As inovações tecnológicas do outro lado da Eurásia mostram que a Europa está a ficar para trás. A corrida dos eletroestados não está por vir; já começou.
Em estilo semi-coreografado, típico dos vídeos nas redes sociais, IShowSpeed afirmava que “não há maneira de este carro ser mais rápido do que o meu Lamborghini”. De nome real Darren Jason Watkins Jr, poucos minutos depois, o influenciador digital mostrava-se chocado com a capacidade de aceleração do carro elétrico Xiaomi SU7. Como ponto fulcral, destacava o custo do carro, 70.000 dólares face aos 250.000 dólares do seu Lamborghini.
No resto da sua digressão pela China, entre interações com a população local, o espanto do influenciador ia bem além da qualidade dos carros elétricos locais. Vídeos com tecnologias tais como táxis voadores, óculos que fazem tradução linguística, ou drones que produzem espetáculos de luzes acumulavam centenas de milhares de visualizações. Como muitos outros influenciadores digitais antes, IShowSpeed dizia-se particularmente maravilhado com Chongqing — a capital chinesa durante a Segunda Guerra Mundial e hoje com uma população comparável a Portugal —, agora frequentemente apelidada de estilo “cyberpunk” ao criar a sensação de se estar no futuro. Internamente, um influencer digital chinês classificou a digressão de IShowSpeed de “um trabalho de Deus” por, “em apenas seis horas”, eliminar “toda a propaganda negativa de médias ocidentais sobre a China”. Depois de IShowSpeed, era a vez de Hasan Piker – um influenciador digital com um pendor à esquerda – visitar o país liderado por Xi Jinping. Novamente, o espírito das transmissões eram de admiração. IShowSpeed e Hasan não foram excepções. O número de criadores de conteúdo simpático à modernização da China faz caminho e a expressão Chinamaxxing – a adopção de comportamentos percepcionados como chineses – é popularizada entre a população jovem no mundo digital.
É inegável que o meio digital se tem vindo a inclinar para a direita mais radical nos últimos anos. A compra da rede social Twitter (hoje X) por parte do bilionário Elon Musk em 2022 — alegando a defesa intransigente da liberdade de expressão — foi um marco inegável. Pouco anos depois, os principais bilionários da área da tecnologia participaram na inauguração do segundo mandato de Trump. Notavelmente, Mark Zuckerberg, que outrora se esforçava para ser percepcionado como uma figura progressista, vergava-se ao trumpismo.
Neste movimento, as redes sociais foram reduzindo o alcance digital de vozes associadas ao campo progressista e surgiram cada vezes mais influencers de direita radicalizada. Ainda assim, vídeos elogiosos à China, como os de IShowSpeed e Hasan denunciam uma tendência que, apesar de coerente com as visões de declínio do Ocidente apregoada por Trump e seus aliados, é excessivamente simpática para com o principal rival dos Estados Unidos da América (EUA).
A tensão entre um espaço digital cada vez mais radicalizado à direita e o crescimento dos fenómenos de Chinamaxxing mostram o elefante na sala. A China tornou-se demasiado bem sucedida para ser ignorada. As declarações do CEO da Ford após uma visita à China, em que definiu a tecnologia chinesa “muito superior” classificar a visita como “a coisa mais humilhante que experienciou”, juntas à cobertura ocidental à recente Feira Automóvel de Pequim reforça que o fascínio pela tecnologia chinesa não é um nicho de influenciadores sem conhecimento da indústria. Este recente sucesso mostra que não podemos descartar a possibilidade de a China estar a criar um novo paradigma sócio-industrial.
Em contramão com o fim da história
Mesmo que de forma acidental, IShowSpeed e Hasan apontam para aquela que é a grande história da economia política do século XXI. Apesar da recente desaceleração, a China tem mantido taxas de crescimento muito acima do que seria expectável para o seu nível de desenvolvimento. O trabalho em fábricas integradas nas cadeias de valor mundiais trouxeram centenas de milhões de chineses para zonas urbanas, um processo que criou dezenas de megacidades.
