempre fez isto!

Antes de começarem a atirar pedras nos comentários a dizer que a Mazda “vendeu a alma”, convém olhar para os livros de história.

A marca japonesa sempre partilhou plataformas e modelos quando as contas apertavam. Isto desde carrinhas de trabalho BT-50 feita com base na Isuzu D-Max, até ao clássico Mazda 121 dos anos 80 e 90 que era irmão gémeo do Ford Festiva.

A diferença é que, desta vez, os objetivos são um pouquinho diferentes, porque o mercado evoluiu muito para o lado elétrico da coisa.

Assim, depois do fiasco do pequeno MX-30, que tinha um design engraçado mas uma bateria ridícula que mal dava para ir de Lisboa a Santarém sem suar. A Mazda percebeu que desenvolver uma plataforma elétrica do zero no Japão ia custar muito dinheiroe ia demorar uma eternidade.

A solução foi pragmática! Ir buscar a tecnologia de baterias e motores onde ela é mais barata e abundante, e meter os engenheiros japoneses a afinar aquilo que realmente sabem fazer… Chassis, suspensão e qualidade de interiores.

O que há de bom: Um preço agressivo e a “mão” japonesa no pedal

A grande vantagem de ser feito na China salta logo à vista na fatura. Este automóvel consegue posicionar-se abaixo de nomes pesados como o Tesla Model Y, o BYD Sealion 7 ou o Zeekr 7X, oferecendo um trunfo que nenhuma marca chinesa nova consegue igualar: uma rede de concessionários histórica, reputação de marca e confiança no pós-venda.

O que a engenharia da Mazda conseguiu salvar?

  • Um pedal de travão como deve ser: A esmagadora maioria dos elétricos chineses tem um tato de travão esponjoso, artificial e que parece desligado das rodas. Aqui, a Mazda reconstruiu o sistema por completo para oferecer algo mais suave e seguro.
  • Suspensão afinada: Molas e amortecedores foram recalibrados. O carro não é tão seco nem tão barco nas curvas como alguns rivais chineses.
  • Bateria LFP: Conta com uma bateria de 78 kWh (química LFP, durável e que gosta de cargas a 100%), tração traseira com 218 cv (190 kW) e consumos reais que permitem bater facilmente entre 470 e 500 km em ciclo misto sem grandes sacrifícios.
  • Carregamento rápidos: Picos de 194 kW em corrente contínua (DC) garantem dos 10% aos 80% em cerca de 24 minutos, acompanhados por tecnologia V2L para alimentar tralha elétrica no exterior.

O pesadelo dos ecrãs gigantes chegou à Mazda!

Mas nem tudo são rosas. Se há coisa em que a Mazda sempre deu cartas foi na ergonomia… Oun seja, o botão rotativo central na consola permitia mexer em tudo no rádio ou na navegação sem tirar os olhos da estrada. Pois bem, esqueçam isso. No CX-6e caíram na pior moda da atualidade. Meteram um ecrã monstruoso e retiraram tudo o que é botão físico.

Assim, temos à frente do tablier um ecrã gigante de 26,5 polegadas que controla rigorosamente tudo. Queres ajustar o ar condicionado? Ecrã. Regular a sensibilidade dos limpa pára-brisas? Submenus no ecrã. Ligar luzes ou mudar modos de condução? Boa sorte a navegar por atalhos enquanto tentas não bater no carro da frente.

Pior ainda. A secção do lado esquerdo do ecrã tem menus orientados de forma estranha para o condutor, e o carro vem carregado com mariquices que ninguém pediu, como uma câmara interna para tirar selfies com filtros infantis e um altifalante exterior para mandar mensagens aos peões. As coisinhas que toda a gente acha engraçadas nos chineses, mas que aqui não fazem grande sentido.

Para cúmulo, os avisos de segurança obrigatórios por lei comunitária (como o assistente de velocidade e a leitura de faixas) apitam e protestam por tudo e por nada, obrigando a uma caça aos botões virtuais no ecrã sempre que ligas o carro se não quiseres viajar com uma orquestra de bipes a tocar nos ouvidos.

Veredito: É um verdadeiro Mazda?

Como produto elétrico puro e duro, o Mazda CX-6e é uma máquina muito competente. Tem uma presença visual fantástica, gasta pouco, carrega depressa, tem uma bagageira traseira ampla apoiada por uma mala à frente (frunk) de 83 litros para os cabos, e vem com a garantia e a segurança de uma marca com raízes profundas no mercado.

Mas enquanto automóvel emocional, sente-se que a marca teve de fazer concessões para baixar o preço e acelerar o desenvolvimento. A mecânica tem o toque japonês, mas o ecossistema digital e a dependência absurda do ecrã vêm diretamente da cultura automóvel chinesa moderna, onde o espetáculo de luzes parece importar mais do que a condução pura.

(Leak)