Empresas de IA já recrutam filósofos para ensinar máquinas a “pensar”, mas há suspeitas de “lavagem ética”.
Durante anos, os licenciados em Filosofia foram alvo de piadas sobre a alegada falta de saídas profissionais. Agora, alguns estão a encontrar lugar (e salários elevados) nas maiores empresas de inteligência artificial, que procuram especialistas capazes de ajudar a definir como os sistemas devem responder, decidir e comportar-se.
A presença de filósofos em empresas tecnológicas já não é marginal. Amanda Askell trabalha na Anthropic, Iason Gabriel e Henry Shevlin estão ligados à Google DeepMind, e Sam Altman, da OpenAI, chegou a afirmar que a empresa recorreu a “centenas de filósofos morais” para desenhar regras aplicadas ao ChatGPT, lembra o The Week.
Entre os problemas que preocupam os programadores estão dilemas antigos, agora aplicados a sistemas automatizados. Um deles, segundo o The Economist, é a chamada “ignorância socrática” — a ideia de que a sabedoria começa no reconhecimento dos próprios limites.
No contexto da IA, este princípio é usado para tentar evitar que os modelos finjam certezas ou concordem excessivamente com os utilizadores, um comportamento conhecido como “sycophancy”.
Outro debate central opõe abordagens deontológicas e consequencialistas. A primeira assenta em regras rígidas — por exemplo, não mentir, não coagir e não tratar pessoas apenas como meios para atingir fins. A segunda avalia decisões com base nas consequências, ponderando custos e benefícios.
Para os criadores de IA, a escolha entre estes modelos pode influenciar muito a forma como um sistema responde a pedidos sensíveis ou moralmente ambíguos.
A filosofia também entrou no campo da segurança. Um exemplo é o chamado “constitucionalismo da IA”, em que textos legais ou morais servem de base para orientar o comportamento dos modelos. A Anthropic revelou que a “constituição” do seu modelo Claude inclui referências tão diversas como Immanuel Kant, os termos de serviço da Apple e a Declaração Universal dos Direitos Humanos — um documento que já foi informalmente apelidado de “soul doc” da empresa.
Alguns analistas sugerem que a automação criada por programadores poderá, em parte, substituir profissionais da informática, ao passo que áreas como a filosofia ganham, aparentemente, relevância renovada. Mas a aproximação entre filosofia e indústria tecnológica está longe de ser consensual.
Vários académicos receiam que o ritmo acelerado da IA entre em conflito com a reflexão lenta e crítica que caracteriza a filosofia. Há ainda o risco de incentivos desalinhados levarem a investigação apressada ou de baixa qualidade.
A maior crítica é a possibilidade de “ethics-washing”: a contratação de filósofos como forma de demonstrar publicamente preocupação com a segurança e a ética, sem que isso altere substancialmente as práticas das empresas. Para os críticos, a presença de especialistas em moral pode funcionar como uma estratégia de imagem, sobretudo num setor acusado de criar tecnologias capazes de aprofundar desigualdades, ameaçar a democracia ou ser usado para fins perigosos.
(ZAP)