O crescimento movido pela dinâmica de urbanização-industrialização retirou a esmagadora maioria dos chineses da pobreza e não foi isento de custos pesados. Os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 denunciavam tensões: a China impressionava o mundo com a organização e a qualidade das infraestruturas, mas as preocupações com a poluição do ar enchiam os noticiários ocidentais. Há menos de uma década o smog obrigava a um alerta vermelho em 22 cidades, incluindo Pequim. O fenómeno de nevoeiro tóxico causado pela poluição industrial e o trânsito tornou-se parte do quotidiano chinês, obrigando a população a usar máscaras.
O problema de devastação ambiental com o qual a China se deparava tinha fortes paralelos com a jornada de desenvolvimento pela qual o Ocidente havia passado. Dadas as semelhanças nos processos de crescimento e um mundo aparente unipolar — capturado no ensaio O Fim da Historia? de Francis Fukuyama ou na frase “o nosso presente é o vosso futuro” do sociólogo Ashis Nandy — , a tese de convergência em toda a linha populariza-se na viragem do século. A modernização económica iniciada por Deng Xiaoping criaria um ciclo de desenvolvimento em que a China passaria a produzir produtos cada vez mais avançados e semelhantes com os dos países desenvolvidos. O processo de enriquecimento chinês iria criar pressões, da regulação ambiental à liberalização política; a democratização ao país chegaria a prazo. Em 1999, capturando o espírito dos tempos, Henry S. Rowen escrevia um artigo intitulado de “Porque a China se tornará uma democracia“, onde afirmava que “ou a China permanecerá relativamente pobre e autoritária, ou se tornará rica e pluralista – e parece ter escolhido o segundo caminho.” A realidade das últimas décadas tem sido bem menos simples, como ficou especialmente evidente a partir da pandemia da COVID-19.
Hoje, é consensual que a China não replicou os EUA ou a Europa. No sistema político, a centralidade do Partido Comunista Chinês (PCC) mantém-se inabalável. As ondas de protestos em Hong Kong (2019/20) não levaram a relaxamentos nas liberdades políticas. O Estado mostrou toda a sua força no feroz controlo da pandemia. Em vez de uma liberalização política, Xi Jinping entrou no seu terceiro mandato como Presidente da República Popular da China, o líder mais longevo desde Mao Tsé-Tung. Mas isso está longe de significar que as lideranças políticas não reagem a preocupações populares.
O economista Branko Milanović argumenta que o regime político da China não é a caricatura de Estado Autoritário que frequentemente é feita, mas um sistema em que o partido hegemónico fundamenta a sua legitimidade na capacidade de gerar constantes melhorias para a população. Um exemplo disso são as campanhas de melhoria da qualidade do ar nas cidades, em que tem havido um esforço político para responder às frustrações da população com os custos de crescimento. Desenharam-se políticas de planeamento ativo para reduzir a importância do carvão na geração de energia, reduzir o uso do carro de combustão nas principais cidades e a promoção do uso de transportes públicos.
Não é só o sistema político que se mantém teimosamente diferente dos países ocidentais. A base produtiva não se limita a ser uma cópia barata das potências ocidentais — a China tornou-se um dos principais inovadores tecnológicos do mundo. De acordo com o Banco Mundial, a China continua a ser um país de rendimentos médios, muito longe dos padrões do norte global. O seu PIB por habitante é menos de um terço do dos EUA e está entre os níveis da Macedónia do Norte e da República Dominicana. Mesmo em termos absolutos, apesar do progresso, o governo chinês reforça que continua a ser a segunda maior economia do mundo. No entanto, o clima de rivalidade geopolítica e disputa ideológica entre os EUA e a China tornam evidente que estas métricas não capturam a totalidade. Em especial, as tensões nos setores de ponta mostram que a pujança da China vai além do seu tamanho e população massivas.
