Senta, senta, senta para ler. Como a gramática funk permite celebrar literatura

By | 24/05/2026

O funk está por toda a parte. No cinema, nas discotecas, nas conversas de café. E se estivesse também na literatura? O escritor Alex Couto percebeu que já está e conversou com os fundadores dos projetos Noia Leituras e Se Poema Fosse Funk, dois exemplos deste encontro de dois mundos que durante muito tempo pareceram intocáveis.

A longa história do funk brasileiro culminou numa tendência estética global, usada por marcas a uma enorme distância da origem dos fenómenos, assim como em hits musicais internacionais. Com décadas de história e uma presença contestada na sociedade brasileira pela associação à violência e à criminalidade, tornou-se uma das linguagens mais efervescentes da sua cultura contemporânea, para colapso das narrativas mediáticas que o amarravam simplesmente à pobreza e aos infortúnios sociais que vinham com ela. Fruto da sua hegemonia visual e cultural, é agora utilizado como ferramenta de aproximação entre leitores, para celebrar a literatura, com resultados virais disseminados através das redes sociais. A partir de uma gramática própria que permitiu oferecer representatividade a juventudes negras e periféricas é agora uma catapulta para celebração intelectual. 

A virada não aconteceu por acaso. A análise mais profunda deste género trouxe exposições, criações audiovisuais e, claro, a evidente apropriação da parte de grifes internacionais. O exotismo desta tendência, a carga materialista que era dada às marcas no seu registo de ostentação, assim como o perigo palpável da sinalização belicista e territorial, elevou o funk a um patamar de presença permanente (rent free) na sociedade brasileira, com artistas a tornarem-se astros pop. E mesmo quando as leis de poluição sonora parecem uma forma de atacar o funk de forma perpendicular, o fenómeno parece ser muito maior do que as suas tentativas de repressão.

Talvez por todos estes motivos seja tão fascinante que este estilo consiga regressar à sua vontade original de oferecer representatividade a comunidades marginalizadas. Neste caso, criando uma espécie de escudo cool para assumir interesses intelectuais.

“Desde quando eu me entendo por gente assim, brasileiro, o funk sempre esteve na minha vida. A gente ia para a escola e às vezes o pessoal em volta ouvia música com funk. Em radinho, sabe?” 

Sei bem. Ao crescer numa Setúbal multicultural, naveguei para sonoridades que nem sequer eram inesperadas, e que só mais tarde me apercebi que fizeram parte da minha formação. Faz amor comigo, faz amor comigo? Quem se lembra dessa?

Quem fala comigo sobre ouvir música num rádio é Micael Moura, fundador e admin da página Noia Leituras, um fenómeno digital com cerca de meio milhão de seguidores. Foi o entusiasmo generalizado que tenho por esta página que me levou a considerar este tópico com maior profundidade e foi graças às impressões e reflexões emprestadas do Micael que pudemos ter um ensaio mais profundo.

“Eu gosto muito da literatura. Porque não juntar os dois? O funk conta muita história, fez muito sentido para mim.”

A ideia da música como veículo de storytelling é uma ideia com a qual sou obcecado — sobretudo desde que sou formador na área. A repetição das mesmas matérias perante dezenas de turmas diferentes trouxe-me uma certa visão mecanizada, mas a música nunca deixou de trazer grandes breakthroughs na minha percepção das narrativas. Mesmo que por vezes de forma discreta ou que passe quase despercebida.

No funk esta função não é novidade. Na canção “Endereço dos Bailes” (1995), uma função pós-modernista torna a faixa um momento de promoção da localização dos próprios bailes funk; já antecipava a utilização do artefacto artístico ao serviço da informação geral. A ideia de narrativa é um elemento vívido desta coligação entre funk e literatura. Num estilo dado a iterações autorais e com um bragadoccio de fazer corar o hip-hop norte-americano, a narrativa pode dar uma importância adicional a registos musicais — porque acaba por contar o tipo de história que não fica escrita — e quando utilizada de forma eficaz, não prejudica de maneiras mínimas a estrondosa potência dos bops.

