Tecnologia permitiu recorde mundial da maratona abaixo das duas horas

By | 14/05/2026

A maratona abaixo das duas horas tem sido perseguida ao longo da última década. O que mudou agora não foi apenas a capacidade dos atletas, mas a convergência de múltiplos fatores potenciadores do desempenho: metodologias de treino melhoradas, estratégias nutricionais avançadas e, crucialmente, inovações dramáticas no… calçado.

Durante décadas, a ideia de uma maratona abaixo das duas horas ocupou um lugar quase mítico no desporto de resistência. Essa barreira caiu finalmente numa corrida oficial na Maratona de Londres de 2026, a 26 de abril, quando o queniano Sabastian Sawe correu em 1:59:30, seguido momentos depois pelo etíope Yomif Kejelcha em 1:59:41.

Não foi apenas um novo recorde mundial, foi um momento transformador que poderá redefinir os limites da resistência humana. As condições estavam alinhadas. Dois atletas a quebrar a barreira na mesma corrida sugere que isto não foi uma anomalia isolada, mas a chegada de um novo patamar de desempenho.

Contudo, tão rapidamente quanto começaram as celebrações, intensificou-se o debate: quanto desta conquista pertence ao atleta, e quanto à tecnologia, especificamente, à mais recente geração de “super sapatilhas” da Adidas?

No centro desta transformação está o aparecimento das tais “super sapatilhas” – calçado de corrida altamente desenvolvido para melhorar a economia de corrida.

As sapatilhas usadas em Londres, as Adizero Adios Pro Evo 3 da Adidas, representam o estado da arte desta tecnologia. Pesando apenas 97 gramas, estas sapatilhas são significativamente mais leves do que modelos anteriores de corrida de elite. O seu design incorpora três inovações fundamentais:

  • Uma placa de fibra de carbono: incorporada na sola para proporcionar rigidez e propulsão para a frente
  • Espuma avançada (Lightstrike Pro Evo): amortecimento altamente responsivo que devolve energia a cada passada
  • Materiais ultraleves na parte superior: minimizando o peso enquanto mantêm a integridade estrutural

Coletivamente, estas características melhoram a “economia de corrida”, que é a quantidade de energia necessária para manter um determinado ritmo.

A Adidas afirma existir um ganho de eficiência de cerca de 1,6%, o que, ao longo de uma maratona, pode traduzir-se em minutos poupados.

Isto não é irrelevante. Ao mais alto nível, ganhos marginais de apenas 1% podem ser decisivos.

Estudos académicos, citados pela New Atlas, sobre anteriores super sapatilhas, como a série Vaporfly da Nike, sugerem melhorias de desempenho na ordem de 1–3% para corredores de elite. Em termos de maratona, isso equivale aproximadamente a 2–4 minutos, mais do que suficiente para preencher a diferença entre 2:01 e desempenhos abaixo das 2:00.

De facto, todas as performances de maratona abaixo das duas horas até à data, oficiais ou não, foram alcançadas com sapatilhas com placa de carbono.

Esta consistência indica fortemente que a tecnologia do calçado não é apenas um fator contributivo, mas um fator necessário nos limites atuais do desempenho humano.

Como escreve a New Atlas, o aparecimento das super sapatilhas gerou inevitavelmente controvérsia. Os críticos argumentam que esta tecnologia corre o risco de comprometer a integridade do desporto ao introduzir um campo de competição desigual, particularmente quando o acesso aos modelos mais recentes é limitado ou proibitivamente caro.

De facto, as Adios Pro Evo 3 não estão amplamente disponíveis e podem custar centenas de euros, com uma durabilidade limitada a talvez apenas uma única maratona por par. Isto levanta questões sobre equidade e acessibilidade, especialmente para atletas fora das grandes redes de patrocínio.

Por outro lado, os defensores argumentam que a evolução tecnológica sempre fez parte do desporto. Desde pistas sintéticas a equipamento aerodinâmico de ciclismo, a inovação é frequentemente aceite assim que se torna padronizada.

(ZAP)