Os últimos anos foram marcados por um conjunto de inovações tecnológicas chinesas que apanharam os EUA e seus aliados de surpresa. Na tripla ambição de se desenvolver tecnologicamente, evitar a exposição às cadeias de abastecimento dos combustíveis fósseis e tornar as cidades mais respiráveis, surgem os carros elétricos que tanto impressionaram os influencers ocidentais. Marcas como a BYD penetraram nos mercados globais a preços muito competitivos, causando danos às valorizações bolsistas das empresas automobilísticas ocidentais e colocando em causa a vantagem tecnológica da Tesla. O preço apelativo, aliado à pressão para melhorar a qualidade do ar num país a fontes de eletricidade renováveis abundantes e com preços estáveis, conduziu a esmagadora maioria da nova frota automóvel do Nepal passasse a ser elétrica (como se vê aqui e aqui). Mas como o vídeo de IShowSpeed mostra, a força chinesa vai bem além dos baixos custos; a tecnologia em vários setores de ponta não tem rival no mundo, fazendo com que estes automóveis não sejam apenas apelativos para países como o Nepal. Este ano, o carro mais vendido no Reino Unido é chinês.
A disrupção tecnológica não se limita ao automobilismo. No curto conflito militar entre a Índia e o Paquistão em maio de 2025, as capacidades militares da indústria chinesa surpreendiam o mundo; a força aérea paquistanesa (a voar com tecnologia chinesa) causou danos à frota indiana (alimentada por caças da francesa Dassault) – as ações da empresa militar francesa sofreram com o evento. A surpresa com o Deepseek, modelo semelhante ao ChatGPT mas energeticamente mais eficiente, foi tal que o seu lançamento foi comparado ao satélite soviético Sputnik. Ao colocar em causa a total hegemonia dos EUA na área da Inteligência Artificial, o índice tecnológico NASDAQ sofreu uma queda de 3,1%, o equivalente a uma perda de valorização bolsista de milhão de milhões de dólares.
Fora das indústrias exportadoras, acrescentam-se exemplos de uma infraestrutura doméstica quase sem paralelo em países mais ricos: uma vasta rede ferroviária de alta velocidade, centros comerciais que parecem vir da ficção científica, os robôs a prestar serviços de limpeza, a fazer entregas aos domicílios ou a servir em restaurantes. A China do smog que obrigava a população a usar máscaras foi ficando para trás e é substituída por cidades com as estradas dominadas por carros não poluentes que convivem com agradáveis zonas verdes e canais. Nesse processo, a cidade de Chongqing tornou-se uma Meca para os influencers digitais como IShowSpeed, a montra de uma alegada superioridade chinesa face a um declínio ocidental.
O surgimento do eletroestado chinês
Assim, varre-se a tese da China como uma versão atrasada do Norte Global, destinada a tornar-se cada vez mais semelhante. A China, sob a liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) passou a apresentar um modelo alternativo que colocava em causa o papel de poder hegemónico do Ocidente — aquilo que Bruno Maçães define como Construtores de Mundos, em que estar na vanguarda tecnológica define as novas regras e padrões do globo, onde o sistema energético é uma âncora-chave.
O historiador-económico Adam Tooze, figura que se esforça para entender as movimentações de um mundo já com um pé no abismo climático, foi sendo seduzido pelos desenvolvimentos chineses. Tooze, reconhecido pelos seus trabalhos de história económica sobre as duas guerras mundiais, convenceu-se de que a China é o principal palco de batalha na guerra contra o total colapso climático. Para a revista London Review of Books, Tooze partilhava o que lhe vinha na alma, numa apresentação intitulada de Electrostates, Petrostates and the New Cold War [Eletroestados, Petroestados e a Nova Guerra Fria]. A pegada ecológica do milagre económico chinês e as recentes inovações tecnológicas tornam o país liderado pelo PCC como o grande agente histórico dos nossos tempos.

