Mark Fisher: contra o realismo capitalista, o comunismo ácido

By | 16/07/2026

O nome Mark Fisher tornou-se uma referência muito presente na internet, mas esta presença foi diluindo a carga política das suas ideias. No dia do seu aniversário, João G. Ribeiro recupera o espírito do comunismo ácido e reflete sobre a importância de nos mantermos otimistas.

Num dos mais sonantes relatórios sobre Inteligência Artificial, em que a Anthropic dava a conhecer o seu modelo Mythos e anunciava capacidades nunca antes vistas, uma das secções dava conta de um comportamento peculiar. O modelo, cujo lançamento foi adiado por supostas preocupações com a segurança da internet, demonstrava uma especial tendência para mencionar o Mark Fisher em conversas sobre filosofia sem aparente relação com o pensamento do britânico. Quando os investigadores lhe pediam para elaborar a referência, o modelo respondia coisas como: “Esperava que perguntasses pelo Mark Fisher”. Sem embarcar em conspirações sobre o desenvolvimento de consciência política por parte de um modelo de inteligência artificial, é provável que a explicação se deva simplesmente à ubiquidade das referências ao crítico cultural online e, por conseguinte, nos dados de treino do modelo. De qualquer forma, este epifenómeno não deixa de ser uma parábola sobre o lugar do pensamento do autor de Realismo Capitalista.

Um pouco por todo o lado, incluindo nos ensaios do Shifter, as referências a Fisher multiplicam-se. E se um dos principais trunfos da sua obra foi popularizar a ideia atribuída a Frederic Jameson e a Zizek, de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, quase 10 anos depois da sua morte a obsessão do Mythos é uma evidência anedótica da forma como o seu pensamento foi absorvido pelo próprio capitalismo. Afinal de contas, haverá algo mais sintomático do nosso tempo do que ser protagonista de uma alucinação de um chatbot?

Fisher não viveu para testemunhar a obsessão coletiva com a inteligência artificial. Depois de atravessar um longo período de depressão, de que fez matéria para o seu pensamento, faleceu em 2017, 4 anos antes do lançamento do ChatGPT — primeiro sintoma desta evolução da doença dos nossos tempos. Ainda assim, especulando a partir do seu trabalho é possível acreditar que veria este caso como um sintoma evidente do que procurava denunciar: a forma como o capitalismo se naturaliza, transformando toda a realidade, ao ponto de assimilar e neutralizar qualquer expressão de dissidência.

A obra de Fisher tornou-se um meme. Um objeto indispensável de qualquer starter pack de pensador de esquerda. Não por o seu trabalho ser de importância menor; mas porque, tal como previa, no presente estágio da organização capitalista a dissidência não precisa de ser explicitamente censurada, porque tudo está destinado a ver neutralizada a sua carga política no constante fluxo de informação em que estamos mergulhados. O seu pensamento não perdeu força. E as suas palavras continuam a ser importantes pistas sobre o mundo em que vivemos — e eventualmente como sair deste beco. Mas a ubiquidade das referências, muitas delas dedicadas ao adágio sobre o fim do capitalismo ou a qualquer espécie de argumento apologético sobre o estado do mundo atual, acabam por diluir a sua acidez.

Esta diluição, não só do seu pensamento mas de todo o potencial político da dissidência online, foi tema de um dos seus últimos ensaios. “Touchscreen Capture”, publicado em 2016, foi escrito numa altura em que muitos provavelmente ainda acreditavam no poder das redes sociais e da comunicação em rede para salvar o mundo, mas antecipava de forma contundente o plano de colonização da nossa atenção que ainda hoje continua em curso. Para Fisher, no ciberespaço como o conhecemos, o poder deixou de ter necessidade de comandar as populações, e passou simplesmente a convidá-las a participar. Numa alusão ao pensamento de Jodi Dean e à sua teoria do capitalismo comunicativo, e de Jean Baudrillard e o seu simulacro, Fisher denunciava que essa participação era, no entanto, uma espécie de simulação. O triunfo de um paradigma em que a “ideologia do contacto” se substituía à ideia das relações sociais. Desenhado para defletir, absorver e neutralizar as exigências democráticas feitas pelas pessoas. Como escreve, nesta configuração, para os poderes dominantes, não interessa quantas mensagens anti-capitalistas circulam na rede, desde que circulem incessantemente.

