Objeto metálico com 5.300 anos pode ser o mais antigo berbequim rotativo conhecido — e antecipa tecnologia pré-faraónica.
Um pequeno objeto metálico, descoberto há quase um século num cemitério no Alto Egito, foi recentemente reinterpretado como o mais antigo berbequim rotativo alguma vez identificado em contexto arqueológico egípcio.
A pequena peça, com menos de 64 milímetros de diâmetro e menos de dois gramas de peso, terá sido produzida no final do 4.º milénio a.C., durante o período Egito Pré-dinástico, ou seja, muito antes do reinado dos primeiros faraós.
A reavaliação do artefacto foi apresentada num estudo, publicado na revista Egypt and the Levant, que está assinado por uma equipa de arqueólogos da Universidade de Newcastle, em colaboração com a Academy of Fine Arts Vienna. Os autores, citados pelo The Debrief, classificam o objeto como uma ferramenta de perfuração “mecanicamente sofisticada” para a época e defendem que o mesmo objeto evidencia o domínio de uma tecnologia de perfuração rotativa estável e controlada em fases muito precoces da história egípcia.

Fotografia antiga do artefacto (à esquerda), publicada em 1927 por Guy Brunton, ao lado do artefacto original (à direita)
Uma reinterpretação da função do objeto
O achado provém do enterramento de um homem identificado como “Grave 3932”, documentado pela primeira vez na década de 1920. Nessa altura, o objeto foi descrito de forma pouco conclusiva como uma pequena sovela de cobre com uma tira de couro enrolada.
Agora, a equipa argumenta que a observação sob ampliação revelou marcas de uso compatíveis com movimentos rotativos: arestas arredondadas pelo desgaste, estrias e outras microcaracterísticas associadas à fricção repetida. Todos padrões comparáveis aos observados em dispositivos de perfuração de períodos egípcios mais tardios.
O elemento que reforça a leitura funcional do artefacto é, precisamente, o vestígio de couro assinalado nos registos antigos. Segundo os investigadores, existem seis espiras de uma corda de couro muito frágil, interpretadas como parte de uma “corda de arco” — componente central de um berbequim de arco. Este tipo de ferramenta funciona com uma corda enrolada em torno de um eixo: ao mover-se o arco para trás e para a frente, a corda faz girar rapidamente o eixo e, com ele, a ponta perfuradora.
Testes de fluorescência de raios X indicaram uma liga invulgar, com cobre, arsénio e níquel, e sinais adicionais de depósitos de prata e chumbo. Os autores interpretam esta combinação como potencialmente deliberada, por poder produzir um metal mais duro e visualmente distinto do cobre comum, o que seria uma vantagem para uma ponta sujeita a fricção constante.
O estudo admite que a composição pode apontar para redes de troca de longa distância, ou para fontes de minério ainda pouco exploradas no Deserto Oriental. Em qualquer dos casos, a ferramenta torna-se um indicador indireto de conhecimento metalúrgico e de circulação de materiais (ou de técnicas) no Mediterrâneo oriental e no Próximo Oriente antigo durante o 4.º milénio a.C.
Os autores sublinham ainda que a confirmação de um berbequim de arco neste período é inédita para a egiptologia: embora o instrumento esteja bem documentado em épocas mais tardias, a associação inequívoca a um contexto pré-dinástico antecipa em mais de dois milénios algumas das coleções de brocas melhor preservadas.
(ZAP)
