Itziar Ziga: “Podes ter sido vítima sem que isso defina toda a tua identidade”

By | 28/06/2026

‘A feliz e violenta vida de Maribel Ziga’, o livro que a escritora basca Itziar Ziga escreveu como homenagem à mãe, e que desafia o imaginário tradicional da vítima, chegou a Portugal. Editado em Portugal pela Orfeu Negro com tradução de Margarida Amado Acosta, o livro reconstrói uma infância atravessada pela violência machista sem renunciar à alegria, ao desejo, ao humor nem à complexidade emocional. Itziar Ziga encontrou-se com Sara Plaza Serna para uma conversa a partir de todos estes temas.

A história das mulheres é uma história de violência. Isso é inegável. Mas é também uma história de luta, de resistência e de irmandade. Numa experiência marcada pela violência há igualmente espaço para a felicidade, o prazer e o amor. Reconhecer isto não é banalizar nem minimizar as consequências da violência sofrida; é ampliar a narrativa, reconhecer as múltiplas dimensões de uma vida, ir além da representação patriarcal do conceito de vítima.

É precisamente esse o exercício que a escritora Itziar Ziga faz em A feliz e violenta vida de Maribel Ziga, livro publicado pela primeira vez em 2020 e agora editado em português pela Orfeu Negro. É, acima de tudo, uma celebração da sua mãe, uma mulher alegre, divertida e amorosa. O que não a impede de relatar a violência sistemática que ela sofreu às mãos do marido (e pai de Itziar). Os maus-tratos físicos e psicológicos que viveu durante anos até conseguir separar-se, quando Itziar e a irmã ainda eram pequenas.

Longe de adoçar a violência, Ziga relata episódios duros da sua infância com honestidade e crueza. Mas, ao mesmo tempo, recusa-se a encerrar a mãe no retrato da vítima submissa e abnegada. O livro funciona assim como uma carta de amor, uma memória familiar e também uma reflexão política sobre a violência machista, o trauma e as formas de sobrevivência das mulheres.

Sara Plaza Serna — O livro é uma homenagem à tua mãe. Em que medida escrevê-lo fez parte do teu luto? Como olhas hoje para ele?

Itziar Ziga — O maravilhoso é que, quando um livro é publicado noutros países e noutras línguas, deixa de te pertencer totalmente. Tu já o escreveste, foi revisto, editado, passou por todo esse processo tão cuidado que os livros em papel têm, e então começa a pertencer às pessoas que o leem. E quando, além disso, é traduzido para outra língua, ainda mais. Cada tradução refaz as palavras, volta a criá-las a partir de outro lugar, e isso parece-me mágico.

No fundo, escreves para seres lida. Todo esse processo emociona-me muito, e com este livro ainda mais. Foi muito importante para mim escrevê-lo, não só porque contava a minha história, mas porque a minha história não aconteceu apenas comigo.

Passaram seis anos desde que foi publicado pela primeira vez e continuo a senti-lo muito presente, como se estivesse a vibrar em diferentes lugares. Publicá-lo agora em Portugal deixa-me muito feliz. Ainda não pude ir aí, mas tenho muita vontade de o partilhar convosco.

Além disso, foi um livro que demorei muitos anos a escrever. Não especialmente porque me custasse enfrentá-lo, mas porque tinha o seu próprio ritmo, apesar de depois ter resultado num livro muito curto.

“Muita gente me diz: ‘Tu não és uma vítima, és uma sobrevivente.’ E eu rejeito essa ideia. Sobreviventes somos todas as que continuamos vivas, porque sobrevivemos mais um dia, mais um minuto”

Sara Plaza Serna — A ideia de vítima que aparece no livro é muito interessante. Até o próprio título, A feliz e violenta vida de Maribel Ziga, aponta para essa contradição. Insistes em mostrar a tua mãe como uma mulher feliz, cheia de energia e vontade de viver. Que relação tens com a palavra vítima e porque era importante para ti mostrar a tua mãe para lá da violência machista exercida pelo teu pai?

Itziar Ziga — Vítima é uma palavra muito carregada. Por um lado, tendemos a rejeitá-la. Mas também é verdade que historicamente fomos vítimas do patriarcado. A violência machista é algo fundacional, profundamente enraizado na nossa história e nas nossas vidas. Isso não significa que seja eterno nem inevitável, mas faz parte do nosso contexto e há milhares de testemunhos que o demonstram. No meu caso e no da minha mãe, fomos vítimas da violência do meu pai. E a violência não tem de ser física para ser violência.

O complicado é que, se não o contas, essa violência torna-se invisível. Mas, se o contas, cai sobre ti todo o estigma associado a essa palavra. Cola-se a ti como uma espécie de ventosa. Não porque tu mudes a percepção que tens de ti própria, mas porque os outros começam a olhar para ti a partir desse lugar, como se fosses uma coitadinha. E claro, também rejeitamos essa palavra por isso.