Nas entrelinhas do argumento de Tooze estão as consequências geopolíticas deste choque. Com as tecnologias existentes ou o modelo de crescimento das potências do passado (movido pelo fóssil), as ambições de tornar um país moderadamente desenvolvido na próxima década colidiriam com qualquer tipo de estabilização climática. Rapidamente, a China seria alvo hostilidades dos EUA e seus aliados — como se começou a observar com mais intensidade a partir da pandemia —, que utilizariam argumentos de contenção de emissões de gases com efeitos de estufa para travar o crescimento chinês.
Nas tensões entre a modernização económica, o combate à poluição das cidades e a necessidade de tentar garantir a contenção de emissões de gases com efeito de estufa, Tooze argumentava que a fábrica do mundo vai sendo substituída pelo Eletroestado chinês. Na base deste Eletroestado, estão duas tendências umbilicalmente ligadas: a instalação de energias renováveis e a eletrificação do consumo energético da sociedade. O modelo de mobilidade chinês, tanto no transporte público como no veículo individual movido a baterias, exige uma ampliação dramática da infraestrutura elétrica do país, o que por sua vez requer uma expansão de todo o sistema — centrais de produção, linhas de transmissão, produção de baterias, centros de carregamento, etc.

As novidades chinesas no campo energético em muito se assemelhavam aos progressos de Portugal e da Europa das décadas passadas, mas numa escala e velocidade totalmente diferente. O forte crescimento económico aliado à expansão de consumos energéticos enquanto as emissões de CO2 chinesas mostram reduções em 2025 corroboram este diagnóstico. O sucesso chinês em criar fontes de energia renovável baratas tem efeitos além fronteiras: em 2025, o crescimento de eletricidade renovável ultrapassava pela primeira vez na história o crescimento fóssil e, nesse processo, a Índia reduzia pela primeira vez neste século a produção elétrica a partir de combustíveis fósseis. Apesar disso, o Velho Continente parece ainda relutante em trazer para si o modelo de Eletroestado que a China tem vindo a definir.

“Enigma” Europeu
Chegando a Portugal e à Europa, é no contexto do crescimento da China como um putativo Eletroestado que devemos interpretar a capacidade energética portuguesa e enquadrar o atraso solar e a estagnação eólica analisado no último texto. Numa publicação posterior em que tentava clarificar alguns aspetos da sua apresentação, Adam Tooze identificava a União Europeia, a par da China, como uma região com “todos os motivos para encontrar formas de substituir o petróleo importado por energia elétrica (limpa) produzida domesticamente”; ainda assim, o historiador-económico assinalava um “enigma”: o fraco ritmo a que o continente tem dado passos na direcção do Eletroestado, mesmo depois do choque energético resultante da guerra na Ucrânia.
As vantagens que advém do Velho Continente em tornar-se um Eletroestado são inegáveis. Ao contrário dos EUA, a Europa não dispõe de vastas reservas de combustíveis hidrocarbónicos. Acrescenta-se que o continente tem um vasto conjunto de países que combinam altos níveis de eletrificação, com uma grande capacidade de gerar eletricidade a partir de uma matriz não dependente de combustíveis fósseis. Estes são exatamente os países numa posição privilegiada para se tornarem os primeiros Eletroestados, até mais do que a China; a infraestrutura subjacente torna-os muito mais bem preparados para absorver e adotar novas tecnologias (carros elétricos ou o fabrico do aço sem recorrer a carvão) ou para intensificar a adaptação de outras já existentes (bombas de calor e eletrodomésticos eficientes).
