Mark Mushiva: “Os condenados da terra construíram o chip do computador”

By | 09/05/2026

Acelaracionismo Africano, tecnologia decolonial, afrofuturismo. Todos estes conceitos fazem parte do léxico de Mark Mushiva, artista multidisciplinar e investigador do coletivo Forensis. Como é que a tecnologia nos pode ajudar a projetar novos imaginários e a reconhecer o passado? É sobre isso que Mushiva reflete no espetáculo ‘The Drum and the Bird’, que se apresenta hoje na bienal INDEX, e em entrevista ao Shifter.

O Shifter é media partner da bienal INDEX Media Arts, este ano dedicado à interseção dos temas Poder, Arte e Tecnologia. INDEX decorre em várias salas de espetáculos de Braga e online, de 7 a 17 de maio. Podes consultar a programação completa aqui.

Pode o vento testemunhar um genocídio? E pode a tecnologia ajudar-nos a convocá-lo para a história?

Entre 1904 e 1908, no sudoeste africano, onde hoje se localiza a Namíbia, o exército alemão protagonizou aquele que ficou conhecido como o primeiro genocídio do século XX. Depois de uma revolta dos nativos contra a ocupação colonial e a constante segregação e opressão dos nativos, mais de 65 mil pessoas do povo Herero e 10 mil do povo Nama foram perseguidos pelas tropas germânicas e, ora mortos em massacres ora condenados à morte por subnutrição e desidratação no deserto.

A população dos Herero ficou reduzida a cerca de vinte por cento, e a dos Nama perto da metade. Depois do genocídio, pouco ficou. Os povos afastados dos centros de poder não tiveram oportunidade de registar a sua história, e a ocupação colonial no terreno fez questão de ocultar as provas da chacina. O apagamento histórico foi de tal ordem que só em 2015 a Alemanha reconheceu oficialmente o genocídio. E até há bem pouco tempo, turistas podiam acampar na Shark Island, onde outrora fora um campo de concentração e onde até hoje se vão procurando por despojos que ajudem a perceber e a reconstruir o que se passou.

Este é o ponto de partida de The Drum and The Bird, espetáculo do coletivo Forensis em parceira com o músico Bill Kouligas, que se apresenta hoje (7 de maio) na bienal Index Media Arts, em Braga. É também o ponto de partida de Mark Mushiva, namibiano, um dos membros do coletivo, descendente de guerrilheiros da libertação e militantes do Pan-Africanismo, fundador da plataforma The Institute for Decolonial Technology e um dos co-criadores deste espetáculo imersivo que, a partir das reivindicações dos indígenas, utiliza a tecnologia para confrontar o público com a face escondida de uma história macabra.

Pensado para estimular todos os sentidos, com som e visuais distribuídos no espaço e envolvendo o espectador — com o som do vento da memória e tradição oral indígena como protagonistas —  The Drum and The Bird é mais do que aquilo que se vê e ouve. É o resultado de uma investigação que tem ajudado a descobrir novas pistas sobre o que realmente se passou, e até tem contribuído para a definição de políticas de preservação da memória. É também o conjunto de questões que provoca ao espectador sobre o apagamento de registos coloniais. E sobre o potencial da tecnologia para os recuperar de uma forma a reconstruir os imaginários dominantes.

Pouco antes da apresentação do espetáculo ao vivo no Theatro Circo, falámos com Mark Mushiva, que no momento do nosso encontro estava de regresso a Berlim, a base de Forensis. Quisemos conhecer melhor o artista, mas também perceber a genealogia desta obra que lhe é tão próxima. Nesta conversa, o namibiano explora o seu afropessimismo e a forma como inspira a sua perspectiva em relação à tecnologia, num tempo em que o seu uso corrente continua a servir os poderes hegemónicos e a omitir passados e presentes de desigualdade colonial.

João Gabriel Ribeiro (J.G.R.) Antes de mais, como descreverias a tua prática: vês-te como investigador, ativista, artista? Vi numa entrevista que, para ti, tudo isto está interligado — este esbatimento das fronteiras entre práticas é, em si mesmo, uma parte importante da tua história?