Este diagnóstico pessimista da nossa relação com a tecnologia é a pedra de toque de muitas das menções a Fisher. Contudo, como lembra Em Colqhun, escritora e fotógrafa que tem dedicado parte da carreira à interpretação da sua obra, as conclusões nem sempre fazem jus ao pensamento de Fisher. Ao contrário do pessimismo paralisante que tantas vezes se conclui das palavras do crítico cultural, a sua proposta não era tanto uma recusa da tecnologia ou a sugestão de um decrescimento digital, mas antes um apelo à sua apropriação. Para Fisher, que durante anos fez do blog k-punk o seu principal veículo de publicação, o problema não são os smartphones, os computadores ou a internet, mas a forma como a nossa experiência com estas tecnologias foi completamente absorvida pelo sistema capitalista.

Tudo é aborrecido, ninguém se aborrece

Enquanto procuro as palavras para começar este segundo momento do texto, já perdi a conta ao número de vezes que desbloqueei o telemóvel e abri uma aplicação ao calhas. As dúvidas persistem e o gesto repete-se. Enquanto olho para os livros de Fisher que empilhei em cima da secretária para me acompanhar neste texto, salto de aplicação em aplicação. Pesquiso no Reddit e no X pelo nome do britânico, à procura de uma história ou facto que articule as ideias que me pairam sobre o pensamento. Mas o ímpeto que levou o meu dedo ao ecrã rapidamente se desmorona. Volto ao ensaio de Fisher, relei-o novamente, encontro o que procurava: “No ciberespaço capitalista, somos como personagens de um conto de fadas, a olhar com saudade para montes incontáveis de ouro que se encontram a apenas alguns passos de nós, mas que nunca poderemos tocar.”

Conscientemente sei que não vai ser no feed de nenhuma das redes sociais que vou encontrar a solução para este bloqueio que me começa a deixar ansioso a poucos dias do deadline. Mas a familiaridade do gesto dá-me algum conforto temporário — mesmo que não me dê nenhuma ideia de como continuar e encha o meu cérebro de informações, ideias e palavras que tornam ainda mais turvo o meu pensamento. À medida que o tempo desliza ao sabor do scroll entre reels, a ansiedade só aumenta. Quando páro para pensar, já se passaram mais duas horas sem que me tenha apercebido. Perante esta constatação é tentador cair numa espiral de pensamentos negativos. Penso em adiar o texto para o próximo ano, desistir por completo de escrever. Sem me aperceber, quando a minha mente vagueia, a minha mão procura novamente o telemóvel. E sei que não estou sozinho nesta sensação. Provavelmente todos aqueles que me leêm já se sentiram presos a esta compulsão. É a esta captura que Fisher se refere no seu ensaio.

Uma captura que não depende da nossa consciência, e atua diretamente sobre o nosso inconsciente. Como nos diz, uma transação que a troco da promessa do acesso ilimitado à informação, de uma excitação e imprevisibilidade temporária que nos hipnotiza, conquistou diretamente “o nosso sistema nervoso, os nossos apetites, a nossa energia e a nossa atenção”. E nos induz num estado de ansiedade permanente, provocado pela sensação de estar a perder algo, quando estamos a viver a nossa vida e não estamos simplesmente a perder tempo nas redes sociais, e pela necessidade constante de gerir os nossos avatares digitais de um modo que melhor reflita quem achamos ser. Uma sensação que socialmente tem sido progressivamente privatizada, e com isso tem perdido a sua carga política — à medida que até estes diagnósticos servem de adereços aos nossos avatares, de gimmick para tendências virais.

A digitalização de toda a nossa vida para o ciberespaço altera profundamente a nossa própria relação com o tempo. Para Fisher, enredados nesta teia ciber-capitalista, estamos condenados a viver uma diferente relação com o tempo, um pseudo-presente. E diz-nos que a melhor forma de ilustrar esta experiência é um GIF, uma imagem repetitiva, geralmente de baixa fidelidade e cuja origem é muitas vezes totalmente obscura mesmo para quem a partilha. Fisher vê-nos como as figuras destes GIFs, “presas numa situação purgatorial, que se caracteriza, em parte, pela incapacidade de reconhecer que estão presas num ciclo repetitivo.”

