“Menos data centers, mais bibliotecas”. E mais leitores

By | 16/08/2026

Os livros tornam-se símbolo de status, as marcas capturam a dissidência, mas na internet toda a gente parece querer salvar as bibliotecas onde cada vez se requisitam menos títulos. Não é um futuro distópico, já está a acontecer.

Estávamos em fevereiro quando esta imagem começou a circular pela internet: Elle Fanning a ler uma versão minúscula de Sensibilidade e Bom Senso, clássico de Jane Austen, no metro de Nova Iorque. Um zoom ajuda-nos a perceber o que está escrito na lombada: Coach —o nome não de uma editora, mas de uma marca de moda. De Jane Austen a Maya Angelou (Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola), estes livros criados pela marca norte-americana para pendurar na mala custavam cerca de 95 dólares. O preço bem acima do valor de mercado e a sua adaptação como acessório de moda, mostram como o livro se foi tornando progressivamente um símbolo. E se no caso da coleção da Coach os livros ainda davam a possibilidade de os ler (talvez com a ajuda de uma lupa), outras marcas não foram além das capas.

Para a coleção The Book Cover Collection, a Dior evocou alguns dos maiores clássicos: Dracula (Bram Stoker), Madame Bovary (Flaubert), Bonjour Tristesse (Françoise Sagan), Les Fleurs du Mal (Baudelaire), Ulysses (James Joyce), etc. A estratégia de promoção passou por chamar o booktoker Tray Reads para passear com uma mala Dracula. Mas a adaptação das obras não passava da capa, replicada em inúmeros acessórios, distantes de qualquer página de texto.

Esta obsessão da indústria da moda com os livros não ficou (nem parece ficar) por aqui: em abril, a Miu Miu inaugurou o seu clube de leitura com uma sala cheia de influencers com livros da autora francesa Annie Ernaux na mão. O livro Memória de Rapariga foi uma das leituras de “Políticas do Desejo”, o evento de três dias em torno da literatura com direção criativa de Miuccia Prada, a fundadora da marca. E os exemplos sucedem-se, em diferentes escalas e contextos.

Um artigo publicado este mês no The Ankler, que destacámos na nossa newsletter Notas da Comunidade, dava conta dos clubes do livro se terem tornado nos mais exclusivos de LA. Um artigo publicado este mês no The Ankler, que destacámos na nossa newsletter Notas da Comunidade, dava conta dos clubes do livro se terem tornado nos mais exclusivos de LA. Numa altura em que os objetos de luxo parecem estar ao alcance de mais pessoas — por via do crédito ou das réplicas —, o livro tem-se tornado um símbolo de status. Mas com esta função simbólica, nem sempre importa se o seu conteúdo é esvaziado ou pervertido pela sua nova contextualização.

Historicamente, os clubes do livro serviram para agregar mulheres e pessoas de comunidades marginalizadas. A partir dos livros, debatiam-se formas de estar e de pensar quando a sua presença não era permitida nos salões onde os senhores discutiam o que era ou não literatura. E embora o livro, e os clubes do livro, continuem a ter esse potencial agregador e de inclusão, é importante reparar neste movimento de capitalização de um dos objetos culturais mais democráticos.

Os livros sempre viveram do passa-a-palavra. Um leitor que lê uma crítica no jornal e decide comprar um livro. Alguém que visita uma biblioteca e se deixa surpreender pelas sugestões da bibliotecária. Um grupo de amigas que decide ir buscar o mesmo livro para conversar sobre os temas que levanta, numa festa pijama. O livro viaja, mas a forma como chega até ao leitor não é indiferente. O livro carrega consigo a simbologia desse contexto. Vive das relações que se criaram em torno dele e a partir dele. Tem o poder de nos transformar a partir desta cadeia de relações. Mas quando esta dinâmica é mercantilizada, será que o livro continua a cumprir o seu papel?

Ao contrário do que seria de esperar, apesar da súbita popularidade dos livros, vários estudos feitos por todo o mundo têm indicado que se lê cada vez menos. Ainda esta semana um artigo no Atlantic alertava para o fim da leitura estar mais próximo do que achamos. Os dados do último estudo de Hábitos de Compra e Leitura de Livros em Portugal da APEL mostram que, no nosso país, existe um dado particularmente interessante: embora o número de compras de livros esteja a aumentar, os hábitos de leitura e o número de leitores têm vindo a diminuir. O estudo não permite tirar grandes ilações, mas não é difícil intuir que o livro se tornou aborrecido, num mundo com tantos estímulos — como mostra o surgimento de tendências como o skim reading.

É isso que torna a pôr o livro numa posição de status: se já ninguém lê, a ideia de ler (mais do que o hábito em si), torna-se especial. Mais do que especial: um luxo. O que, numa altura de socialização em posts de Instagram, se dissemina mais através de pequenos carrosséis, vídeos ou fotografias — como a que inicia este texto onde alguém é visto a ler — do que em textos e debates sobre as obras. Mais em grandes festivais cheios de celebridades e escritores-estrela, do que em encontros entre escritores marginais e leitores.