Mas o que justifica o “enigma” europeu citado por Tooze? Vários países do continente estão numa posição de dianteira, milhas à frente, do caso chinês que tanto impressiona o historiador-económico britânico. A resposta está na velocidade de adaptação dos últimos anos. Até agora, a estratégia mais eficaz para reduzir as emissões de gases com efeito estufa tem estado na eletrificação do consumo, tirando proveito das vantagens da eficiência. Logo, o duplo desafio climático está na capacidade de expandir a capacidade de gerar energia elétrica e eletrificar o máximo de consumos da sociedade. A eletrificação de grande parte das sociedades da União Europeia está praticamente estagnada desde 2010. O colapso dos preços dos painéis solares (95% mais baratos desde 2007) e o choque energético dos últimos anos parecem não ter criado uma urgência de eletrificação. Já a China mostra em paralelo aumentos vertiginosos na eletrificação e instalação de fontes de energia renováveis, ainda que grande parte da sua rede ainda seja alimentada a partir de combustíveis fósseis. Utilizando uma analogia do atletismo, a Europa começou a corrida com várias voltas de avanço mas continua a andar a passo de caracol, mesmo quando o seu rival chinês começa a subir o ritmo da competição.
A estupefação de Tooze em relação à Europa assenta como uma luva no caso português. A eletrificação do consumo energético em Portugal é praticamente inexistente desde 2010, em linha com o fraco crescimento europeu. Na dianteira, os países escandinavos, a França e a Suíça têm eletrificado os seus consumos a um ritmo comparável ao da China — deixando Portugal para trás.

As notícias celebratórias sobre dias inteiros a gerar eletricidade sem o recurso a combustíveis fósseis, a eletricidade mais barata do continente ou o fecho de centrais termoeléctricas a carvão, vão criando a perigosa sensação de objetivo quase cumprido. Apesar do progresso deste século, a dependência fóssil apenas passou de 90% para 60%, um nível não muito diferente da média da União Europeia. O petróleo importado continua a ser a principal fonte energética do país. Em grande medida porque o consumo de petróleo, quase todo utilizado para a mobilidade, está praticamente estático desde a viragem do século. Esta dependência fóssil continua a refletir-se num dos desafios crónicos da economia portuguesa – o equilíbrio das contas externas.
Os desenvolvimentos tecnológicos, maioritariamente provenientes da China, tornam o aprofundamento da eletrificação da sociedade cada vez mais credível. Os carros elétricos são a face mais evidente deste potencial. Com o ritmo atual, Portugal corre sérios riscos de ficar preso numa armadilha onde a produção elétrica esmagadoramente renovável convive com altos níveis de importação de petróleo para a mobilidade. Notícias de semanas ou meses com produção de eletricidade totalmente renovável têm pouco significado ao conviver com uma frota automóvel assente em derivados do petróleo.
A tese de Tooze, de que estamos a entrar na Era dos Eletroestados reforça que a aposta na transição energética está muito longe de estar concluída. O sucesso relativo das renováveis na produção de eletricidade é apenas uma peça de um sistema energético repleto de ramificações. Vivemos o segundo choque energético em menos de uma década, desta vez centrado no estreito de Ormuz e as fragilidades do equilíbrio atual são evidentes. Perante a possibilidade de estas crises se tornarem regra, emerge que a aposta nas renováveis da viragem deste século exige um aprofundamento e uma segunda aposta: a da eletrificação em massa. Com mais ou menos transportes públicos eletrificados, reduzir a dependência do petróleo e do gás exige a capacidade de carregar uma frota de transportes elétricos muito maior do que a dos dias de hoje; em paralelo tornar a esmagadora maioria dos consumos domésticos e industriais elétricos.
Não se regressa ao passado depois de um choque
No início do ano, em paralelo com o rapto do presidente venezuelano Nicolás Maduro, os Estados Unidos apertaram o longo e já sufocante cerco à ilha de Cuba. A nação caribenha perdia o acesso ao petróleo externo. Rapidamente os aviões deixaram de ser abastecidos no país, debilitando o já frágil setor do turismo. No início de fevereiro, uma refinaria sofreu um misterioso incêndio que dificultou ainda mais a situação energética. As universidades e outros serviços públicos fechavam parcialmente, o lixo acumulava-se nas ruas. A rede elétrica, que já vinha a sofrer apagões no passado, deixou de funcionar com regularidade. Já em março, os apagões e a escassez de bens alimentaram uma onda de descontentamento – como ponto marcante, manifestantes incendiaram uma sede do Partido Comunista Cubano. A agressão deixava o sistema médico, a jóia da coroa da Revolução Cubana, numa situação crítica; no final de março, o New York Times recorria ao título: “Médicos afirmam que pacientes cubanos estão a morrer por causa do bloqueio dos EUA”.
