Pela primeira vez desde a era Apollo, os seres humanos preparam-se não apenas para visitar. mas para viver e trabalhar na Lua lá durante semanas, meses — e, eventualmente, anos. Mas como será, na realidade, passar um período prolongado na superfície lunar? A resposta é empolgante — e implacável.
Está a abrir-se uma nova e entusiasmante era de exploração do espaço profundo. O programa Artemis, dos Estados Unidos, pretende instalar uma base avançada na superfície da Lua. Trata-se de uma mudança fundamental na forma como exploramos o espaço.
Em vez de se limitar a deixar “bandeiras e pegadas”, como fizeram os astronautas das missões Apollo, a NASA quer estabelecer uma presença humana contínua na Lua, começando pelo polo sul lunar.
O programa desenvolve-se por etapas. Em 2022, a missão Artemis I testou com sucesso o foguetão Space Launch System (SLS) e a nave Orion como sistema integrado, numa missão não tripulada em torno da Lua.
A 1 de abril de 2026, a NASA lançou a Artemis II, uma missão de dez dias que transporta quatro astronautas numa viagem à volta da Lua.
Sendo o primeiro voo tripulado da Orion e do SLS, esta é uma missão decisiva, concebida para verificar se os sistemas de suporte de vida, navegação, proteção térmica e operações no espaço profundo funcionam todos em segurança com seres humanos a bordo. Antes de os astronautas poderem viver na Lua, a viagem até lá tem de provar ser fiável.
Para lá destas primeiras missões, a visão de longo prazo da NASA vai muito além de uma única alunagem.
A agência espacial norte-americana prevê investir 20 mil milhões de dólares (cerca de 17 mil milhões de euros) numa base à superfície lunar, destinada a apoiar estadias repetidas e progressivamente mais longas.
O objetivo é aprender a operar de forma sustentável para além da Terra — conhecimento que, no futuro, servirá de base às missões humanas a Marte, a grande meta no horizonte.
Viver na Lua irá pôr à prova todos os sistemas orgânicos do corpo humano. O ambiente lunar expõe os astronautas a um exposoma espacial único — o conjunto combinado de fatores de stress físicos, químicos, biológicos e psicológicos encontrados para lá da Terra.
Entre eles contam-se a gravidade reduzida (cerca de um sexto da terrestre), a exposição crónica à radiação cósmica, oscilações extremas de temperatura, poeira lunar tóxica, isolamento, perturbações dos ciclos de sono e vigília e confinamento prolongado.
Ao contrário dos astronautas em órbita baixa da Terra, as tripulações lunares operam em grande medida fora do campo magnético protetor do planeta, o que aumenta a exposição à radiação espacial, que pode danificar o ADN, perturbar o funcionamento do sistema imunitário e afetar o cérebro e o sistema cardiovascular de formas subtis, mas potencialmente graves.
A gravidade reduzida altera também de forma profunda a maneira como o sangue, o oxigénio e outros fluidos circulam pelo organismo. A microgravidade pode perturbar o modo como o sangue, o oxigénio e a glicose chegam ao cérebro, aumentando potencialmente, com o tempo, a vulnerabilidade a disfunções neurológicas e vasculares.
Para compreender devidamente estes riscos, é preciso olhar para além dos órgãos isoladamente e considerar o integroma espacial — a forma como cérebro, coração, vasos sanguíneos, músculos, ossos, sistema imunitário e metabolismo interagem como um todo integrado em condições espaciais. Uma pequena perturbação num sistema repercute-se nos restantes.
Um dos aspetos mais difíceis é que muitas das alterações fisiológicas associadas ao espaço se desenvolvem de forma insidiosa. Os astronautas podem sentir-se bem, enquanto as complicações se vão instalando sem sinais evidentes, tornando-se visíveis apenas meses ou até anos mais tarde.
É por isso que a NASA dá tanta importância à monitorização fisiológica de longo prazo e à mitigação dos riscos humanos na sua estratégia científica para o Artemis.
Reduzir o risco
A boa notícia é que os seres humanos têm uma notável capacidade de adaptação. O desafio está em orientar essa adaptação de forma segura e sustentável. As contramedidas espaciais são as ferramentas usadas para reduzir o risco e preservar a saúde dos astronautas.
O exercício continua a ser o elemento central. Na Estação Espacial Internacional, os astronautas passam cerca de duas horas por dia a treinar para proteger a massa muscular, a densidade óssea e a função cardiovascular.
Na Lua, porém, os sistemas de exercício terão de ser redesenhados para uma gravidade parcial, em que as cargas habituais na Terra já não se aplicam.
A nutrição é outra contramedida poderosa. A alimentação influencia a saúde óssea, a manutenção muscular, a resistência imunitária e até a forma como o corpo responde à radiação.
As estratégias de nutrição personalizada, ajustadas à fisiologia de cada indivíduo em vez de assentarem num menu “igual para todos”, deverão tornar-se cada vez mais importantes durante missões lunares prolongadas.
A gravidade artificial está também a ser estudada. Centrífugas de raio curto poderão expor os astronautas a breves períodos de maior carga gravitacional, ajudando potencialmente a estabilizar os sistemas cardiovascular e neurovascular. Embora continue a ser uma abordagem experimental, poderá revelar-se valiosa em futuras missões de superfície.
A proteção contra a radiação dependerá de várias camadas de defesa, entre as quais a blindagem dos habitats, eventualmente com estruturas feitas de solo lunar, sistemas de alerta precoce para tempestades solares e estratégias operacionais que limitem a exposição durante períodos de maior risco.
Acima de tudo, as contramedidas devem ser proativas e não reativas. A monitorização fisiológica contínua, os sensores vestíveis e a análise avançada de dados poderão permitir às equipas das missões detetar sinais de alerta precoce e intervir antes que pequenos problemas se transformem em limitações graves.
Passar longos períodos na Lua será deslumbrante. Imagine-se a ver a Terra suspensa, imóvel ao longe, sobre um horizonte austero e silencioso, ou a trabalhar sob um céu que nunca fica azul.
Mas será também exigente, desconfortável e implacável. A Lua não é apenas um destino — é um teste à nossa biologia. Ao aprendermos a viver noutro corpo celeste, talvez acabemos por aprender tanto sobre a vida na Terra como sobre o nosso futuro para lá dela.
(ZAP)
