Soberania digital nas infraestruturas críticas nacionais – do princípio de governação ao controlo da arquitetura

By | 05/10/2026

As infraestruturas críticas devem conseguir operar de forma segura em estados desligados ou parcialmente ligados, avisa Antoine D’Haussy que defende opções técnicas de arquitetura reforçam a resiliência.

A soberania digital deixou de ser apenas um conceito geopolítico para passar a assumir-se como uma exigência de governação.

As redes de energia, os sistemas de abastecimento de água, os transportes, as instalações industriais, as redes de telecomunicações e as infraestruturas financeiras sustentam o mundo moderno e dependem de sistemas digitais complexos para manter os serviços essenciais em funcionamento. Neste sentido, soberania não significa a nacionalidade do fornecedor nem o local onde a tecnologia é fabricada.

Quando a conectividade é interrompida, quando as tensões geopolíticas afetam as cadeias de fornecimento, quando regulamentações extraterritoriais entram em conflito ou quando serviços externos ficam indisponíveis, consegue a organização continuar a operar de forma segura e em conformidade com a lei? Se a resposta depender de fatores externos fora do controlo do operador, então a “soberania” pode não estar garantida.

A soberania é mais frequentemente discutida no contexto das políticas governamentais. Embora esta seja uma dimensão importante, a soberania digital nas infraestruturas críticas nacionais é, na prática, uma questão de controlo da arquitetura, tornando-se real apenas quando pode ser tecnicamente garantida desde a conceção.

A digitalização acelerada dos ambientes de tecnologia operacional esbateu as fronteiras tradicionais entre IT e OT. No entanto, muitos centros de operações de segurança continuam demasiado centrados em IT, enquanto os ambientes OT seguem uma lógica de risco diferente, em que predomina a segurança operacional, a disponibilidade e a integridade dos processos.

Muitos ambientes de infraestruturas críticas funcionam com fornecedores de rede distintos, ferramentas autónomas de acesso remoto, plataformas de identidade independentes, serviços de segurança cloud de terceiros e sistemas de monitorização isolados. Em condições normais, estas camadas fragmentadas podem coexistir. Sob pressão, porém, a complexidade transforma-se em fragilidade.

Uma arquitetura deste tipo reduz dependências ocultas ao integrar redes seguras, aplicação de políticas de identidade, inspeção, registo de eventos, orquestração e inteligência de ameaças num único sistema coordenado. Não elimina os parceiros do ecossistema, mas garante que a camada central de controlo permanece unificada e sob controlo, algo particularmente importante numa altura em que muitas organizações dependem da cloud para parte das suas cargas de trabalho.

A investigação da Fortinet mostra que 88% das empresas a nível mundial operam atualmente em ambientes híbridos ou multicloud e que 81% utilizam, em simultâneo, pelo menos dois fornecedores de serviços cloud. Embora estes serviços proporcionem escalabilidade e capacidades avançadas de análise, também introduzem dependências jurisdicionais e de disponibilidade que são frequentemente subestimadas.

As infraestruturas críticas devem conseguir operar de forma segura em estados desligados ou parcialmente ligados. Isto significa que as arquiteturas SASE soberanas devem permitir uma implementação e aplicação controladas pelo operador dentro da sua jurisdição, garantindo que a identidade, os controlos Zero Trust e as capacidades de inspeção continuam plenamente operacionais mesmo quando os serviços externos ficam indisponíveis.

Deve privilegiar-se uma arquitetura em que o on-premises é prioritário e a cloud opcional, preservando assim a soberania. Neste modelo, os pontos de aplicação, os componentes de análise e de orquestração podem ser implementados no país onde a organização opera e permanecer plenamente funcionais sem validação externa permanente.

O mesmo princípio se aplica à soberania dos dados. Os registos operacionais, a telemetria de segurança e as evidências de conformidade devem permanecer sempre acessíveis ao operador e, idealmente, dentro da sua jurisdição legal, sobretudo no contexto de quadros regulamentares como a NIS2. O controlo dos dados deve poder ser demonstrado em auditoria, e não simplesmente presumido com base em cláusulas contratuais.

A criptografia é outra dimensão que deve ser considerada na arquitetura. Se um operador gerar, armazenar e gerir as suas chaves de encriptação, mantém o controlo total. Se, pelo contrário, as chaves estiverem sob custódia externa ou dependerem de serviços estrangeiros de gestão de chaves, a soberania não pode ser plenamente garantida, porque a entidade que controla as chaves controla também o acesso aos dados e a continuidade.

Em arquiteturas soberanas, os operadores mantêm controlo total sobre a criação, o armazenamento e a gestão do ciclo de vida das chaves.

A soberania digital não exige isolamento da inovação global. Exige, sim, que a autoridade operacional possa continuar a ser exercida sem dependência externa. Num mundo complexo e regulamentado, a soberania tem de ser mensurável e, por isso, construída através da arquitetura da plataforma. Na prática, isto significa que a infraestrutura deve assentar numa arquitetura integrada de segurança OT/CPS, mantendo os mecanismos centrais de controlo sob gestão local, em vez de depender obrigatoriamente da cloud. A criptografia deve ser controlada e gerida pelo operador, os sistemas devem funcionar de forma segura em condições offline ou degradadas e os dados operacionais devem permanecer dentro dos limites jurisdicionais escolhidos pelo operador.

Estas opções técnicas de arquitetura reforçam a resiliência das infraestruturas críticas e garantem que a responsabilidade não é transferida para fora daqueles que, em última instância, responderão pela segurança, pela estabilidade e pela confiança pública.

Por Antoine D’Haussy – Regional VP OT Practice Lead International da Fortinet

(Teksapo)