Lift-off! A Orion está a caminho da Lua, com 4 astronautas a bordo

By | 03/04/2026

A missão Artemis II da NASA partiu rumo à Lua, levando seres humanos em direcção ao satélite pela primeira vez em mais de 50 anos. Quatro astronautas iniciaram uma missão de dez dias durante a qual vão contornar a Lua, lançando as bases para colocar seres humanos na superfície lunar já em 2028.

Pela primeira vez em mais de 50 anos, seres humanos partiram rumo à Lua: Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da NASA, e Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadiana.

Os quatro astronautas a bordo da cápsula Orion, da NASA, descolaram neste dia 1 de Abril, às 23.35 de Portugal, do Centro Espacial Kennedy, na Florida, para a muito aguardada missão Artemis II, uma viagem de dez dias durante a qual vão contornar o satélite natural da Terra.

O countdown chegou a ser interrompido durante alguns minutos, para resolver um problema de última hora no sistema que permite abortar o lançamento e ejetar os astronautas caso alguma coisa corra mal.

Mas por fim lá se ouviram os responsáveis de cada sistema dizer os habituais “Booster, go”, “GNC, go”, “Range, go”, “All systems nominal”.

E finalmente… 10, 9, 8… booster ignition, and lift-off! Os poderosos motores do foguetão SLS rugiram, e a Orion ergueu-se do solo, rodeada de chamas, em direção ao céu.

Poucos minutos após o lançamento, os dois propulsores laterais de combustível sólido separaram-se da Orion, e a nave espacial concebida pela Boeing para a NASA seguiu a sua trajetória, cruzou a linha de Kármán — o limite que separa a atmosfera terrestre do espaço — e deixou a órbita da Terra, a caminho da Lua.

“Vista incrível. Estamos a ver um belo nascer da Lua“, disse Wiseman, comandante da missão, pelo sistema de comunicação da nave — que, por volta das 00h32 já desta quinta-feira, quase uma hora após o lançamento, gerou um arrepiante momento de suspense a quem estava a assistir à transmissão em direto.

Houston is not receiving communications from the spacecraft“, ouviu-se por várias vezes, durante alguns minutos, no Centro de Controlo da missão. Foi quase um momento “Okay, Houston, we’ve had a problem here“, mas aparentemente a tripulação conseguiu restabelecer as comunicações da nave.

Embora a tripulação não vá pisar a superfície lunar, a viagem vai ajudar a NASA a preparar a Artemis IV, missão prevista para 2028 que deverá permitir a um humano, pela primeira vez desde 1972, dar mais um passo gigantesco para a Humanidade em solo lunar.

O voo da Orion é análogo à missão Apollo 8 de 1968, na qual três astronautas orbitaram a Lua em preparação para futuras alunagens. As missões Artemis receberam este nome em homenagem à irmã gémea de Apolo na mitologia grega, que estava associada à Lua, nota a Nature.

“A Artemis II é o primeiro ato” do resto do programa, disse o administrador da NASA, Jared Isaacman, cerca de meia hora antes da descolagem, numa transmissão em directo. “Nunca nenhum ser humano voou antes na Orion, certo? E vamos pô-la verdadeiramente à prova”.

A nave levantou voo ao fim de uma tarde soalheira e com brisa, sob aplausos e gritos de entusiasmo dos espectadores na Florida, conta a Smithsonian. E há já uma geração que não podíamos aplaudir bravos heróis que se elevam no céu em direção ao nosso satélite natural, a 384 mil km de distância.

A Orion, impulsionada pelo potente foguetão Space Launch System (SLS), dará duas voltas à Terra, e fará depois uma passagem em torno da Lua, aproveitando a sua gravidade para ganhar impulso. É possível acompanhar a missão em tempo real no site da NASA.

NASA

Trajetória de voo da Artemis II com pontos de controlo

A 6 de Abril, os astronautas irão observar a face oculta da Lua a cerca de 8 mil quilómetros de distância. A essa distância, o astro parecerá ter dimensões semelhantes às de uma bola de basquetebol segurada com o braço estendido, explicou Jeff Radigan, director principal de voo da Artemis II, numa conferência de imprensa em Setembro.

A tripulação, acrescentou, poderá ir “mais longe para além da Lua do que alguma vez alguém foi”. Os astronautas terão vistas da superfície lunar que ninguém alguma vez observou com os próprios olhos.

O lançamento aconteceu, finalmente, após uma série de adiamentos. A janela de lançamento da Artemis II abriu inicialmente no início de Fevereiro, mas foi adiada para Março depois de terem sido detetadas fugas de hidrogénio líquido durante um teste de abastecimento; problemas no fluxo de hélio empurraram depois a missão novamente para Abril.

Quando os astronautas chegarem à vizinhança da Lua, passarão cerca de três horas a tirar fotografias e a recolher dados sobre a geologia da face oculta, incluindo crateras de impacto e indícios de antigos fluxos de lava.

Também estarão atentos a potenciais locais de alunagem para missões futuras, disse Mark Clampin, administrador adjunto da Direcção de Missões Científicas da NASA, numa conferência de imprensa sobre ciência e tecnologia em Setembro.

Os membros da tripulação vão ainda participar ainda em vários estudos sobre o impacto do espaço na saúde humana.

Uma das experiências envolve amostras de tecido de cada astronauta colocadas em chips do tamanho de uma pen USB, que seguem a bordo da Orion e ajudarão os investigadores a perceber de que forma o aumento da radiação e a microgravidade podem afectar órgãos humanos.

Além disso, cada astronauta usa um monitor no pulso para registar padrões de sono, níveis de actividade, interacções e bem-estar, e terá de lamber um papel especial para recolher amostras de saliva, que poderão dar pistas sobre a forma como o sistema imunitário responde no espaço.

O programa Artemis foi formalmente criado em 2017, quando a administração Trump instruiu a NASA a fazer regressar seres humanos à superfície lunar, com a esperança de lançar as bases para chegar ao Planeta Vermelho.

A primeira missão do programa, a Artemis I, consistiu num voo de teste não tripulado de 25 dias da Orion e do SLS. Foi lançada em Novembro de 2022, após vários anos de atraso.

O calendário da Artemis II também foi prolongado por vários anos: a missão estava inicialmente prevista para 2024. O adiamento deveu-se em grande medida ao trabalho dos engenheiros para resolver problemas na Orion detectados durante a Artemis 1.

O principal objectivo dessa primeira missão era demonstrar que o escudo térmico da cápsula resistiria à reentrada na atmosfera terrestre, uma fase que expõe a nave a temperaturas escaldantes até cerca de 2.760 graus Celsius.

Mas, quando os investigadores inspeccionaram o escudo depois da amaragem, encontraram danos inesperados. Durante a Artemis II, a Orion seguirá uma trajectória diferente no regresso à Terra, o que, segundo a NASA, reduzirá o tempo passado em temperaturas extremas e evitará o mesmo problema.

Se tudo correr conforme previsto com a Artemis II e com a nova versão da Artemis III, a agência pretende tentar realizar até duas alunagens tripuladas em 2028, sendo esperado que a primeira aconteça perto do enigmático pólo sul lunar.

A NASA prevê, no futuro, lançar missões Artemis com uma cadência aproximada de dez em dez meses e estabelecer um campo-base na Lua durante a década de 2030, um objetivo que, apesar de tudo, ainda nos parece um cenário de ficção científica — apesar de já terem passado umas décadas desde “Espaço 1999”.

(Armando Batista, ZAP)