Num marco cultural da minha adolescência, “O Rap das Armas” (2007) conta a história de um soldado de gangue, num processo contagioso de hype das suas cores e do seu morro, prometendo um comportamento violento face aos inimigos. Esta música tornou-se popular no meu Portugal basofe, fruto do entusiasmo pelo filme Tropa de Elite, e acabou por marcar a percepção sobre o género. Por outro lado, um funk como o “Rap da Felicidade” (1995) dos artistas Cidinho & Doca pode ter uma mensagem completamente oposta a esta propaganda belicista, quase antagonista no seu desejo de paz. Estes contextos coexistem num ecossistema musical rico o suficiente para albergar tanto o desejo de paz, como a perpetuação da violência, o que torna a tentativa de colocar o funk em gavetas incoerentes à partida.

É importante deixar claro que o funk não nasce do asfalto sem a devida nutrição da sua alma. A forma como os bailes soul dos anos setenta serviram para afirmação negra em plena ditadura militar em antecipação a este género comprova a interligação entre este estilo e a sua raiz social. Afinal, os bailes não eram só festas, eram espaços seguros para sociabilidade, essenciais para elevar a auto-estima negra, celebrando a sua estética.

O funk nasce de raízes conturbadas que evidenciam como é uma consequência do seu tecido social. A classe social está em tudo, dos batuques às indumentárias. Passando pela própria presença coletiva: o regime militar via com desconfiança o súbito agrupamento de jovens negros.

Saboreei a oportunidade de ouvir muitos funks proibidões, muitas canções onde se declara guerra ao Alemão, onde são nomeados bairros atrás de bairros, sempre de forma melódica. Para mim, há um soft spot tremendo no que toca a funk, porque algumas das minhas músicas favoritas da adolescência são de um tipo mais delicodoce, onde tenho de incluir sempre o Marcinho.

Mas como é que uma página de internet, com os seus memes partilhados em redes sociais, pode ser usada como disseminação e difusão cultural? E o que é que o funk tem a ver com isso?

Os códigos culturais navegam na internet

A sete horas de São Paulo, a internet encurta a distância. Micael do Noia Leituras confirma-me isso: “Com certeza, com a internet agora é possível chegar ao norte, ao sul e ao leste. Eu mesmo no interior aqui, recebo mensagens de pessoas do Brasil inteiro. Até chega em Portugal e em você.” Certíssimo — e mesmo quando não entendo todas expressões verbais fruto do seu imenso léxico, ainda assim estou ligado.

O que mais me impressiona na página de Instagram do canal Noia Leituras é a forma como comunica literatura de uma forma que toda a gente letrada na gramática da literatura e do funk encontra uma private joke partilhada por centenas de milhares de pessoas, onde se consegue promover a literatura. Este tipo de celebração coletiva à volta dos livros ajuda a que deixem de ser um assunto intelectual chato e se tornem um assunto intelectual partilhado. Um sentimento reforçado porque o sentido de humor brasileiro prolifera em linguagens comuns, linguísticas coletivas que podem ser celebradas em conjunto.

Se nós não tivéssemos lido os livros, não percebíamos a piada – mas isso não significa que não nos possamos rir. Nesta página, é a literatura que está a ser submetida a uma estética funk, não só com um vocabulário próprio, como com as codificações que agora são escancaradas e onde tudo se torna parte do meme.

“Eu gosto da estética brasileira, o pessoal do funk usa mais um boné, um óculos. E aí, sempre que estava pela internet, pelo Twitter, via bastantes memes. Aí eu resolvi unir os dois numa só página, a estética brasileira com a literatura. Deu muito certo, cara, está aí até hoje.” 

Mais do que estar até hoje, é a força dos números que atinge que prova a sua relevância. A capacidade de criar posts virais é fruto do génio de Micael, mas também um reflexo da grande cultura de internet que se pratica no Brasil, onde propostas mais edgy de cruzamento de conteúdo podem atingir momentos de enorme apreço e longevidade.

Memes como a Guiana Brasileira ou o Come to Brazil têm o poder de sintetizar a força bruta da internet brasileira, capaz de criar titãs reconhecíveis globalmente. O primeiro exemplo foi capaz de gatilhar inúmeros portugueses a encher caixas de comentários com a sua discórdia (algo que pessoalmente considero hilariante, por muito patriótico que seja). O último toda a gente reconhecia dos vídeos de YouTube até se tornar património à lá saquinho de lixo.

