Os Epstein Files quando tudo parece uma distração

By | 28/03/2026

Qual foi a coisa mais escandalosa que viste hoje? E qual foi a tua reação? Sentes que fizeste o suficiente? E o que achas que podias ter feito mais?

A menos que o leitor deste texto seja como o investidor de capital de risco Marc Andreessen que, numa entrevista recente, disse não fazer qualquer tipo de introspeção, por considerar a prática pouco produtiva, é provável que questões desta natureza o assombrem várias vezes.

Todos os dias, e a qualquer hora, imagens de pessoas mortas e feridas em guerra, de povoações e infraestruturas reduzidas a escombros, de mísseis a rasgar edifícios, de crimes hediondos e de desastres ambientais, preenchem os ecrãs onde fixamos o olhar. E o seu teor, cada vez mais extremo, combinado com uma sensação de impotência para o alterar, produz, inevitavelmente, uma inquietação que se instala na nossa mente e se esconde no nosso corpo. O padrão é tão evidente que scrollar entre desgraças já tem um nome. Mas será que compreendemos bem o que nos está a fazer? Individual e coletivamente?

Recentemente, e depois de uma longa luta pela publicação dos ficheiros do caso Epstein, 3,5 milhões de documentos — constituindo apenas uma parcela da totalidade — foram publicados online. Centenas de imagens provenientes deste lançamento começaram rapidamente a circular nas redes sociais. Fotografias de Jeffrey Epstein e dos seus convidados, de jantares privados com alguns dos homens mais poderosos do mundo, dos locais onde foram cometidos crimes abjetos, de presumíveis abusadores e das suas vítimas, juntaram-se ao fluxo. Sete anos após a morte de Epstein na prisão, enquanto aguardava julgamento por tráfico de menores para abuso sexual, estes ficheiros tornam irrefutáveis acusações hediondas e desmascaram uma elite cúmplice. Ainda assim, apareceram-nos no ecrã como tudo o resto: entre mais um meme, o resultado de um jogo de futebol e a última barbaridade dita por uma celebridade.

“Como é que não está toda a gente revoltada?”, “Porque é que não há mais pessoas a manifestar-se violentamente?”, “Onde estão os outros ficheiros?” Eram algumas das perguntas que circulavam após o lançamento — até que, de repente, um ataque concertado entre Israel e os Estados Unidos desviou o nosso choque para o Irão. Estamos na III Guerra Mundial pela enésima vez e, nas redes sociais, leio: é tudo uma manobra de distração. Sem entrar em teorias rebuscadas — que até podem revelar-se verdadeiras —, é difícil estabelecer uma relação direta entre os fenómenos. Correlação não é causalidade. Mas a sensação resiste à racionalidade e aponta para algo mais profundo: parece que tudo se tornou uma distração de outra coisa qualquer. 

Os memes relacionados com o caso Epstein vão-se adaptando a diferentes contextos.

A perversão da transparência

“O Steven Bannon e o Chomsky juntos na risota?”, “Vi uma fotografia do Jeffrey Epstein, está vivo e em Israel!”, “Já viste as fotos do príncipe Andrew?”, “A Ghislaine Maxwell é IGUAL ao retrato-robot do caso da Maddie”, “Não pesquises por cream cheese!!”, “Vítimas dos crimes de Epstein viram as suas identidades reveladas e pedem a eliminação de ficheiros”. Estes foram alguns dos comentários centrados em imagens dos Epstein Files com que me cruzei nos últimos meses, nas redes sociais. As mesmas imagens que alimentam alguns processos judiciais, alimentam teorias da conspiração e acusações instrumentais. O problema começa na forma como elas chegam até nós. Sugeridas por algoritmos, corroboradas por estranhos, envoltas em teorias, desprovidas de um contexto que nos permita fazer sentido do que vemos.

No ensaio Regarding the pain of the others, Susan Sontag dizia que todas as fotografias esperam por ser falsificadas pela sua legenda. Nos dias que correm, todas as imagens esperam por ser falsificadas pela sua constante des-contextualização. 

Se há umas décadas juraria ver para crer, hoje o meu olhar procura imediatamente a marca de água do Gemini, seis dedos numa mão, uma cara distorcida em segundo plano, a publicação original com meia dúzia de likes feita por uma conta anónima, ou qualquer outro sinal de que aquilo de que estamos a ver é fabricado. E, neste contexto, tão problemática quanto a produção de imagens falsas, é a transformação da nossa relação com as imagens verdadeiras. Algo que não nos afeta a todos da mesma maneira, e que marca, simultaneamente, uma profunda transformação da nossa relação com a realidade.