Mark Mushiva (M.M.) — Sim, diria que sou um artista multidisciplinar, afro-futurista e investigador, multifacetado nesse sentido. Não sei se alguma vez conseguirei descrever a minha prática com apenas um título, decolonial creative technologist é o meu favorito mais recente. Venho de uma parte do mundo que é muito diversificada, onde a pessoa comum fala mais de duas línguas, e acho que isso me moldou para ter curiosidade sobre a forma como as coisas estão interligadas. Tento otimizar o que faço através da investigação, da construção e da narrativa. Acho que todas essas coisas são úteis como futurista.

J.G.R.No teu trabalho, exploras e investigas formas de tecnologia decolonial. Podes explicar em que áreas específicas se foca essa exploração — o que pode tornar uma tecnologia decolonial?

M.M. — Penso que seria exagerado afirmar que a tecnologia é decolonial, pelo menos não é de forma inerente, uma vez que grande parte foi desenvolvida no contexto de histórias de exploração ligadas ao colonialismo e à escravatura. No entanto, considero que a tecnologia pode oferecer possibilidades decoloniais e apoiar objetivos decoloniais, nomeadamente ao tornar visíveis as continuidades coloniais e ao projetar narrativas decoloniais do futuro. Para mim, estes são os dois usos mais profundos das tecnologias e a base do que se poderia designar por tecnologia decolonial.

J.G.R.Fundaste o Institute for Decolonial Technology. Em que consiste o trabalho deste instituto? É mais do que uma prática artística em si mesma — a ideia é criar coisas concretas que demonstrem que outra forma de tecnologia é possível?

M.M. — Sim, exatamente isso. O The Institute for Decolonial Technology é uma plataforma especulativa que utilizo para lançar algumas das minhas ideias, pelo que se pode dizer que é a minha prática criativa. Centra-se na exploração das possibilidades decoloniais da tecnologia; a maior parte do trabalho ou da arte que desenvolvi no instituto são protótipos que, por um lado, funcionam e, por outro, especulam sobre como enfrentar uma determinada situação de capitalismo desenfreado e supremacia branca. Acho que não basta que artistas ou filósofos se limitem a teorizar sobre os problemas. Para mim, construir coisas é parte integrante da minha forma de pensar; tudo o que construo ilumina ligeiramente um mundo decolonizado e, quanto mais protótipos construo, mais este mundo ganha resoluções. A materialidade dos protótipos proporciona-me uma forma tátil de interagir com o mundo que desejo. Às vezes, as pessoas abordam-me e dizem-me que posso ganhar dinheiro com um protótipo que criei, mas, nesse momento, deixa de ser interessante para mim, porque sou mais protótipo do que produto. Os protótipos são melhores a suscitar questões e acho que precisamos de mais tecnologia que seja como a arte, no sentido em que nos convida a fazer perguntas. Esta é a premissa do The Institute for Decolonial Technology.

J.G.R.Parece haver uma sobreposição entre as críticas ao capitalismo e as críticas à tecnologia, como se toda a tecnologia fosse inerentemente capitalista. Procuras desafiar um pouco esta perspetiva, certo? Fala-nos mais sobre isso.

M.M. — Bom, tenho este adágio no Manifesto Acelaracionista Africano que estou a escrever, que diz: “Os condenados da terra construíram o chip do computador”. Esta frase perturba a noção de que a tecnologia tem uma trajetória singular atribuível à civilização ocidental. A tecnologia de hoje é construída a partir de tecnologias emprestadas de outras culturas — a álgebra do Médio Oriente, a pólvora da China, e por aí adiante. Todas estas técnicas foram emprestadas de outras cosmologias tecnológicas, ou cosmotécnicas, como popularizou o filósofo chinês Yuk Hui, mas enquanto ideia provavelmente é comum a qualquer pessoa que conheça intimamente qualquer cultura indígena. De uma forma mais ampla, penso que também podemos dar resolução às outras formas de cosmologias tecnológicas que existiram antes de serem colapsadas na ideia de tecnologia como entendemos hoje, que está, em larga medida, dedicada à exploração da natureza enquanto reserva disponível, como dizia Heidegger. Isto tem a vantagem de pluralizar a tecnologia, de modo a que esta comece a assumir muitas formas que fazem coisas diferentes. Não creio que possamos excluir completamente as tecnologias atuais destas conceções, mas podemos construir híbridos que sirvam um propósito maior do que o capital. É assim que penso a tecnologia e as suas relações com a filosofia, e depois com o capitalismo.