Sinto que é importante, face à minha própria biografia, explicitar com cuidado adicional a importância deste tema para mim. Na minha origin-story, lá em Setúbal, ser intelectual era um sinal de fraqueza perante os códigos rudes do bairro. Gostar de livros era um sinal bastante óbvio de vulnerabilidade emocional, algo apetitoso para bullies. Por isso, há qualquer coisa de libertação nesta celebração do intelectual de boné e óculos.

Pergunto ao Micael se acredita que, na página Noia Leituras, oferece uma chance de representação à sua audiência.

“Eu acho que estou conseguindo sim. Muitas pessoas se revêem nos memese nas fotos. O cara se veste igual a mim e também está lendo, legal então. Ele consegue ver-se nessa pessoa e retirar essa vulnerabilidade (…) Não é por estar lendo que ele é menos másculo, é alguém que quer aprender.”

Uma celebração literária feita em conjunto

Às vezes precisamos de nos ver representados. E isso no Brasil ganha uma nuance adicional intensificada por questões raciais, de classe social, género, orientação sexual e religião, com uma complexidade de debate que está a milhas da sociedade portuguesa. Algumas destas questões são tal e qual em Portugal, outras são nada a ver. Mas a verdadeira discrepância está na complexidade de identidades, de argumentos e de abordagens.

“Eu sempre tive o meu perfil e gostava de fazer memes. Sabe como é o brasileiro, a gente conversa sobre o que a gente é pelos memes. Eu percebi uma oportunidade para mostrar o que estava lendo e chegar a mais pessoas e eu consegui, cara.” 

“Eu comecei pelo Twitter e aí as pessoas começaram a mandar foto, sabe? Faz com esse livro, me mandando foto lendo. Isso aí foi muito legal para mim.” 

É brutal, mesmo. A ideia de que as pessoas quiseram entrar numa celebração coletiva dos seus livros favoritos através de uma estética inesperada. É um canal que está em diálogo, que abre parceria, que comunica com a sua própria audiência e que lhe oferece espaço para celebrar em conjunto. É refrescante ver promoções literárias inesperadas a nascerem como ervas daninhas numa era de redes sociais completamente carcomidas de bilionários brochistas e onde nenhum brainrot consegue competir com Donald J. Trump.

Quando as ameaças egocêntricas parecem multiplicar-se no espaço digital, quer seja através de ataques às liberdades dos outros, quer seja devido às máximas de individualismo que se repetem nesta era, é refrescante encontrar uma abordagem que põe o coletivo primeiro, elevando a individualidade sem precisar de ataques ou bodes expiatórios.

Pergunto ao Micael acerca das suas ambições de promoção literária, porque acredito que a dimensão considerável da sua página já deve atingir resultados muito superiores aqueles que são desenhados em gabinetes de promoção cultural, onde falham redondamente na aproximação às pessoas. Para meu entusiasmo, Micael acredita que a sua página ainda pode crescer muito.

“Eu ainda me vejo um pouco pequeno para falar a verdade, viu? Eu sinto que estou a chegar em muita gente, mas sinto que há um caminho extenso para percorrer, há muitas oportunidades para chegar em mais gente através da literatura.” 

De volta a Portugal, e com o tema a pairar sobre a minha imaginação, foi fácil encontrar réplicas do mesmo sentimento.

Murilo Lense conta-me algo parecido, mas com uma lógica própria. Nascido em Curitiba em 1989, vive em Lisboa desde 2017. Profissionalmente, é redator publicitário, mas fui falar com ele devido ao impacto digital da sua página dedicada à subversão de poemas em língua portuguesa para uma gramática funk, capaz de gerar engajamento, curiosidade e uma celebração partilhada. A sua prática poética pessoal facilita o grande à vontade com que se movimenta por estas recriações originais.

“Tenho uma relação próxima com a literatura: além de ler bastante, já participei de algumas antologias de contos e poemas e, em 2020, lancei o meu primeiro livro de poesia (o que acho que faz de mim um poeta hehehe).” 

Quando falo com Murilo acerca do impacto dos exercícios verbais desenvolvidos pela sua página, Se Poema Fosse Funk, também encontro uma vontade de partilhar a literatura, de a conseguir difundir de acordo com estes exercícios poéticos. Tanto que, para além de apresentar as suas versões subvertidas de clássicos da poesia transformados em funk, também tem sempre o cuidado de dar a conhecer o original.