Meses depois do início de um cerco, com muito sofrimento pelo meio, o governo cubano continuava no poder. O governo liderado por Miguel Díaz-Canel mantinha canais de negociação com a administração Trump, mas sem uma capitulação. Mas como poderia Cuba aguentar, mesmo que temporariamente, uma situação em que se falava inicialmente de ter apenas dias de combustível? A energia solar parece ter sido uma parte substancial da solução. Durante o cerco, o plano de instalação de parques solares iniciado um ano atrás não dava sinais de parar. A instalação de painéis fotovoltaicos chineses, vendidos ou doados, tornou-se numa espécie de resgate do FMI numa crise energética. Finalmente, a ilha caribenha estava a conseguir capitalizar no seu clima para responder à dependência energética externa.
De acordo com a plataforma Microgrid Media, no início do cerco, a ilha caribenha contava com 49 parques solares instalados no prazo de um ano; resultado dessa expansão, a geração de eletricidade solar passava de 5% para 20% do total da produção. Em março, Cuba testava o primeiro sistema de baterias para lidar com a intermitência do solar fotovoltaico. A instalação de parques continuava a todo o vapor e, em abril, já tinham sido instalados 75 parques solares (dos 92 parques inicialmente planeados até 2028). Os projetos eram de tal importância que a sua inauguração chegou a contar com a presença do Presidente Miguel Díaz-Canel. Apesar de não suprimir as necessidades da ilha, a energia solar surge como uma peça fundamental que vai evitando o colapso do Estado cubano.
A fórmula de sobrevivência de Cuba não é totalmente nova, tem paralelos com o Líbano, um país que nos últimos anos tem vivido uma situação dramática em que a energia solar tem contribuído para manter níveis mínimos de produção elétrica. A energia solar para manter infraestruturas-chave, como o abastecimento de água, é de tal forma importante que se tornou alvo da mais recente agressão israelita.

Do outro lado do globo, a recente escalada nos preços do petróleo e do gás dava uma sensação de deja vu aos paquistaneses. Em 2022, fortes chuvas no Paquistão causaram mais 1.700 mortes e obrigaram o governo a declarar Estado de Emergência. As cheias causavam danos económicos, que combinado ao aumento do preço dos combustíveis fósseis devido à guerra da Ucrânia, criavam uma nova crise da balança de pagamentos. A inflação disparava, passava os 25% e a rúpia paquistanesa perdia metade do valor em menos de um ano. No meio desta crise, que leva o governo a recorrer ao FMI em 2024, o sistema elétrico paquistanês testemunha uma “revolução liderada pelo consumidor“. Os painéis fotovoltaicos baratos atuavam como outro FMI energético. Em quatro anos, a energia solar passava de 4% da rede elétrica para 25%, permitindo reduzir a eletricidade gerada por combustíveis importados. Com o conflito militar que levou à paralisia do estreito de Hormuz, a fragilidade do Paquistão voltou novamente aos noticiários e o recente sucesso solar — que continua a progredir — foi relembrando, ou mesmo celebrado.
A corrida dos eletroestados começou
Por vezes, casos como o cubano e o paquistanês são apresentados de forma romantizada, em que profundas crises sociais são embrulhadas em teses de decrescimento ou de uma transição energética pujante que deve ser replicada por outros. Ambos os países continuam altamente vulneráveis à dependência externa de fósseis, cuja fragilidade financeira não permite que se façam grandes investimentos em eletrificação que quebrem por completo com essa maldição. A grande lição desses e de outros casos é que num mundo altamente instável, alterações estruturais aos sistemas energéticos podem ocorrer de forma muito rápida. O gradualismo da descarbonização e da eletrificação da sociedade, baseado em vantagens naturais e em preços (subsidiados) minimamente estáveis, é substituído por grandes ajustes face a choques abruptos.
