Vestida de Power Ranger Rosa, a hacktivista alemã conhecida como Martha Root executou, ao vivo e em direto durante uma conferência, um script que apagou vários sites de encontros para supremacistas brancos — bem como as respetivas contas de email. Um embaraço para a “raça superior”.
A maioria das conferências não costuma ser particularmente emocionante, pelo menos para quem está de fora. Mas em Hamburgo, na Alemanha, a 39.ª edição do Chaos Communication Congress (39C3) contou com uma sessão verdadeiramente invulgar.
A certa altura, uma oradora, vestida com o vistoso fato elástico cor-de-rosa da Power Ranger Rosa, subiu ao palco, mas não foi fazer uma apresentação em PowerPoint. Em vez disso, desligou alguns sites, ao vivo e em direto.
Era Martha Root. Os seus alvos eram o WhiteDate, WhiteChild e WhiteDeal, plataformas sociais utilizadas por supremacistas brancos da extrema-direita.
Com apenas uns poucos comandos, a hacktivista alemã executou um script em direto — e os sites desapareceram da internet. Os servidores foram apagados e até as cópias de segurança desapareceram, conta a ZME Science.
O momento em que o script faz desaparecer os sites, respetivas redes sociais e contas de email, pode ser visto num vídeo do Chaos Communication Club. Na verdade, as linhas de comando parecem ser apenas para “dar espetáculo” — o verdadeiro script que apagou os sites terá corrido em background.
O WhiteDate, o maior dos três, contava com perto de 8.000 membros, que se registavam à procura de potenciais parceiros “racialmente puros”. Durante meses, Martha infiltrou-se nessas plataformas com chatbots extremamente realistas.
Com uma mistura de análise automática de conversas e técnicas de web scraping, os bots eram suficientemente convincentes para enganar a comunidade branca “pura”.
Estes bots, que se faziam passar por utilizadores reais, chegaram mesmo a ser “verificados” como brancos pelos próprios administradores do site. O processo de verificação, promovido como um rigoroso filtro genético e ideológico, era ultrapassado por um LLM que reproduzia clichés racistas.
“O WhiteDate é uma plataforma de supremacistas brancos que serve racistas e antissemitas, e assenta numa infraestrutura obsoleta. O que os seus 8.000 membros não sabiam: alguns dos nazis flertaram este ano com bots de conversa de aparência credível — e até se apaixonaram por eles”, lê-se no resumo da apresentação.
Durante anos, os grupos supremacistas cultivaram uma imagem de organização sofisticada. Gabam-se de usar aplicações encriptadas, redes descentralizadas e fóruns na dark web. No entanto, em poucos segundos, a apresentação de Martha Root destruiu essa ilusão de competência com uma facilidade embaraçosa.
Num paper sobre a sua “operação”, apresentado durante a conferência, Martha Root e os jornalistas Eva Hoffmann e Christian Fuchs, relatam que a segurança nestas plataformas era praticamente inexistente. A “raça superior” geria as suas operações em plataformas tão desatualizadas que fariam corar de vergonha qualquer administrador de sistemas dos anos 2000.
Como seria de esperar, os responsáveis pelos sites não ficaram satisfeitos.
Numa publicação no X, o administrador do WhiteDate classificou a queda do site como “ciberterrorismo” e ameaçou com “represálias”. Noutra publicação, chegou a afirmar que Root apagou também a conta do WhiteDate na X, mas que esta foi recuperada, deixando um “agradecimento” direto a Elon Musk.
Antes de desligar os sites, Root e os jornalistas copiaram a base de dados do WhiteDate, preservando as informações das contas. A informação recolhida traça um retrato desolador do movimento neo-nazi contemporâneo.
Afinal, as plataformas de encontros eram um autêntico festival masculino: cerca de 85% dos utilizadores eram homens. “Esta é uma proporção de género que faz a aldeia dos Estrumpfes parecer uma utopia feminista”, brincou Root durante a apresentação.
Estas plataformas apresentam-se como ferramentas essenciais para preservar a “linhagem branca”, prometendo a homens solitários esposas tradicionais e famílias numerosas, mas isso nunca correspondeu à realidade. Os utilizadores eram essencialmente um grupo de homens radicalizados a gritar para o vazio, diz Root.
Mas uma pergunta não deixa de nos atormentar. Será que entre os utilizadores do WhiteDate não estará o… Power Ranger Branco?
(ZAP)