“Acredito que sim. A ideia da página era deixar a poesia mais próxima das pessoas, porque ainda há uma barreira, uma noção de que a poesia é muito erudita e inacessível. Talvez conhecendo um poema através de uma linguagem mais familiar, alguns jovens possam ter mais interesse em explorar o universo da poesia e desmistificar certas coisas. Por isso eu também fazia questão de colocar os poemas originais ao lado das paródias, porque sei que muitas pessoas não conhecem.” 

Foi um exercício que fez em jeito de brincadeira, transformar poemas da fase erótica do poeta Drummond de Andrade (do seu livro O Amor Natural) para versões contemporâneas, recebeu um incentivo que o motivou a continuar a desenvolver essas criações.

“A partir daí, comecei a brincar com uns poemas clássicos e parodiar para o dialeto do funke do rap brasileiro. Acho que a primeira foi ‘E agora, José?’ do Drummond, que transformei em ‘E agora, coé?’, com a gíria carioca.” 

“Desde o início, a minha intenção foi traduzir para o contexto do funk sem perder a essência do que era dito no poema original. Eu queria que a mensagem fosse a mesma e, quando aplicável, com rimas, por isso dava algum trabalho. Por um lado, o campo semântico do funk é muito característico e marcado, com palavras como ‘senta’, ‘sarra’, ‘popozão’, etc. Mas, por outro lado, também é muito rico e dinâmico: a cada lançamento surgem palavras e expressões novas.” 

Confirma-se assim a junção das gramáticas — por um lado, o universo literário, por outro lado, o recurso a um riquíssimo vocabulário codificado, que se desdobra em novos sentidos e onde se pode atingir a private joke que referia acima. Fica bastante claro que existem pré-requisitos à participação nesta conversa, mas que aqui se tornam celebração.

Essa é uma percepção que agrada a Murilo. Para ele, há também uma vontade de demonstrar que o funk não é um estilo desmiolado, que só chega a pessoas sem cabeça.

“Inclusive, acho que o contrário também pode acontecer. Com a página, pessoas mais ‘letradas’ e preconceituosas, que olham o funk como algo sem cultura, podem se aproximar mais deste universo e olhar o funk com outros olhos.” 

Como acredito que um exemplo ótimo da vivacidade da página do Murilo também possa enriquecer este artigo, deixo um excerto da nossa conversa onde me explicou a sua prática num exemplo simples, de grande efeito cómico:

“Assim, o poema ‘Mar Português’ nas mãos do MC Nando Pessoa fica “Ó baile pesado, quanto do teu grau / São novinhas querendo vrau!”

Por uma democratização da leitura

Regresso ao Noia Leituras. Para Micael, os livros sobre os quais falta escrever são sempre dignos da continuação do trabalho. Nesta fase, repetem-se os requisitos, evitam-se as repetições.

“Tem que se renovar, como o pessoal diz. Porque eu já falei de tanto livro, mas faltam muitos aparecer lá ainda.” 

A quantidade de piadas possíveis acerca de um livro é provavelmente infinita, mas a quantidade de piadas possíveis acerca de leituras cruzadas é infinita de certeza. Quando comento com Micael alguns dos meus livros favoritos e tropeço no Grande Gatsby, apercebo-me da checklist mental com que vive o admin da página Noia Leituras.

“Esse inclusive já apareceu lá, viu? Na página?” 

Micael não é professor de literatura, não é crítico literário e não é promotor cultural. Ainda assim, é um pouco de cada um destes, face à dimensão que as suas reflexões atingem em termos de dimensão digital. Face ao entusiasmo por livros que partilho com o Micael, não foi surpreendente para mim que não tivesse um emprego relacionado com o editorial ou a literatura (esta arte tem o apelo hipnótico de arrastar pessoas de todos os ofícios).

“Eu cresci no interior de São Paulo e aqui a gente sempre aprende que tem de estudar desde cedo para entrar numa empresa boa e fazer a vida nela. Eu mesmo me formei em automação industrial, entrei numa empresa de peças automotivas, estou trabalhando ainda nela, sou clt e encontrei na página um motivo para ser mais feliz, trabalhar fora e espairecer a mente. E está dando muito certo, cara.”

