Ninguém nos pediu para existir, mas pedem-nos para resistir

By | 10/05/2026

O futuro do jornalismo independente, crítico e reflexivo que fazemos está nas mãos de quem acredita em nós.

“Despedi-me do meu emprego para me dedicar aos meus projetos”. Já todos perdemos a conta ao número de vídeos deste género que vimos nos últimos anos. Vários estudos e trabalhos jornalísticos feitos nos últimos anos dão conta que as novas gerações querem ser donas do seu próprio emprego. Ser empreendedor de si próprio tornou-se o novo normal. As redes sociais trouxeram-nos a ilusão de que é fácil criar as nossas próprias oportunidades e monetizá-las: apostar tudo no hustle, otimizar a nossa rotina, receber salários acima da média e conseguir a reforma antes dos 40.

Quando decidi despedir-me do meu trabalho a full-time, num gesto de pássaro que escapa pela portinha da gaiola e se lança ao mundo, uma pergunta não me saía da cabeça: não estarei a ser mais uma dessas pessoas a acreditar numa ilusão individualista?

Ao contrário de quem decide criar um negócio em prol da independência financeira, ou quem segue o sonho de ser influencer até cobrar o equivalente ao salário mínimo nacional para fazer uma story, gerir um media traz muito trabalho e pouco dinheiro. Acreditar num projeto editorial em 2026 pode parecer uma péssima ideia, se visto por este prisma. Abdicar de um rendimento certo para assumir a direção de um projeto financeiramente insustentável vai contra tudo o que é expectável de quem se aproxima dos 30.

Mas a verdade é que toda a minha carreira profissional parecia seguir uma direção contrária ao que me levou a ser jornalista. Acredito no poder transformador de um media que nos abana e faz pensar, que rejeita o sensacionalismo e o clickbait, que nos traz perspetivas que costumam ser empurradas para a margem e onde o pluralismo não é uma preocupação diária. E o Shifter sempre me mostrou ser esse lugar. Quando me despedi naquele dia em outubro, fechei a porta de um trabalho numa grande empresa de comunicação social onde estive a recibos verdes durante quase quatro anos. Escolhi entre a estabilidade de, apesar de tudo, receber aquele dinheiro certo todos os meses, e o propósito sem garantias; sem ter um plano B, uma rede de segurança ou um horizonte claro.

As organizações que investem em projetos semelhantes ao nosso aparentemente não têm “tempo” para reunir connosco. Os elogios são diários, mas mesmo quem nos acompanha não faz ideia do esforço e do que abdicamos diariamente para que este projeto continue a existir. E de como o seu apoio pode fazer a diferença. Num modelo de negócio onde os nossos valores e ideais não são negociáveis, os leitores estão no centro. Somos uma revista independente feita para a comunidade e que depende da comunidade — das vendas na nossa loja online e dos apoios anuais e mensais. 

As redes sociais vendem-nos uma sensação de sucesso imediato, mas dificultam-nos todo o trabalho que vá para além de fazer reels incendiários e alinhar em trends vazias. Mas os arquivos mostram-nos que a História se conta de muitas pessoas que deram tudo o que tinham para investir num sonho que acreditavam ser maior do que elas próprias, mesmo quando não tinham as condições ideais reunidas.

Foi o caso de Luzia Maria Martins e do Teatro Estúdio de Lisboa, em quem estarei a pensar ao longos dos próximos meses, graças ao prémio Lisboa Cultura e Media, que me permitirá fazer um trabalho de fundo que será publicado no Shifter ainda este ano. É também graças a esse prémio que poderei estar a tempo inteiro no Shifter ao longo dos próximos meses, sem saber o que virá depois.

Se tu que estás a ler este texto gostas do trabalho que fazemos e gostavas que o Shifter continuasse a existir, considera tornar-te nosso apoiante. O futuro do jornalismo independente, crítico e reflexivo que fazemos está nas mãos de quem acredita em nós.

Ninguém nos pediu para existir, mas muita gente nos tem pedido para resistir. É isso que já estamos a fazer.

Autor:
  • Carolina Franco tem escrito sobre cultura, juventude, género e direitos humanos. Acredita cada vez mais que está tudo ligado. É jornalista e diretora do Shifter. Estudou Ciências da Comunicação no Porto, tem uma pós-graduação em Curadoria de Arte e mestrado em Antropologia-Culturas Visuais pela NOVA FSCH, com uma tese sobre representatividade trans* no audiovisual. Entre 2022 e 2025 colaborou com o projeto de literacia mediática PÚBLICO na Escola. O seu trabalho também pode ser lido no Gerador, na Revista MIL, na FlanZine e no PÚBLICO. Co-fundou, em 2024, o projeto Perpétuas.

     

(Shifter)