Para mim, a questão é redefini-la. Perceber que podes ter sido vítima de determinados acontecimentos sem que isso defina toda a tua identidade. A palavra não devia apoderar-se de quem és.

Muita gente me diz: “Tu não és uma vítima, és uma sobrevivente.” E eu rejeito essa ideia. Sobreviventes somos todas as que continuamos vivas, porque sobrevivemos mais um dia, mais um minuto. Não quero estabelecer uma distância semântica entre as que sobreviveram e as que não sobreviveram, porque isso parece-me terrível.

Nenhuma mulher procura ser maltratada ou violada, mas o mundo foi historicamente construído de uma forma em que é muito difícil atravessar a vida sem sofrer violência machista. E isso não significa que essa violência monopolize toda a tua existência.

A minha mãe nunca contou nada. Acho que jamais falou da violência do meu pai com alguém para além de mim e da minha irmã. Tinha uma amiga muito próxima quando vivíamos em Rentería; passavam noites inteiras a fumar, a beber vinho e a falar de tudo, mas tenho quase a certeza de que nunca lhe falou disto. Embora os gritos se ouvissem e todo o bairro soubesse o que se passava.

Agora os agressores têm muito mais cuidado para não fazer barulho, mas antes nem isso importava. E mais do que vergonha, acho que havia uma sensação de inutilidade: “Para que vou contar, se já sei como me vão tratar?” Essa conversa ainda não existia. E não porque as mulheres fossem cobardes, mas porque estavam sozinhas.

Também construímos muitas vezes uma imagem do trauma como algo eterno. Parece que, se te acontece uma coisa dessas, ficas partida para sempre, e não funciona assim. Podes ter trauma por algo aparentemente mais leve, há pessoas que não desenvolvem trauma e, além disso, o trauma não é necessariamente permanente. Mas essa imagem continua muito presente.

“Parece que o pessimismo é visto como mais inteligente ou mais realista, e que se alguém como eu fala com esperança é porque vive iludida. Mas eu tenho esperança, sim”

Sara Plaza Serna — Se o perfil da vítima no livro não é estereotipado, também não o é o do agressor. O teu pai não aparece retratado como um monstro, mas como uma pessoa complexa, cheia de contradições. Porque era importante para ti mostrá-lo dessa forma?

Itziar Ziga — Neste livro faço uma espécie de reality show da minha infância e adolescência, até conseguirmos separar-nos dele e deixar de ter relação.

Vimos de uma cultura onde a violência estava muito normalizada, não apenas a violência machista. Era algo habitual. E o feminismo ajudou-me a compreender algo que eu já intuía em criança: que aquilo que acontecia em minha casa não acontecia só ali, embora ninguém falasse disso.

Compreender que existe uma estrutura histórica de poder e dominação implica também perceber que o meu pai não era um monstro isolado que decidiu, por pura maldade, destruir a sua família. Tal como a minha mãe não era uma pobrezinha anulada.

Os homens também são socializados nessa violência. Por isso queria fazer uma leitura feminista e política de tudo isto.

E depois há o facto de ele ser o meu pai. Eu conhecia-o, cresci com ele, e claro que havia amor. Há pessoas que odeiam os pais agressores, e isso é legítimo, mas no meu caso eu sempre gostei do meu pai e nunca deixarei de gostar dele.

Às vezes pensamos que a violência arrasa tudo, e nem sempre é assim. Fez-me bem escrever sobre ele sem o transformar num monstro. Porque, se deixarmos de os ver como monstros e começarmos a vê-los como homens, então também podem responsabilizar-se pela violência que exercem.

Sara Plaza Serna — No livro há uma tensão constante entre a celebração de uma vida intensa e o peso da violência que a atravessa. Como encontraste o tom para narrar essa mistura sem cair nem na tragédia absoluta nem na idealização?

Itziar Ziga — Acho que isso me sai de forma bastante natural. Onde tive mais cuidado foi na maneira de falar dos avanços feministas e da violência machista a partir de um lugar responsável.

Quanto à minha experiência com a violência, sinto-me bastante segura na forma como a conto. Sou feminista, milito há muitos anos, fiz terapia e trabalhei bastante todas essas questões. E, no fim de contas, estou a escrever um livro, não um plano governamental contra a violência machista.

Ouvir outras mulheres não nos faz mal, e contar as nossas experiências também não. O que me custava mais era encontrar o tom para falar das mudanças que conseguimos nos últimos anos. Porque, embora o patriarcado e a violência machista sejam terríveis e façam imenso dano, também avançámos muitíssimo.

Penso muitas vezes numa coisa que dizia Gloria Steinem: uma das grandes conquistas feministas foi fazer com que o patriarcado deixasse de ser invisível. E isso é enorme.

O meu otimismo vem daí. Parece que o pessimismo é visto como mais inteligente ou mais realista, e que se alguém como eu fala com esperança é porque vive iludida. Mas eu tenho esperança, sim. Também porque, quando fazes parte do movimento feminista e estás em ação, não cais tão facilmente no desespero nem no fatalismo.

