Milhares de pilotos de drones do dia a dia estão a criar uma espécie de “Google Street View”, visto do céu. A frota colaborativa de drones da Spexi já mapeou mais de 20 mil km2 em 200 cidades no Canadá e nos EUA. Qualquer pessoa pode “alugar” o seu drone — e ajudar a criar uma nova imagem do mundo.
Em 1858, Gaspard-Félix Tournachon, mais conhecido por “Nadar”, captou as primeiras fotografias aéreas de que há registo com uma câmara presa a um balão de ar quente, nos arredores de Paris.
Desde então, os tecnólogos têm vindo a desenvolver formas cada vez mais sofisticadas de recolher imagens da Terra a grande altitude.
Na Primeira Guerra Mundial, a espionagem militar fez esta tecnologia passar de curiosidade artística a ferramenta com aplicação no terreno. Atualmente, áreas tão distintas como o planeamento urbano, a avaliação de risco no sector segurador e a resposta a catástrofes dependem de imagens detalhadas, de alta resolução e muitas vezes em 3D do nosso planeta.
Em domínios emergentes como a robótica autónoma e a realidade aumentada, criar uma cópia digital do mundo físico é um dos projectos de infra-estruturas mais consequentes deste século, nota o Singularity Hub.
Embora a captação aérea mais tradicional continue a assentar em aviões, satélites e, pontualmente, até pombos, o setor está agora também a virar-se para drones de baixo custo.
Bill Lakeland, director-executivo e cofundador da Spexi, empresa canadiana de captação de imagem por drones, diz que a evolução dos drones de consumo ao longo da última década está a transformar a imagem aérea.
Numa entrevista recente no canal de YouTube de Joseph Raczynski, Lakeland explica de que forma os drones de baixo custo estão a perturbar métodos mais antigos, baseados em aviões e satélites.
“Estamos a obter melhores dados com microdrones do que os que conseguimos com uma câmara de cartografia de 2 milhões de dólares. O momento chegou”, afirma.
Segundo a Spexi, como os drones disponíveis no mercado voam a baixa altitude, conseguem produzir imagens com uma resolução 30 vezes superior à dos satélites.
Os drones são também mais eficientes em termos de custo e exigem menos tempo do que os aviões. Isso faz com que estejam rapidamente a assumir um papel central.
O que distingue a Spexi é o facto de, em vez de operar uma frota própria, trabalhar com uma rede descentralizada de entusiastas. Qualquer pessoa com um drone pode descarregar o software da empresa para realizar de forma autónoma uma rota de voo previamente definida e captar, a pedido, as imagens necessárias.
Segundo Lakeland, cada voo cobre cerca de 1 km2 em pouco mais de 60 minutos. Um piloto pode esperar ganhar cerca de 100 dólares por hora, havendo quem consiga arrecadar várias centenas de dólares por dia.
Até agora, a rede da Spexi, com mais de 8.000 pilotos de drones, já mapeou mais de 20 mil km2 em mais de 200 cidades do Canadá e dos Estados Unidos. Com estes dados, a Spexi quer construir uma espécie de Google Street View a partir do céu.
Vale a pena lembrar que o investimento, nunca confirmado oficialmente, atribuído à Google para o Street View ultrapassou mil milhões de dólares, numa operação que assentou na recolha de dados com câmaras montadas em automóveis.
Embora se tratasse de um tipo de informação diferente, a compra da Waze pela Google, em 2013, deu-lhe acesso a dados cartográficos recolhidos de forma colaborativa pela plataforma, gratuitamente, a partir de 40 milhões de utilizadores.
Segundo a Bloomberg, os profissionais do sector florestal já estão a tirar partido de dados recolhidos por drones para ajudar a prevenir incêndios rurais: estão a usar imagens da Spexi para treinar modelos de inteligência artificial capazes de alertar os gestores florestais para zonas de elevado risco de incêndio.
De forma semelhante, as seguradoras estão a recorrer à Spexi para avaliação de risco, subscrição e processamento de sinistros. Na realidade aumentada e na robótica, os dados recolhidos por drones também podem servir para criar mapas 3D destinados a sistemas de posicionamento visual.
Com este tipo de dados 3D para treino, as empresas estão também a desenvolver modelos generativos do mundo, que ajudam a IA a compreender o mundo físico.
A ascensão da imagem por drone ainda não significa o fim de outras abordagens, e não é claro até que ponto a indústria será servida por drones em vez de outros meios; com efeito, a corrida para dominar o mercado da imagem por satélite está também a intensificar-se.
E afinal o projecto artístico de Tournachon, no século XIX, não era assim tão diferente da actual recolha de imagens: prender uma câmara a um objecto voador e fotografar a Terra. A principal diferença, no entanto, é que estas imagens passaram de simples curiosidade a activo digital que alimenta o mundo moderno.
(ZAP)
