Matilde descobriu o livro Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov, numa estante que guardava a coleção de clássicos da literatura, em casa. O livro acompanhou-a em diferentes momentos da vida e, até agora, está a fazer as pazes com o facto de não conseguir pôr esta referência de parte. Talvez seja a mão de Dolores a puxá-la.
Lolita é, de certa forma, uma das poucas constantes na minha vida. Encontro-a um pouco por toda a parte. Recentemente, comecei até um jogo comigo própria, tentando adivinhar onde surgirá a seguir. Uma história narrada por Humbert Humbert, um pedófilo, que abusa sexualmente da enteada de 12 anos, Dolores Haze, a quem ele chama Lolita, é uma coisa feia de se encontrar por todo o lado.
Quando o Departamento de Justiça americano lançou os Epstein Files, um dos seus documentos mostrava uma jovem deitada numa cama junto de Lolita, com uma passagem escrita a caneta preta no seu corpo: “She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Polly at school.” O jato privado usado por Epstein no tráfico de menores, onde viajaram não um, mas dois presidentes americanos, foi batizado de Lolita Express. John F. Kennedy guardava um exemplar do livro no apartamento onde se encontrava com Diana de Vegh, a amante com metade da sua idade. O ator Bradley Cooper foi fotografado a ler o romance à namorada 17 anos mais nova, a cantora Suki Waterhouse, num jardim parisiense. Parece que a obsessão por esta obra não é singular, mas a menina de 13 anos que a leu pela primeira vez é.
Escolhi-a entre tantas outras opções da coleção de clássicos da Visão, que o meu pai tinha numa estante, mas nunca leu. Comprou-os na esperança de que, um dia, eu mostrasse interesse neles, e assim me tornasse uma jovem intelectual, versada em Flaubert e Stendhal. Assim me encontrei precocemente em frente da Literatura do mundo — e de Lolita. Eu era um ano mais velha que a personagem, porém, na minha mente, não poderia ser mais diferente da menina com duas tranças representada na capa. Enquanto ela era descrita como uma pequena femme fatale, capaz de enfeitiçar homens feitos, eu era um patinho-feio, incapaz sequer de atrair a atenção dos meninos ranhosos da minha própria idade. Se ela adorava música pop e banda-desenhada, eu desprezava tudo o que fosse popular. A hiper-feminilidade que Humbert lhe projeta era a bota pressionada no meu pescoço. Por causa dela não podia sentar-me de pernas abertas, fazer o pino ou deitar-me na relva molhada. Talvez por isso não senti uma forte compaixão por Dolores: olhava-a com um misto de inferioridade e superioridade, que revelava a infantilidade que eu julgava já não ter. Para além disso, a prosa complicada de Nabokov, impressa em páginas com letra minúscula, aborreceu-me. Não fui capaz de ver a monstruosidade dos atos descritos por detrás dos ornamentos. Voltei à coleção da Visão, onde encontrei Kafka, e por ele desenvolvi uma paixão que dura até hoje. Durante anos, não voltei a pensar na menina abusada ou o homem por detrás desse abuso.
Lolita regressou à minha vida aos 16 anos através da Internet. Nem eu nem ela éramos as mesmas. Agora, a sua imagem mais reconhecível era a do poster da adaptação para o cinema, de Stanley Kubrick, de 1962, que mostra Dolores a olhar o espectador sugestivamente com óculos de sol vermelhos em forma de coração. As musas de plataformas como o Tumblr eram igualmente jovens e provocadoras, como Kate Moss, que começou a sua carreira aos 14 anos. A estética ao meu redor revelava-me a beleza do cor-de-rosa — isto é, da feminilidade e juventude. As características que outrora me causaram tanta vergonha eram agora um instrumento poderoso. O passar dos anos ia garantir o seu fim e a consciência dessa efemeridade servia apenas para intensificar a experiência.
A banda sonora dessa época era, indubitavelmente, o álbum Born to Die (2012), de Lana del Rey. Em “Off to the Races”, Lana canta, num sussurro sensual: “Light of his life, fire of his loins/ Keep me forever, tell me you own me/ (…) Tell me you want me, gimme them coins.” Para além da citação da frase mais conhecida da obra, o último verso refere-se ao episódio em que Humbert paga uma mesada a Dolores em troca de favores sexuais. Isto é, em troca de que o deixe violá-la. Lana inverte a hierarquia de poder entre as duas personagens: ser Lolita é ser poderosa. E que adolescente não quer ser poderosa?
Não culpo a adolescente de cabelo e eyeliner preto. A suspeita de que o meu valor dependia destas qualidades não era descabida. Afinal, parece uma experiência feminina universal perceber que recebíamos mais atenção masculina, incluindo na forma de piropos gritados de carros em andamento, quando éramos menores de idade. Aos 25 anos, essa era de laços e fumo de cigarro parece uma miragem. Ouço a discografia de Lana del Rey com um sorriso terno, mas perturbado; com nostalgia e incredibilidade.