Entre os 3,5 milhões de páginas de documentos libertados pelo Departamento de Justiça norte-americano, contam-se mais de 180 mil imagens e 2 mil vídeos. Mas aquilo que se pode nomear como um dos maiores exercícios de transparência da História, dá-nos uma importante lição sobre a perversidade da transparência como um fim em si mesmo nos tempos que vivemos. Lançados em bloco, com erros de anonimização graves (com elementos fáceis de apagar ou sem proteger a identidade das vítimas) e ficheiros omissos (como ficheiros pdf que se revelavam vídeos ao alterar a extensão), e prontos para acabar em memes como qualquer outra coisa na internet, os documentos não só expuseram indevidamente a identidade de vítimas, como revelaram a profunda crise de mediação em que vivemos. E a divergência entre o tempo que precisamos para processar a informação e o nosso attention span.

“Entramos numa nova fase do espetáculo. Uma espécie de reality-show onde a fronteira entre a realidade e a ficção se confundem, e a avaliação dos atores não se rege necessariamente pela moral, mas pela sua capacidade para dar canal.

Um dos sites mais populares onde podemos consultar os Epstein Files é o Jmail. Nessa página é possível explorar os milhões de documentos como se estivéssemos na conta de e-mail de Epstein. Navegar entre provas de crimes como quem procura um e-mail perdido com uma palavra-passe ou bilhetes comprados há meses para o teatro. Podemos alegar que o formato reconhecível nos ajuda na pesquisa — pessoalmente duvido — mas a interface é mais do que uma estrutura, ou um modelo de organização. Remete-nos para uma experiência familiar que normaliza algo que não tem nada de normal. O cenário que nos expõe uma quantidade massiva de informação, induz-nos numa estranha proximidade ao lugar do criminoso, mais do que nos ajuda a reconhecer a nossa posição em relação aos crimes. Como se se tratasse de um jogo de roleplay, que vale pelo seu poder lúdico e de nos entreter, mais do que por nos aproximar de alguma compreensão ou consequência na vida real.

Explicações das relações entre os documentos, teorias da conspiração sem qualquer cabimento, documentos e imagens falsas, memes e piadas sobre o caso, convivem, misturam-se e confundem-nos. Somos tentados a acreditar em informações duvidosas e dessensibilizados em relação ao que parece demasiado mau para ser verdade. Tudo se torna num quiz infinito, no qual nunca sabemos bem qual a resposta certa.

“À medida que o número de imagens aumenta, estas são como um rio, parafraseando uma frase do filólogo alemão [Nietszche]; correm ferozmente em direção ao seu fim, mas não refletem qualquer luz solar”, escreve Alessandro Sbordoni em Beyond The Image (2025). No livro, Sbordoni analisa o papel das imagens ao longo do século e sugere que desde que o nosso olhar é quantificável e as imagens se tornaram uma mercadoria produzida à medida de cada um, foram perdendo o seu valor até se tornarem lixo. Não se trata tanto de um caso em que as imagens, individualmente, perdem todo o seu valor, mas da forma como os discursos em que se inserem deixam de produzir um sentido coletivo do que vivemos.

Entramos numa nova fase do espetáculo. Uma espécie de reality-show onde a fronteira entre a realidade e a ficção se confundem, e a avaliação dos atores não se rege necessariamente pela moral, mas pela sua capacidade para dar canal. A transparência não traz compreensão, nem responsabilização, alimenta a encenação. Se Sontag dizia que as imagens chocantes “criam a ilusão de consenso”, hoje em dia até a ilusão sobre o próprio consenso está posta em causa. Cada um de nós vive imerso no seu próprio espectáculo, personalizado pelos algoritmos.

“Neste momento, e como este caso revela melhor do que qualquer outro, a realidade parece uma teoria da conspiração tanto quanto a teoria da conspiração parece a melhor forma de descrever a realidade.”

Epstein Files no Pós-Epstein World

Tradicionalmente a censura e a supressão de informação eram as principais armas das ditaduras; na era da informação mercantilizada e mediada por algoritmos, altamente proprietária, a estratégia inverte-se. A imposição da autoridade através do apagamento foi gradualmente substituída pela exploração da desconfiança estrutural. Quando ninguém sabe em que acreditar, nenhuma informação precisa de ser sonegada.