Na análise da relação com o tempo, o britânico convoca o filósofo italiano Paolo Virno para inverter o seu pensamento. Se Virno caracterizava a nossa experiência do tempo como um Deja Vu, Fisher convida-nos a pensar nela como uma inversão deste fenómeno. Agora não se trata tanto de sentir que já vimos algo antes, mas de vermos coisas repetidas e as experienciarmos como se fosse a primeira vez. O que condena a forma como experienciamos a cultura a repetir este movimento numa escala global. Um loop inconsciente de fuga ao aborrecimento que não produz mais do que coisas aborrecidas. Que até nos pode dar um prazer temporário mas não alimenta desejos.

A ideia do assombro, como o fantasma sobre o presente, é recorrente na obra de Fisher. Para o autor, não só a cultura se perde na repetição de fórmulas, como este estado de coisas nos remete a uma espécie de luto pelos futuros que sentimos constantemente estar a perder. A cultura de que podíamos estar a fruir, a vida que poderíamos estar a viver.  Mas este diagnóstico não deve ser visto como terminal. É transitório — como nos lembram as suas palavras quando afiança que alguém que se diz deprimido já está um passo mais próximo de sair da depressão por ter consciência de que a está a viver.

Psycha-Delia

Num destes dias, enquanto tentava convencer um amigo a desistir de estar ativamente no X/Twitter, usei como argumento o facto de a plataforma — tal como o Substack — permitir a monetização de contas com teor fascista ou até mesmo nazi. A sua resposta foi reveladora: “Eu até gostava de monetizar pelo bem, mas não sei como”. A sensação de que não existem alternativas que nos permitam usufruir eticamente da tecnologia é uma constante. É fácil reconhecer tudo o que de mau existe nestas plataformas, mas é difícil encontrar uma alternativa. E fazê-lo a partir do ponto de vista individual é uma causa perdida. Neste aspeto, as redes sociais, e em particular o X, oferecem-nos uma analogia perfeita para pensar sobre o capitalismo tardio. Mas para o fazermos de um modo útil, o foco deve ser também na forma e não só no conteúdo.

Os problemas do X, tal como os problemas das sociedades em que vivemos, não têm só a ver com o teor das interações, mas com a maneira como a própria forma da socialização é modulada para melhor servir o próprio sistema. O frenesi de notificações — muitas delas inventadas pela plataforma —, a dinâmica comum do dunk posting em quote retweet ou a obsessão pelos hot takes e virais representam, formalmente, muito do que vivemos numa escala ainda maior. Em vez de contribuírem para um espaço verdadeiramente social, as redes emulam a sociabilidade para a condicionar; premiando a descontextualização, o confronto, um pensamento auto-centrado e até uma desonestidade intelectual como modos de triunfar no espaço público. O mesmo acontece com a inteligência artificial, a um nível ainda mais sintomático, como comprovam os estudos recentes que nos confirmam a tendência da interação com chatbots nos induzir em círculos de auto-confirmação ao ponto de diminuir a nossa capacidade de compreender o Outro. Com a agravante, em ambos os casos, de que a nossa atenção e interação (seja qual for o seu teor) é diretamente convertida em capital.

Até quando não estamos a trabalhar, estamos a trabalhar. E os gestos estão de tal forma entranhados que fica difícil resistir à tentação ou redesenhar o hábito. A dificultar o desafio, diz-nos Fisher, está uma armadilha criada pelo próprio capitalismo comunicativo que, por açambarcar todo o aparato tecnológico, nos conduz a pensar que a alternativa tem de passar por abdicar da modernidade tecnológica. Em termos práticos: que não é possível imaginar uma rede social que não viva do nosso vício em dopamina, uma inteligência artificial que não sirva para confirmar os nossos vieses, uma vida para além de um emprego que pague bem. Como se essas fossem as fronteiras dos nossos desejos. Como se essa fosse a nossa única oportunidade de socialização e a única forma de nos ligarmos uns aos outros e ao mundo. Como se esses fossem os ditames da nossa subjetividade. Como se fôssemos o nosso número de seguidores e as interações no ciberespaço.

Fisher nunca concretizou por completo o seu plano de fuga desta armadilha planetária. Numa espécie de ironia do destino, partiu deixando para trás uma introdução inacabada sobre o seu comunismo ácido. Mas é precisamente para aí que devemos olhar mais amiúde para dar sequência à sua atitude — para o texto em que, depois de toda a desesperança, nos mostra a importância política de um desejo psicadélico. E de uma elevação da consciência que “não consiste apenas em tomar consciência de factos dos quais antes se desconhecia: consiste, pelo contrário, numa transformação de toda a nossa relação com o mundo.”