Quando li o livro pela primeira vez em adulta, foi difícil perceber a sua romantização. Presenciei, com horror, Humbert ponderar engravidar Dolores para poder abusar da filha que daí nascesse, e voltar a repetir o processo com a filha desta última, criando assim três gerações de vítimas. Apercebi-me da vontade salivante, da parte da nossa cultura, de sexualizar o corpo e as intenções de uma menina. Esta vontade obrigou a uma cisão entre o texto e o seu significado cultural. Existe, por um lado, Lolita, o livro, que é uma história contada por um narrador não fiável, e que Nabokov espera que o leitor desmascare. Por outro lado, Lolita, o arquétipo, o termo utilizado para descrever qualquer adolescente entendida como simultaneamente inocente e madura. A mistura destes elementos contraditórios, a inocência da juventude e a sensualidade adulta, criou uma espécie de monstro de Frankenstein que ainda hoje dita a forma como meninas se apresentam e são encaradas em público. Pensemos, por exemplo, na capa da Sugar and Spice, em 1975, com Brooke Shields, na altura uma menina de 10 anos, a posar nua dentro de uma banheira, com uma maquilhagem marcada, para esta revista que pertencia à Playboy. A revista Rolling Stone de 1999 sexualiza igualmente Britney Spears, à data uma adolescente de 17 anos, mostrando-a deitada em lençóis de cama fúcsia, a segurar um peluche debaixo do braço direito. A camisa de pijama está completamente aberta, revelando a sua roupa interior, composta por um sutiã preto e cuecas às bolinhas.
Desde então releio a obra de Nabokov anualmente. Forço-me a ser testemunha desta barbaridade ficcional e, desta forma, impedir que seja corrompida. Todos os anos descubro no seu interior mais detalhes que sustentam a tese óbvia de que Dolores não desejou, nem participou, no seu abuso. Reafirmo que a vejo como ela verdadeiramente é, e não como Humbert a moldou. Sinto-me vindicada.
No ano passado, o cinema Nimas organizou uma retrospectiva dedicada a Stanley Kubrick, que incluiu Lolita. Sentei-me nos bancos de veludo e vi as luzes diminuírem. Sue Lyon, a atriz que representa Dolores, surgiu no grande ecrã a preto e branco. O filme tem um tom inesperado. Para minha surpresa, a cena onde Humbert tenta violar Dolores pela primeira vez é transformada num momento cómico, onde o protagonista tenta montar uma pequena cama, tentando não fazer barulho. A audiência irrompeu em risos e eu senti-me mais sozinha do que nunca. Pergunto-me quantas das pessoas à minha volta naquela sala saberão que a atriz de 14 anos alegadamente se envolveu sexualmente com James B. Harris, frequente colaborador de Kubrick com 32 anos, durante a filmagem. Assim, Lyon não se limitou a interpretar Lolita, mas tornou-se numa encarnação sua. Esta é uma obra que parece ter o poder fantástico de transcender a ficção, condenando outras ao destino de Dolores. Quantas outras meninas foram despojadas da sua humanidade e vistas como sedutoras, com o auxílio de Lolita? Certamente foi o caso de Alison Wood que, na sua autobiografia, Being Lolita, detalha como o seu professor de secundário usou o livro no processo de grooming, apresentando-lhe o livro como uma grande história de amor.
Nesse momento, pensei em finalmente abandonar Lolita: deixar de elogiar a sua complexidade e defender este livro cujo legado parece cada vez mais impossível de separar daquilo que há de mais perverso na sua receção. Em muitos sentidos, julgo que os agressores, os pedófilos, os perversos ganharam. Ainda hoje o Cambridge Dictionary define Lolita como: “a young girl who has a very sexual appearance or behaves in a very sexual way”. Assim, quando me perguntam qual é o meu livro favorito, hesito por recear revelar que é o mesmo que Jeffrey Epstein. Ainda assim, algo me diz para ficar. Talvez seja a voz de Dolores, não a sedutora, mas a menina com sardas, que merecia, como todas as crianças, segurança e felicidade. Dou-lhe a mão e imploro-lhe perdão pelo que lhe fizeram. Nesse processo, perdoo-me também.
Referências bibliográficas
Cambridge Dictionary, s.v. “Lolita,” acessado Setembro 21, 2026 [https://dictionary.cambridge.org/dictionary/english/lolita ]
Callahan, Maureen. Ask Not: The Kennedys and the Women They Destroyed. New York: Little, Brown and Company, 2024.
Duboff, Josh. “Bradley Cooper Reads Lolita in a Park with His 21-Year-Old Girlfriend”, Vanity Fair, Agosto 27, 2013 [https://www.vanityfair.com/hollywood/2013/08/bradley-cooper-reads-lolita-in-a-park-with-his-21-year-old-girlfriend?srsltid=AfmBOopEWVMMihTY31pE96xCsI0RgbVZqXiy5Da1zEf gCJb7TRbfgGeC]
Kubrick, Stanley, dir. Lolita. 1962; Los Angeles: Metro-Goldwyn-Mayer, 1998. DVD.
Lana, del Rey, “Off to the Races”, track 2 on Born to Die- The Paradise Edition, Interscope Records, 2012
Nabokov, Vladimir. Lolita. London: Penguin Books, 1995
PBS NewsHour. “Lolita, Passports, and More: Famous Figures Pictured in Latest Epstein Photo Release.” PBS NewsHour. Acessado Setembro 10, 2026. [https://www.pbs.org/newshour/politics/lolita-passports-and-more-famous-figures-pictured-in-latest-epstein-photo-release]
Wood, Alisson. Being Lolita: A Memoir. New York: Flatiron Books, 2020.
(Sgifter)