“O Acelaracionismo Africano parte desta posição de extremo pessimismo para afirmar que o negro tem sim um horizonte político, e podemos ver parte dele no projeto inacabado do Pan-Africanismo; tenta assim pensar o que pode ser feito para ressuscitar essa visão através de um confronto não-humanista com a tecnologia”

J.G.R.O que pensas sobre os atuais desenvolvimentos da IA e a sua economia política, fortemente assente no capitalismo extrativista e na exploração do trabalho dos países em desenvolvimento?

M.M. — Sinceramente, acho que fui ultrapassado pelos desenvolvimentos recentes em IA. Penso que as pessoas que trabalham em tecnologia têm um medo existencial em relação a este tipo de tecnologias emergentes, algumas mergulham de cabeça no estudo de cada uma das suas facetas como forma de lidar com a ansiedade de não fazerem ideia do que se passa, enquanto outras, como eu, provavelmente limitam-se a ficar presas aos antigos paradigmas tecnológicos. Estou bastante entusiasmado com a IA, porque é uma dádiva para quem é multidisciplinar e trabalha entre vários meios e especializações. Se conseguires ignorar a falta de criatividade em áreas como a IA generativa e o vibe coding, acho que é um paraíso para a prototipagem. Quanto à exploração do trabalho dos países em desenvolvimento, tudo o que posso dizer é: o que há de novo?

J.G.R.Defendes um Acelaracionismo Africano, em oposição às formas predominantes de acelaracionismo. O que caracteriza este acelaracionismo africano em oposição ao acelaracionismo de esquerda e de direita? E quais são as tuas perspetivas futuras, achas que este ponto de saturação das big tech pode ser o momento para mobilizar em torno destas ideias alternativas?

M.M. — Em primeiro lugar, o Acelaracionismo Africano rejeita estas direcionalidades políticas de esquerda e direita, inspirando-se de certo modo no Pan-Africanismo não-alinhado dos anos 1950 em diante. Penso que os acelaracionistas de esquerda estão constantemente em desvantagem, porque a maior parte das articulações pela liberdade é inteiramente conceptualizada a partir do conceito de trabalhador — este arquétipo é uma invenção europeia, do ponto de vista marxista, e atinge os seus limites quando a classe é o princípio divisor. Para as pessoas negras, como Frank B. Wilderson do Afropessimismo sublinha, o negro não é um trabalhador; é, na verdade, um para-sujeito não-humano, com um horizonte de liberdade completamente distinto. O Frank argumentaria que não tem horizonte algum, nenhum arco narrativo.

O Acelaracionismo Africano, contudo, parte desta posição de extremo pessimismo para afirmar que o negro tem sim um horizonte político, e podemos ver parte dele no projeto inacabado do Pan-Africanismo; tenta assim pensar o que pode ser feito para ressuscitar essa visão através de um confronto não-humanista com a tecnologia. Na luta de libertação que acompanhou o Pan-Africanismo, pessoas como os meus pais, que foram combatentes pela liberdade, não estavam interessadas na tecnologia pelos seus valores humanistas/ubuntu — estavam interessadas na sua utilidade militar e estratégica para libertar um continente negro. A velocidade era instrumentalizada como arma para promover a libertação do sujeito negro, ainda que essa missão nunca tenha sido completada. O Aceleracionismo Africano começa a traçar o interior de uma filosofia técnica que se questiona sobre o que Frantz Fanon, Kwame Nkrumah ou Winnie Mandela e figuras semelhantes articulariam como um programa político ou mesmo estético, tendo a tecnologia informática como foco principal. Não da forma que convida à violência económica gratuita e ao sofrimento humano, como Nick Land e outros aceleracionistas de direita, mas sim ao questionar de que forma a tecnologia, particularmente quando praticada por criadores, designers de jogos, programadores de software e engenheiros africanos, lida com a política do humano endémico na própria tecnologia.