Sara Plaza Serna — Uma das partes mais emocionantes do livro é a relação entre mãe e filha. Como foi escrever sobre a tua mãe e sobre essa ligação?

Itziar Ziga — Fez-me muito bem escrever sobre ela. Foi algo profundamente prazeroso. Eu conto a minha verdade, escrevo a partir das minhas experiências e da forma como as vivi. Mas eu não inventei a minha mãe: ela era realmente assim, incrível.

Foi sempre muito irreverente, muito livre. Lembro-me de uma crónica que Elvira Lindo escreveu sobre o livro no El País, em que dizia que a minha mãe parecia uma personagem literária fascinante. E era mesmo.

Tinha uma forma muito tranquila de enfrentar a vida, mesmo dentro de uma situação de violência muito dura. Eu e a minha irmã saíamos muito à noite, e ela transmitia-nos sempre confiança e tranquilidade. Essa alegria dela foi algo que sempre adorei.

Também penso muito no contexto em que viveu. A primeira vez que nos disse que queria divorciar-se eu devia ter uns cinco anos, e ainda não existia o divórcio em Espanha. Quando hoje se diz “separa-te” ou “faz denúncia”, às vezes esquecemo-nos de que para as nossas mães e avós isso nem sequer era uma possibilidade real.

Conheci muitíssimas mulheres cuja situação era parecida: viviam com um agressor e, além disso, tinham medo de perder as filhas se saíssem de casa. Não é que escolhessem ficar, sair dali é dificílimo.

E depois havia outra coisa muito importante na minha mãe: ela nunca centrou toda a sua vida naquele homem. Tinha amigas, tinha espaços próprios. E isso aprendi muito cedo com ela. Vê-la sair até tarde com uma amiga, a fumar, a conversar, a rir-se… Para mim isso continua a ser das coisas mais valiosas do mundo.

Muitas leitoras disseram-me uma coisa lindíssima: que sentiram que o livro lhes tinha oferecido uma mãe muito fixe. E isso também é algo que a literatura faz: amplia o teu mundo e dá-te experiências que acabas por incorporar um pouco como tuas.

“Como não hei-de olhar para trás, se estão lá todas as mulheres que vieram antes de nós? Além disso, às feministas sempre nos interessou olhar para trás para podermos olhar em frente

Sara Plaza Serna — Muitas vezes o feminismo é contado a partir das grandes teorias, mas no teu livro o quotidiano e as relações entre mulheres têm um peso enorme. Achas que essas amizades também são uma forma de militância feminista, mesmo sem serem nomeadas como tal?

Itziar Ziga — Sim, totalmente. Há imensas histórias que ainda não conhecemos sobre como as mulheres se ajudavam entre si. Estratégias de apoio, de autodefesa, formas de cuidado mútuo.

A minha avó, que nasceu em 1910, dizia: “Não confies num homem quando o vires chorar, porque entre lágrimas está a dizer-te a tareia que te vai dar.” Elas já sabiam coisas, mesmo sem terem os nossos conceitos.

E penso muito em como as mulheres cuidavam umas das outras durante as ditaduras, tanto em Espanha como em Portugal. Havia formas brutais de controlo sobre as mulheres e sobre a dissidência. Então perguntas-te: como sobreviviam? De certeza que existiam redes, códigos, maneiras de se protegerem.

Sara Plaza Serna — Na verdade, o livro faz um exercício de reconhecimento não só da tua mãe, mas de todas as mulheres que, como ela, sofreram violência machista.

Itziar Ziga — Eu sempre fui muito feminista. Entrei para o meu primeiro coletivo no início dos anos noventa e, claro, crescer com um pai agressor esclarece muitas coisas muito cedo.

Acho que há algo de importante em olhar para trás e reconhecer tudo o que vem de longe. Perceber que as condições mudaram, sim, mas que também houve mulheres antes de nós a lutar e a sobreviver como podiam.

Agora há mais consciência. Antes havia uma impunidade total: os gritos ouviam-se em todo o bairro e não acontecia nada. A polícia dizia que eram “coisas de casal” e muitas vezes acabava por culpar as mulheres.

Como não hei-de olhar para trás, se estão lá todas as mulheres que vieram antes de nós? Além disso, às feministas sempre nos interessou olhar para trás para podermos olhar em frente.

Durante muito tempo disseram-nos que isto não existia, que não acontecia. E se agora é reconhecido não é porque tenham percebido sozinhos, mas porque levamos décadas a lutar para que seja visto.

Autor:
  • Sara Plaza Serna é uma jornalista freelance espanhola que vive em Lisboa há seis anos. Licenciou-se em Jornalismo pela Universidade Carlos III de Madrid e, desde então, tem seguido caminhos diversos no ofício. Apaixonada pela leitura, gosta de falar sobre livros, cultura, feminismo e questões de classe a partir de uma perspetiva próxima e crítica.
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