No final dos anos 30, Virginia Woolf publicava Three Guineas, um livro que foi lido como um manifesto anti-guerra no qual Woolf defende que o choque produzido pelas imagens de guerra terá necessariamente um efeito mobilizador nas pessoas. Já no início dos anos 2000, com a guerra em directo na TV, Susan Sontag escreve Regarding the Pain of Others apontando a ingenuidade de Woolf que o tempo tinha revelado. Mais uma vez, reapropriando a ideia para os dias de hoje e aplicando o mesmo racional a outras imagens que não só as da guerra, no tempo das redes sociais o choque não só perdeu o efeito mobilizador, como se tornou no seu perfeito oposto: num motor de fragmentação e isolamento. Não somos convidados a aprender, compreender ou inteligir, somos obrigados a navegar sozinhos por um mar de informações contraditórias, a policiar a nossa própria credulidade e a reagir de forma instantânea. 

A verdade mediada por algoritmos habita um espaço liminar. A facilidade com que as narrativas se contaminam — e nos contaminam — induz-nos numa espécie de psicose coletiva. Neste momento, e como este caso revela melhor do que qualquer outro, a realidade parece uma teoria da conspiração tanto quanto a teoria da conspiração parece a melhor forma de descrever a realidade. E os nossos instrumentos de mediação não estão preparados para desenlear este nó. Perdemos completamente o fio à meada ou, em linguagem de internet, o sentido da thread.

Qual foi a coisa mais escandalosa que viste hoje? E qual foi a tua reação? Sentes que fizeste o suficiente? E o que achas que podias ter feito mais? São perguntas que nos perseguem e que denunciam a forma como no panorama atual até a construção de sentido do mundo passou a ser um empreendimento individual, mais do que um desígnio coletivo. Tal como no mito da meritocracia neoliberal, o problema desta reconfiguração do espaço público é que ignora que nem todos partimos do mesmo ponto, nem todos dispomos das mesmas ferramentas para agir face ao que vemos e que o campo de disputa está estruturalmente deformado.

“Afinal de contas, é no X que fazemos threads sobre Musk, no Instagram que nos indignamos contra Zuckerberg, nos nossos PCs que escrevemos manifestos contra Bill Gates ou por servidores da Amazon que passam as nossas mensagens — mesmo as que têm um maior teor revolucionário.”

Se é provável que uma pessoa engajada na temática dos Epstein Files ainda continue a receber informações sobre o caso, as publicações jornalísticas e notícias das investigações judiciais, é fundamental assumirmos que outra pessoa com o mesmo tempo de ecrã nem sequer se tenha cruzado com qualquer dado sobre o caso. Embora possa soar impressionante, é provável que quem tenha poder para fazer alguma coisa com estas imagens nem sequer as tenha visto como nós. Se a televisão convoca um olhar partilhado, o ecrã do telemóvel entorpece-nos e distorce a dimensão relacional do olhar — todos vemos coisas diferentes, tiramos conclusões diferentes sobre o que vemos, e não temos instrumentos de articulação entre as diferentes perspetivas.

Neste caso podemos mesmo afirmar que, embora não tenham sido os visados a determinar a libertação dos ficheiros, esta dá-se num universo moldado pelo exercício da influência que os próprios ficheiros revelam. Desde os jantares com a nata da Big Tech, ao misterioso encontro com o fundador do 4chan dias antes do lançamento do r/pol — uma das maiores fontes de teorias da conspiração da internet —, passando pelos contactos com figuras influentes da academia à política um pouco de toda a parte do mundo, são diversos os exemplos que nos mostram como os Epstein Files são libertados num Pós-Epstein World. Neste mundo, o choque tornou-se norma, a mediação tornou-se parte indistinguível da paisagem mediática e a energia das nossas reações é captada de forma a retro-alimentar o sistema. Afinal de contas, é no X que fazemos threads sobre Musk, no Instagram que nos indignamos contra Zuckerberg, nos nossos PCs que escrevemos manifestos contra Bill Gates ou por servidores da Amazon que passam as nossas mensagens — mesmo as que têm um maior teor revolucionário. E todas estas reações se convertem em pontos de dados que determinam a próxima informação a que vamos ser expostos. 

A distração tornou-se mais do que um mecanismo de condicionamento intencional: é o padrão corrente de um ecossistema mediático que só produz aceleração. O choque deixou de criar uma rutura — um silêncio que nos deixa sem palavras — para promover ainda mais a aceleração. Neste contexto, as assimetrias na capacidade de produção e de alterar a normal difusão das imagens (e informações no geral) tornam-se mais importantes do que as próprias imagens e as realidades que as representam. Não é por acaso que o próprio Epstein teria um hacker pessoal e uma equipa de especialistas em SEO responsáveis por afundar em spam as notícias e os resultados de pesquisa que lhe fossem desfavoráveis.