Neste paradigma, as vantagens naturais ou institucionais, acumuladas durantes anos a fio em países como Portugal ou a Alemanha, colidem com países capazes de expandir de forma rápida a sua capacidade de geração de energia renovável, quase como uma emergência face aos aumentos dos preços. É nesse contexto que se deve interpretar os esforços de Ed Miliband — Secretário de Estado da Segurança Energética e da Neutralidade Carbónica do Reino Unido — em acelerar e atropelar a resistência local ao maior parque solar do país, em plena crise energética. Ou o caso húngaro, em que o executivo de Orbán, pouco conhecido pelas questões ambientais, promoveu uma aceleração da produção de energia solar para alimentar a indústria emergente de baterias e reduzir a dependência externa do país. Neste processo, que tenta lidar com duas das grandes tendências globais — o crescimento da indústria chinesa e a instabilidade geopolítica — o peso do Estado central impôs-se sobre a resistência local.

Estes episódios mostram que mais do que ter longos dias de sol, os vencedores desta competição energética serão aqueles que se provarem capazes de transformar os seus sistemas energéticos da forma mais rápida possível durante esta Era de pressão. Neste ciclo de choques e ajustes, haverá vencedores e perdedores e não é óbvio onde Portugal se venha a situar. A verdadeira concorrência nesta corrida não virá de países como Cuba, Líbano ou Paquistão mas daqueles com maior poder financeiro, capacidade de planeamento e com um Estado forte o suficiente para impor essa agenda.
Mais do que compromisso climático, esta corrida assenta numa estratégia de resiliência e estabilidade económica. Existem em cima disso bons motivos para acreditar que a capacidade de eletrificar o consumo criará sinergias para acelerar um novo ciclo de desenvolvimento, potencialmente assente nas próprias indústrias eletrificadas. No processo de eletrificação renovável, a criação de excedentes elétricos fora das horas de pico de consumo tornar-se-á uma vantagem para atrair novas indústrias em busca de energia barata e pouco dependente de eventos internacionais.
Como economista Oliver Kim relembra, a economia moderna é essencialmente resultado de dois clusters industriais: o que se iniciou no século XVII no Reino Unido, que se alastrou para grande parte do continente europeu e posteriormente para os Estados Unidos da América; e uma segunda vaga no século XIX, iniciada durante a Restauração Meiji nipónica, que chegou a outras regiões do leste asiático. Em ambos os casos, as regiões em questão deram um salto que as colocam na dianteira económica e tecnológica. Se o Eletroestado chinês se materializar de uma forma comparável a uma nova revolução industrial, devemos esperar uma nova reorganização da hierarquia económica mundial que não se cinja à China. Países que hoje são vistos como atrasados podem dar saltos equivalentes àqueles que a Coreia do Sul ou a Singapura concretizaram no século XX. O que é hoje um país algures entre os gigantes asiáticos da China e da Índia poderá ser o alvo da inveja do que é hoje o mundo desenvolvido.
Se por um lado não é certo que a Europa continue numa posição dianteira, por outro, o interesse crescente das indústrias adjacentes ao Eletroestado chinês na Península Ibérica (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) também mostra que Portugal não esteja na típica posição desfavorável dentro do Velho Continente. Neste ambiente de instabilidade política e competição energética, repleto de riscos e oportunidades, levanta-se a pergunta de quanta eletricidade renovável Portugal precisará para se tornar um autêntico Eletro Estado.
Este artigo faz parte de uma série de artigos sobre a transformação da economia mundial e o papel de Portugal, que está a ser publicada na República dos Pijamas.
-
Uma newsletter que pensa a economia e o mundo. Fá-lo em contracorrente com o economês dominante a que os mais ricos nos habituaram.
(Shifter)

