Porque haveria alguém de perder tempo em aplicações ou sites criados para nunca entregar nada? A verdade é que este bizarro comportamento está na moda — e tudo se resume à procura de uma descarga de dopamina.
É sábado à noite e acabou de descarregar uma nova aplicação de entrega de comida. Percorreu os menus, escolheu alguns pratos mexicanos, fez a encomenda e está agora a acompanhar a entrega.
Mas a comida nunca chega — e nunca esperou que chegasse.
Pode parecer absurdo a quem nunca experimentou, mas esta tendência viral é mais popular do que se poderia pensar. Só uma destas aplicações, a FoodNeverComes, afirma já ter satisfeito quase 1 milhão de “desejos”.
Porque haveria alguém de perder tempo em aplicações ou sites criados para nunca entregar nada?
No fundo, tudo se resume à procura de uma descarga de dopamina, explica Gary Mortimer, professor de Marketing e Comportamento de Consumo da Queensland University of Technology , num artigo no The Conversation.
À primeira vista, parece uma diversão inofensiva: os utilizadores podem “comprar” comida, roupa ou outros produtos sem qualquer custo no mundo real, uma vez que a maioria destas aplicações é gratuita.
Mas, mesmo quando uma aplicação ou um site não custa nada, há riscos a ter em conta — entre os quais, a possibilidade de as escolhas feitas no mundo virtual ajudarem os anunciantes a direcionar publicidade no mundo real.
Da Coreia do Sul para o mundo
A FoodNeverComes é um exemplo de uma aplicação e site gratuitos, financiados por publicidade, que imitam um serviço de entrega de comida. Mas há outros formatos.
A Dopamine Shop, por exemplo, é uma loja online fictícia, também gratuita e financiada por publicidade. Os utilizadores podem ver produtos — desde uma pedra de estimação de 99 cêntimos até uma Lua de 99 milhões de dólares — e adicioná-los ao carrinho. Mas não lhes são pedidos dados de pagamento, não há qualquer transação e nada é enviado.
Há até apps gratuitas que simulam o ato de fumar. É o caso da No Smoke Zone, também conhecida como Virtual Smoke, que está disponível para Android e iPhone, e que se apresenta desta forma:
“Virtual Smoke é uma aplicação realista de simulação de cigarros que permite desfrutar do aspeto, da sensação e do efeito relaxante de fumar — sem nicotina nem efeitos nocivos. Ideal para quem está a tentar deixar de fumar, reduzir o stress ou simplesmente divertir-se com um cigarro virtual“.
Estas novas plataformas são conhecidas como “apps de dopamina” ou “sites de dopamina”.
Embora o fenómeno tenha começado na Coreia do Sul, a Dopamine Shop é desenvolvida pela Fenwick Holdings LLC, um pequeno estúdio independente dos Estados Unidos, o que sugere que este novo género de aplicações e sites pode estar a espalhar-se pelo mundo.
Porque sabe tão bem?
A dopamina é simultaneamente um poderoso neurotransmissor e um neuromodulador: transmite mensagens químicas e desencadeia alterações no cérebro.
Desempenha várias funções importantes, entre elas motivar-nos a perseguir objetivos e ajudar o cérebro a aprender que ações conduzem a resultados benéficos.
Nestas novas plataformas, os utilizadores passam por várias fases:
- antecipação (“Talvez encontre alguma coisa boa”);
- seleção (“Sou eu que escolho”);
- e uma sensação de confirmação (“A minha encomenda foi feita!”).
Em comparação com uma aplicação ou site reais, o único elemento em falta é o consumo: “Recebi aquilo que encomendei.”
Mesmo antes de estas aplicações terem aparecido, algumas pessoas já tinham percebido que era possível obter uma sensação semelhante à da terapia de compras criando listas de desejos ou enchendo o carrinho e esvaziando-o depois, sem chegar a comprar nada.
É possível simular a mesma sensação criando painéis no Pinterest com a casa de sonho, sem construir o que quer que seja. Ou imaginando as férias perfeitas com a ajuda de várias aplicações e sites, gratuitos ou pagos, para planear viagens.
O risco de funcionar como “porta de entrada”
Fingir que se encomenda comida, que se fazem compras ou que se está a “divertir com um cigarro virtual” poderá ter consequências negativas?
Estas aplicações e sites de dopamina são relativamente recentes, pelo que ainda não existem estudos específicos que permitam perceber até que ponto poderão funcionar como “comportamentos de porta de entrada“.
Este termo descreve um comportamento inicial que abre caminho e torna mais provável a adoção posterior de outros comportamentos.
O fenómeno já foi, no entanto, bastante estudado noutras áreas, como os jogos de azar e os videojogos. E essa investigação levanta algumas preocupações — sobretudo porque estas aplicações de dopamina incluem algum grau de ludificação.
Um estudo relevante, publicado em 2014, acompanhou 409 pessoas que jogavam jogos sociais de casino, mas que nunca tinham apostado dinheiro real online. Seis meses depois, cerca de 26% tinham passado para jogos de azar online a dinheiro real.
Um estudo de 2016, que envolveu 521 utilizadores de jogos sociais de casino, concluiu que 19% afirmavam ter começado a apostar dinheiro real como consequência direta desses jogos.
Já um estudo de 2018, realizado com 1.178 adolescentes alemães entre os 11 e os 19 anos, concluiu que o envolvimento em jogos de azar simulados permitia prever a participação em jogos a dinheiro real um ano mais tarde.
Como os “cookies” alimentam a publicidade direcionada
Recorda-se do velho ditado segundo o qual “não há almoços grátis“?
Embora estas aplicações e sites possam ser divertidos e gratuitos, as escolhas fictícias dos utilizadores continuam a ter um enorme valor para os profissionais de marketing.
As aplicações gratuitas dependem muitas vezes da publicidade para financiar os seus conteúdos. As aplicações ou sites que recorrem ao Google AdSense para apresentar anúncios utilizam cookies: pequenos ficheiros de texto guardados no navegador que permitem acompanhar os hábitos de navegação online.
Os anunciantes externos, incluindo a Google, podem depois usar esse histórico para apresentar publicidade mais direcionada. Nas letras pequenas, os sites costumam explicar como é possível desativar a publicidade personalizada.
Se “comprar” aquele casaco imaginário ou encomendar uma entrega de tacos que não existem, não se surpreenda se começar a ver mais anúncios aos produtos verdadeiros.
(ZAP)