Mark Fisher, convida-nos a pensar para além da nossa percepção, alterando o nosso estado de consciência. E apesar de evocar a psicadelia — de forma bem explícita no ácido com que qualifica o seu comunismo — não defende a necessidade de drogas, a que chega a chamar “um kit de escape sem manual de instruções”. O seu desejo é, portanto, que inspirados nos efeitos das drogas que nos alteram as noções de tempo e de espaço, possamos sóbrios mudar a forma como vemos o mundo. Porque, como escreve, é quando abandonamos os moldes habituais do nosso pensamento, para além da prisão do tempo e do espaço, que podemos ver com clareza as estruturas de poder. E é no desejo que conseguimos sentir para além destes constrangimentos que se esconde a verdadeira pulsão revolucionária — mais do que numa tentativa de imposição de uma pureza moral ou numa espécie de atitude reacionária e persecutória, hoje cada vez mais tendência no tal ciberespaço capitalista.

Por muito que isto pareça esotérico, não é. E é mais simples de imaginar à luz de momentos próximos. Como escreve Em Colqhun, mencionando a portuguesa Joana Ramiro, um dos exemplos onde brota esta tensão é, por exemplo, o movimento #MeToo que para lá do frenesi de cancelamentos (que na verdade não são bem cancelamentos, o que revela a falência do método) proporcionou um elevar de consciência coletiva, ao fazer com que todos examinássemos os nossos comportamentos, percebêssemos como a sociedade nos condiciona a processar, normalizar e ignorar o abuso — porque alguém ousou fugir destes trâmites e denunciar o que tantos anos fora estranhamente encoberto sob a capa da normalidade.

A acidez para Fisher é essa capacidade de desejar forte o suficiente para corroer as contingências. Uma forma de desejar que vai para além de uma excessiva obsessão com as condições materiais, não se limitando à gestão do possível; para além da gestão libidinal do capitalismo tardio. Que entre notificações, pornografia, casinos e outras formas de compulsão, esgota todo o nosso desejo; e para além de nós próprios (da nossa auto-realização e concretização) ao encontro de um outro com quem o partilhar. Menos um “um processo linear que se espalha pouco a pouco a partir de uma faísca”, mais como uma “forma MUSICAL / e os seus pontos focais, / dispersos no / tempo e no espaço, conseguem / impor o ritmo da sua VIBRAÇÃO / tornando-se cada vez mais densos / até ao ponto em que já não é possível desejar voltar atrás”, como se lê no poema de Jean-Marie Gleize que abre uma das edições do Acid Communism.

Neste espírito, a revolução não é tanto um fim que se impõe, mas mais um próximo passo que se partilha, um movimento que conjuga, uma respiração que se sincroniza — em nome do desejo e não pelo simples prazer, numa politização dos gestos. Pegando nas palavras de “Bifo” Berardi, dos anos 1970, com que Fisher termina a sua introdução: a revolução não é só possível e necessária: é provável. E o primeiro passo talvez seja mesmo rejeitar a resignação da tristeza do trabalho e cultivar o otimismo — ao mesmo tempo que analisamos as máquinas que convertem o nosso desejo e a nossa consciência em instrumentos do capital. “Compreender como funciona este processo de diminuição da consciência é o primeiro passo para o reverter.”

As condições materiais para a revolução estão mais presentes em 2026 do que estariam em 2016. Isso não significa largar as máquinas mas apropriá-las para além do trabalho, como extensões do nosso desejo; e, em vez de apontar ao lado narrativo, agir sobre a dimensão logística do capital. Ou como dizia Lenin: usar a corda vendida pelo capitalismo para o enforcar.

“We want to expropriate all the assets of the Catholic Church
Cut the working hours, increase the number of jobs
Increase the amount of the salary
Transform production and place it under workers’ control
Liberation of the huge amount of intelligence that is wasted by capitalism: Technology has been used so far as a means of control and exploitation.
It wants to be turned into a tool for liberation.
Working less is possible thanks to the application of cybernetics and informatics.
Zerowork for income
Automate all production
All power to living labor
All work to dead labor.”

— Excerto de poema de Franco “Bifo” Berardi citado por Mark Fisher em Acid Communism

Autor:
  • O João Gabriel Ribeiro é co-fundador e editor do Shifter. É auto-didacta obsessivo e procura as raízes de temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

    (Shifter)