Still de Palombella Rossa (1989), de Nanni Moretti

No texto “The dawn of the post-literate society”, James Marriott traça uma cronologia da história da literatura e dá conta de um tempo em que “novas ideias radicais sobre Deus, sobre história, sociedade, política, e até sobre o propósito e o sentido da vida” começaram a espalhar-se pela Europa através dos livros. Marriott diz que mais importante ainda, a possibilidade de imprimir livros mudou a forma como as pessoas pensavam. Só que essa capacidade transformadora parece estar a perder peso na era pós-literacia: muito mais pessoas sabem ler, mas cada vez menos pessoas se relacionam com o que estão a ler. E ler uma obra sobre consciência de classe num clube do livro organizado por uma marca bilionária pode não querer dizer mais do que o que conseguimos ver à superfície.

No mesmo campo, a recentemente inaugurada Biblioteca Manifesto, um projeto com curadoria do clube do livro da cantora pop Dua Lipa, Service95, dentro da Livraria Lello é outro ótimo exemplo. Como pode um espaço que não permite a requisição dos livros, e que está dentro de um outro espaço que cobra 15,95€ de entrada, chamar-se de biblioteca? E a quem chegará esta “biblioteca permanente com livros que desafiam o poder, a censura, a exclusão e as narrativas dominantes”? Que tipos de exclusão e narrativas dominantes estão a ser desafiadas pela sua existência? O que é que fica realmente e pode transformar pensamentos? Bons posts nas redes sociais?

Não se trata de achar que a iniciativa não é legítima ou de interesse — já recomendámos várias vezes o Service95 no Shifter. Trata-se antes de perceber como, até para falar sobre o papel dos livros, as palavras estão a ser cada vez mais mercantilizadas: esvaziadas do seu sentido concreto e usadas pelo seu valor de mercado. O discurso é cada vez mais dominado pelo marketing (pela capacidade das palavras alienarem) e cada vez menos pela intelectualidade; pela capacidade das palavras de nos ajudarem a prestar atenção e criar sentido para o mundo.

Ainda no texto de James Marriott, o autor reúne os dados de alguns estudos que mostram que a falta de relação generalizada com a leitura já está a ter efeitos cognitivos em crianças e adultos. Os tempos de atenção estão mais curtos, o pensamento crítico enfraqueceu, o nosso vocabulário está cada vez mais reduzido. Pensar que vivemos na era pós-literacia não é muito animador para quem gere uma revista independente de reflexão e crítica, onde as palavras importam. Mas talvez seja por isso que continuamos aqui: porque nos recusamos a aceitar que o conhecimento só pode voltar a ser para alguns.

Nas redes sociais, ao longo das últimas semanas, parece ter ressurgido um apelo para salvar as casas do conhecimento. Enquanto se discute se se deve ou não construir mais data centers, vão circulando imagens com as frases “Menos data centers, mais bibliotecas”, “Que se lixem os data centers, protejam as bibliotecas” ou “Protejam os verdadeiros data centers”. O que é que estamos a fazer para as proteger? Quantas bibliotecas vêm nascer relações intencionais com as suas coleções e são mais do que salas de estudo ou de trabalho remoto? Para que queremos, afinal, as bibliotecas?

Mais ou menos na mesma altura em que começaram a circular estes apelos — e uma crítica massiva às empresas de IA por destruírem livros — um meme acompanhava a tendência. “Tu és o teu modelo de IA, bebe muita água e consome muitos livros”. É difícil não pensar como, ironicamente, o meme ilustra uma relação superficial e perversa com os livros e com a ideia de inteligência. É que os modelos de Inteligência Artificial não usam os livros para aprender, fomentar a discussão e o espírito crítico; muito menos para socializar o conhecimento. Pelo contrário: usam-nos para criar uma norma estatística, para prever o próximo token que permitirá manter-nos numa alucinação coletiva e numa espiral de isolamento. Enquanto isso, a inteligência perde cada vez mais o seu sentido social e coletivo. Torna-se um termo cada vez mais superficial e associado a métricas quantitativas, e cada vez menos associado ao diálogo e à comunidade.

Num espaço público cada vez mais privatizado, onde as marcas têm a capacidade de captar a dissidência, e onde reina a literalidade e o sensacionalismo, é urgente reclamar o valor das palavras para além da sua capacidade de gerar alcance nas redes sociais, pela sua capacidade de alimentar a profundidade. E pensar no valor dos livros, e até da escrita, não como um ponto de chegada, um objeto aspiracional, mas como uma porta para o diálogo e para a construção coletiva de um sentido do mundo.

Autor:
  • Carolina Franco tem escrito sobre cultura, juventude, género e direitos humanos. Acredita cada vez mais que está tudo ligado. É jornalista e diretora do Shifter. Estudou Ciências da Comunicação no Porto, tem uma pós-graduação em Curadoria de Arte e mestrado em Antropologia-Culturas Visuais pela NOVA FSCH, com uma tese sobre representatividade trans* no audiovisual. Entre 2022 e 2025 colaborou com o projeto de literacia mediática PÚBLICO na Escola. O seu trabalho também pode ser lido no Gerador, na Revista MIL, na FlanZine e no PÚBLICO. Co-fundou, em 2024, o projeto Perpétuas.

     

(Shifter)