Quando Portugal ganhou cor: as primeiras fotografias a cores, feitas com batatas

By | 10/09/2026

Antes dos píxeis e do papel, havia fécula de batata e vidro: assim se popularizaram as fotografias a cores.

Nos dias que correm, fazer uma fotografia a cores não exige qualquer esforço. Qualquer pessoa o pode e consegue fazer, mas o mesmo não se pode dizer das primeiras imagens permanentes a “fugir” ao preto e branco.

Os irmãos Auguste e Louis Lumière já se tinham tornado pioneiros do cinema moderno quando patentearam, em 1903, o primeiro processo de fotografia a cores considerado prático o suficiente para vingar comercialmente.

Os inventores do cinematógrafo (um aparelho que, sozinho e em simultâneo, funcionava como câmara, impressora e projetor de imagens em movimento) são considerados os responsáveis pela invenção do autocromo. O processo permitia produzir positivos em placas de vidro, com a ajuda de microscópicos grãos de fécula de batata tingidos de vermelho, verde e azul-violeta.

O chamado Autochrome Lumière foi o primeiro processo de fotografia a cores comercialmente viável do mundo. Exigia exposições muito longas e criava imagens escuras. Mas era possível observá-las, apreciando-as contra a luz. Pela primeira vez, fotógrafos amadores e profissionais conseguiram fazer imagens a cores com uma única placa, sem recorrer a vários negativos e a processos absolutamente exaustivos do ponto de vista técnico.

Antes da invenção dos Lumière já era possível obter imagens a cores. Havia quem recorresse à técnica de colorização manual, em que as fotografias a preto e branco eram pintadas à mão, ou à separação de cores, fazendo várias fotografias do mesmo motivo através de filtros de cores vermelho, verde e azul, que depois eram combinados para reconstruir a cor. Mais tarde, Gabriel Lippmann apresentou um processo direto, que registava cores através da interferência da luz.

Os irmãos Lumière levaram o autocromo à Académie des Sciences em 1904 e o autocromo foi posto à venda em 1907, visto que era suficientemente prático para tal. Agora, os filtros de cor eram os grãos de fécula de batata. Sobre eles, aplicava-se uma emulsão fotossensível de gelatina e sais de prata e, depois da exposição, fazia-se a revelação por inversão. O resultado era uma transparência positiva a cores — observável, desde que com as condições certas de luminosidade.

O autocromo foi revolucionário: resultava em cores muito mais suaves, luminosas e com o grão que é apreciado até hoje.

Em Portugal

Em Portugal, o público já tinha sido apresentado ao processo de Lippman em 1901. O Boletim Photographico, publicado em Lisboa, explicava ao pormenor o processo, da preparação das placas à sensibilização e exposição. Há múltiplas referências a vários processos de fotografia a cor, embora haja poucas provas dela. Uma das mais antigas ainda conservada remete para a Praça do Comércio, em Lisboa. É um fotocromo, ou seja, começava a preto e branco e era adicionada cor com impressões com tintas. Ou seja, “não é bem” fotografia a cores.

Em setembro de 1908, a revista lisboeta Echo Photographico explicava detalhadamente como reproduzir autocromos, e dizia, aos amadores, que, para fazer os originais, “não lhes faltam recursos em Lisboa”. Foi B. dos Santos Leitão quem escreveu estas palavras, apresentado na Hemeroteca Municipal de Lisboa como o introdutor da fotografia a cores em Portugal, pelas experiências e exposição de tricromias que fez em Lisboa em 1911. Mas há fotografias a cores, em autocromo, anteriores a Leitão em Portugal.

Foi com esta técnica, que viria a dominar a fotografia durante cerca de 30 anos, que a fotógrafa britânica e pioneira da fotografia a cores Sarah Angelina Acland fez, na ilha da Madeira, entre 1909 e 1910, “os primeiros registos a cores executados na Ilha”, segundo a obra académica Madeira Global. Graças a Sarah, que começou a experimentar processos a cores ainda em 1899 e fotografou Gibraltar a cores em 1903-1904, Portugal tem as primeiras flores a cores, os primeiros retratos coloridos e a baía do Funchal, pela primeira vez, a cores.

Russell Manners Gordon, um pioneiro da fotografia na Madeira, e alguns dos seus descendentes terão feito algumas das primeiras capturas da ilha com esta técnica, e muitas placas de autocromo suas estão hoje no Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s.

RUSSEL MANNERS GORDON/CM Madeira

Fotografia em autocromo de fotógrafo não identificado em rua não identificada. Terá sido feita por um descendente de Russel Manners Gordon, na ilha da madeira, em 1907.

O processo pioneiro viria a ser substituído, pouco a pouco, pelo Kodachrome, lançado pela Kodak em 1935, e pelo Agfacolor, introduzido pela Agfa um ano mais tarde. O Kodachrome foi um dos primeiros filmes modernos a cores bem-sucedido a nível mundial, com película flexível, enquanto o Agfacolor Neu foi pioneiro por incorporar os componentes responsáveis por formar cores na própria película (os corantes não tinham de ser introduzidos durante a revelação, como no Kodachrome, o que tornou a revelação muito mais fácil).

(Tomás Guimarães, ZAP )