Uma equipa de cientistas chineses apresentou um modelo de avião de passageiros em forma de asa voadora com mais de 800 lugares. O projeto poderá tornar-se o maior avião de passageiros alguma vez criado.
Ao contrário dos aviões convencionais, construídos com uma fuselagem tubular, asas e cauda, uma asa voadora não tem uma fuselagem diferenciada. Toda a aeronave funciona, na prática, como uma única grande superfície de sustentação.
O conceito já é usado em aviões como o bombardeiro furtivo B-2 Spirit da Força Aérea dos EUA.
A proposta do Centro de Investigação e Desenvolvimento de Aerodinâmica da China (CARDC) é muito maior: no papel, tem 85 metros de largura por 43 de comprimento e uma envergadura 1,6 vezes superior à do B-2.
Na aviação comercial, o Airbus A380 é o único que se aproxima em capacidade. É habitualmente configurado para 555 lugares, embora o seu limite técnico seja de 853.
Segundo o South China Morning Post, o novo projeto chinês prevê mais de 800.
A asa voadora, que ainda não tem nome público, surge numa altura em que a China desenvolve outros grandes programas de aviação. Entre eles estão o C929, um avião de fuselagem larga para longas distâncias com capacidade para 280 passageiros, e o supersónico C949.
Os pormenores técnicos do novo conceito foram publicados em junho na revista chinesa Journal of Aerospace Power. Para já, não se trata de um avião prestes a ser construído, mas de um modelo de referência para testar túneis de vento, métodos de cálculo e equipamentos de ensaio.
NASA

Avião em “asa voadora” X-48B da Boeing / NASA
Porquê uma asa voadora
“A configuração de asa voadora de elevado alongamento representa um desenho de aeronave com vantagens aerodinâmicas significativas”, escrevem os autores do estudo, liderado pelo cientista de aerodinâmica Li Yonghong.
“A sua elevada relação sustentação/arrasto e a baixa resistência induzida poderão permitir maior autonomia e menor consumo de energia”, acrescentam.
Ao eliminar a fuselagem convencional e transformar todo o avião numa superfície de sustentação, o desenho pode reduzir a resistência aerodinâmica e melhorar a eficiência do voo.
O projeto começou por ser pensado para um avião de 250 lugares. A capacidade foi depois aumentada para cerca de 800 passageiros, dentro da estratégia chinesa de desenvolver grandes aviões de fuselagem larga.
Nada disto existe ainda em tamanho real.
A equipa construiu um modelo à escala 1:52, em aço inoxidável, com 0,8 metros de comprimento e 1,6 metros de envergadura. O modelo já foi testado no túnel de vento transónico do CARDC, a velocidades entre Mach 0,4 e Mach 0,8.
A China não é a única
Fabricantes e centros de investigação ocidentais estudam há vários anos conceitos semelhantes, sobretudo do tipo blended wing body, ou fuselagem integrada, em que a fuselagem e as asas se fundem numa única estrutura.
Um dos projetos mais avançados é o da norte-americana JetZero. Em 2023, a Força Aérea dos EUA atribuiu-lhe um contrato de 235 milhões de dólares para construir e testar um demonstrador à escala real até 2027. O avião deverá transportar entre 200 e 250 passageiros.
Na Europa, o Flying-V, desenvolvido pela Universidade Técnica de Delft com o apoio da KLM, prevê entre 314 e 361 passageiros. Um modelo à escala voou em 2020, mas uma versão comercial não é esperada antes de 2040.
A Airbus também testou o demonstrador MAVERIC, enquanto a Boeing e a NASA fizeram voar entre 2007 e 2013 os modelos não tripulados X-48B e X-48C.
Se o projeto do CARDC vier a concretizar-se como está previsto, será de longe a maior aeronave civil de asa voadora alguma vez proposta.
Por enquanto, o projeto está apenas na fase de modelos à escala e testes em túnel de vento: não há ainda um protótipo em tamanho real, nem uma data anunciada para a sua construção.
(Armando Batista, ZAP)