“Gosto de fazer coisas físicas porque isso fala do processo violento de extração de grande parte destes metais da terra; torná-lo visível permite-nos fazer perguntas que aqueles que constantemente miniaturizam as tecnologias querem que esqueçamos”

J.G.R.No teu trabalho exploras extensivamente a dimensão física da computação. Acreditas que esta mudança (da computação hipervisual para uma computação mais física) pode ser um catalisador para imaginar a tecnologia de forma diferente? Estes pequenos gestos também são importantes?

M.M. — Sim, absolutamente. A partir do velho meme do jogo Portal, “The Cake is a Lie”, gosto de dizer que “a cloud é uma mentira” — a maior parte da computação é física, tudo tem de correr em hardware físico, por enquanto, devido aos problemas de manipular a matéria ao nível quântico. A minha estratégia é talvez semelhante à de Donna Haraway, na medida em que invoco sempre o corpo, invoco o físico. Quando temos um pequeno serviço conveniente, como uma app, penso nos corpos dos quais ela depende em pano de fundo. Gosto de fazer coisas físicas porque isso fala do processo violento de extração de grande parte destes metais da terra; torná-lo visível permite-nos fazer perguntas que aqueles que constantemente miniaturizam as tecnologias querem que esqueçamos. 

Construir coisas de computação física a um nível pessoal também te dá pausa a ti, enquanto construtor, para contemplares plenamente as implicações daquilo que estás a construir e o que queres exatamente dizer ou fazer com isso. O making é muito divertido e acessível, pelo menos na Europa, portanto não está distribuído uniformemente, e é por isso que penso, como diz William Gibson, que o futuro não está distribuído uniformemente. Fazer coisas e partilhá-las através da minha música dá, pelo menos à minha comunidade, um vislumbre do que é possível.

J.G.R.Na peça apresentada no Index, a narrativa centra-se no genocídio na Namíbia, usando a tecnologia para convocar outros testemunhos da história. Acreditas no potencial da tecnologia para esta contra-vigilância e mesmo para resgatar testemunhos humanos e não-humanos que a história descartou?

M.M. — Absolutamente, mas não a tecnologia pela tecnologia. Nas investigações com a Forensic Architecture, a pesquisa foi guiada por reivindicações indígenas de justiça e reparação e, em algumas partes, até por epistemologias indígenas namibianas que nos forçaram a considerar os limites das tecnologias com que estávamos a trabalhar. Por cada tecnologia que incluímos, tivemos de abandonar o uso de muitas mais, porque simplesmente não se alinhavam com aquilo que estávamos a tentar fazer — é bastante assustador ver o quão colonial a tecnologia é, por vezes.

J.G.R.Li que um dos resultados da investigação que tens vindo a conduzir foi o fim do turismo nestes locais de que falas, por exemplo. Pode parecer algo menor, mas acreditas que é através destes pequenos passos que os imaginários são moldados e reconstruídos?

M.M. — Sim, é isso mesmo. Durante décadas, os turistas — na sua maioria europeus — foram autorizados a acampar em Shark Island, que foi o primeiro campo de extermínio do século XX. Os prisioneiros Ovaherero e Nama que sobreviveram à ordem alemã de extermínio foram escravizados até à morte lá. É um lugar que carrega uma história muito sombria, e só recentemente é que o governo namibiano decidiu pôr fim às actividades turísticas no local e designá-lo património nacional. Isto foi conseguido pela pressão dos nossos parceiros, que usaram meios legais sustentados nas provas que produzimos em conjunto. Infelizmente, é sinal de que, nos estados pós-coloniais, há economias de memória em competição e, por vezes, os legados mais antigos do colonialismo alemão em África só agora estão a começar a ser devidamente confrontados. Acho que tens razão em sublinhar a importância dos imaginários que dominam aquilo que é digno de comemoração. O nosso trabalho é apenas um exemplo de como a arte, a ciência, a tecnologia e a narração de histórias podem ser usadas para gerar imaginários mais decoloniais. Esperemos que haja mais exemplos à medida que mais países se confrontam com as suas histórias coloniais.

Autor:
  • O João Gabriel Ribeiro é co-fundador e editor do Shifter. É auto-didacta obsessivo e procura as raízes de temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

     

(Shifter)