Longa vida à imaginação

Perante este diagnóstico, é tentador apressarmo-nos a encontrar soluções ou ter a arrogância de nos julgarmos imunes aos efeitos. Sair das redes sociais, arranjar um brick-phone, ir viver para a floresta. Acreditar que somos donos da verdade, que as nossas crenças são imunes à conspiração e que conseguimos discernir os limites do que é ou não real. Contudo, por muito que se assemelhe, essa não é tanto a cura para o problema, é uma forma de reiteração que o mimetiza e reforça — na medida em que se define a partir do mesmo movimento de individualização.

Se a internet se popularizou sob a promessa da transparência, da disseminação da informação e da conexão, talvez o maior engano tenha sido acreditar que isso bastaria para produzir mais compreensão. A incerteza que sentimos hoje não é o fracasso da promessa — é o produto da crença na tecnologia para resolver um problema cultural e social. Como Mark Fisher descreveu em 2013 numa entrevista com Franco Berardi: “Os smartphones e o ciberespaço não aceleram a cultura tanto quanto sobrecarregam o sistema nervoso humano com quantidades incontroláveis de estímulos”.

Fisher e Berardi concordavam no problema, mas discordavam da forma de sair desse impasse. Se Fisher acreditava na disputa imediata pelo cérebro social — ocupar espaço nas ecologias mediáticas e disputar a política parlamentar — Berardi defendia a necessidade de dar um passo atrás e compreender “por que a sociedade se submeteu tão facilmente?”

Passaram mais de 10 anos sobre esta conversa entre os dois intelectuais, e a tendência não se inverteu. Na última década, os ecrãs móveis de smartphones ou tablets tornaram-se mesmo no principal dispositivo de consumo de media, as grandes redes sociais proprietárias consolidaram ainda mais o seu domínio sobre o nosso tempo, e o volume de dados criados continuou a aumentar exponencialmente. E, ao mesmo tempo, a sensação é de que a estagnação cultural não só se manteve como se começou a materializar num retrocesso social e político.

“Se a autonomia é limitada e a solidariedade social foi destruída pela precariedade e a competição, o atrofio da imaginação é o último estágio da manobra de hipnose coletiva a que devemos resistir.”

A explicação ensaiada por Berardi para a fácil submissão ganha, com esta aceleração, ainda mais significado. O problema não é não termos acesso à informação, é que o sistema em que estamos envolvidos nos obriga permanentemente a esquecer o que sabemos para que possamos continuar a viver a única vida que imaginamos e conhecemos: “O problema é a autonomia – a capacidade real de se desvencilhar dos automatismos que sustentam o poder”, sugere Berardi.

Perante tudo isto, ao ritmo das nossas expectativas e das nossas derrotas, um exame mais cínico pode induzir-nos numa espiral de frustração nihilista e numa desconfiança latente no coletivo entorpecido. Não será com certeza um ensaio a aproximar-nos de uma revolução, a inverter o edifício plutocrático em que se tornaram as sociedades ocidentais, ou a lançar as bases para a coletivização do proletariado. Mas talvez seja nessa perceção de inutilidade que reside o seu valor.

Tudo nos desafia a reações instantâneas, a esgotar um assunto nas primeiras horas, a oferecer soluções rápidas e estratégias milagrosas para problemas complexos, a exprimir o essencial em 3 segundos e a desenvolver teorias reconfortantes sobre como podemos mudar o mundo sem sair do scroll — e a fazer disso a estratégia de conteúdos para crescer no Instagram. E é precisamente por isso que fazer algo que aparenta ser inútil é ir para além do que é imposto pelos algoritmo. Pode não trazer imediatamente a mudança que queremos no mundo, mas serve de atrito à distração. Cria uma fissura no contínuo, pára o scroll individualista e dá tempo para que surja a introspeção. Se a autonomia é limitada e a solidariedade social foi destruída pela precariedade e a competição, o atrofio da imaginação é o último estágio da manobra de hipnose coletiva a que devemos resistir. Nesse sentido, a única coisa que está ao nosso alcance mudar é a imaginação uns dos outros — e esse trabalho não se faz alimentando algoritmos, nem com empreendimentos individuais, que reforçam as estruturas de poder; mas através de relações, da partilha de sensações e do realinhamento entre o tempo da cultura e o tempo dos nossos corpos. Através do resgate da conspiração no seu sentido original, o de respirarmos juntos. Mesmo que essa respiração, por vezes, seja um suspiro.

(Shifter)