Pergunto-lhe sobre parcerias, sobre qual é o plano nesse aspecto. De todas as páginas que vejo converterem-se em parcerias, talvez a página do Noia Leituras fosse das mais merecedoras. E não é que fosse promover o tigrinho, não é verdade? Quanto muito o tigre da Vida de Pi ou o Leopardo do Lampedusa.

“O livro do Conde de Monte Cristo, eu consegui agora uma publi com ele. Só estou conseguindo agora com quatrocentos mil seguidores.” 

Por agora, com ou sem parceria, vai continuar a desenvolver a sua prática de promoção literária, a continuar a lutar contra a vulnerabilidade que a literatura exige e a oferecer uma hipótese de identificação para diversas comunidades que se revêem nos livros.

“As pessoas geralmente gostam de um texto literário quando se identificam com algo que está naquele texto: a personagem, o tema, a situação, etc. Às vezes, em textos que têm uma linguagem mais antiga ou um certo hermetismo, pode ser difícil se reconhecer no texto. Já usar a linguagem e o contexto social do funk, das ruas e das periferias, tem o poder de aumentar essa identificação. É um caminho que o próprio rap e movimentos como o SLAM e os saraus periféricos também já vêm buscando há algum tempo, com uma poesia mais ‘da rua’ e sem o distanciamento que a literatura clássica por vezes gera.” 

Para Murilo, a surpresa chegou longe, quando percebeu que a sua página já tinha ido além de uma mera brincadeira, para ser capaz de ser referenciada em contextos educativos. Esta surpresa para o autor da página, acaba por reforçar a importância destes exercícios, assim como a força de uma linguagem partilhada para a compreensão da literatura. Conhecedores do meu trabalho na área do romance sabem como me faz aflição a linguagem críptica da arte contemporânea, assim como a literatura que ergue barreiras dialéticas a qualquer pessoa que a queira celebrar.

“Foi uma coisa curiosa isso que aconteceu: comecei a receber mensagens de jovens que viram as minhas criações em exames das escolas e mensagens de professores dizendo que mostraram minha página em sala de aula e foi divertido. Também aceitei algumas propostas para publicar os meus posts em livros didáticos. Portanto, sim, acredito que alguns jovens tiveram mais interesse em ler por conta da minha página, e que algumas pessoas que já liam puderam também conhecer outros poetas.” 

Se a produção audiovisual pode ajudar a desenvolver novas narrativas para o funk, e se atitudes pioneiras perante o seu próprio papel de educadores podem ajudar a contextualizar reflexões acerca da sua própria existência, como fica o papel do funk enquanto elemento agregador de entusiastas literários?

Mais uma vez, é uma forma de desafiar os papéis supostamente atribuídos a este género musical e ao fenómeno social que produziu com a sua explosão. Ao usar o funk para promover a literatura, o funk está a fazer justiça à sua raiz social, ao seu mecanismo de elevação de comunidades. Um estilo musical que dava uma cara aos jovens negros condenados à pobreza de imediato pela sua origem, tem agora a chance de dar a conhecer caminhos para o conhecimento e a diversão sincera que é a partilha de percepções acerca das suas leituras. Se isso não é fazer justiça à sua raiz, talvez seja apenas uma forma de superá-la.


Nota do autor: Neste momento, uma das páginas recomendadas pelo Murilo como suas favoritas neste campo, Chavoso da USP, está a ser alvo de uma perseguição injustificada pela rede social Meta, que sustenta a eliminação do seu perfil com mais de um milhão de seguidores na justificação de quebra das regras da comunidade. Este evento prejudicial para o autor acaba por servir de lembrança à forma como o funk continua a ser olhado como um fenómeno das margens, mesmo quando a sua presença mainstream é tão forte que permite criar uma linguagem de difusão literária.

Autor:
  • Alex Couto é escritor, publicitário, formador de storytelling e agente literário na Birdwatch. Começou a editar os seus livros de forma independente e publicou Sinais de Fumo (2024) e Os Periquitos Somos Nós (2025) na Penguin Random House Portugal. O seu maior sonho é ter o equilíbrio e a graça de um flamingo.

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