Cientistas criam IA que analisa o nosso rosto para decidir se uma empresa nos deve contratar

By | 19/11/2025

Se achava que a informação que as empresas já têm acerca de si já era uma invasão de privacidade, espere até que comecem a avaliá-lo apenas com base na sua cara.

Imagine comparecer a uma entrevista de emprego e, sem dizer uma única palavra, ser informado de que não foi selecionado porque o seu rosto não se enquadra no perfil. Presume-se-ia ser um caso de discriminação e poderia até justificar um processo judicial.

Mas e se o enviesamento não fosse o motivo? E se o seu rosto fornecesse pistas realmente úteis sobre o seu provável desempenho no trabalho?

Esta questão está no cerne de um estudo recente, conduzido por uma equipa de investigadores da Universidade da Pensilvânia, que procurou saber se a IA consegue detetar pessoas de confiança apenas através da análise das suas características faciais, reporta o The Economist.

Esta investigação baseia-se noutros estudos, também eles eticamente duvidosos, que partem do princípio de que é possível identificar traços de personalidade apenas com base nos traços faciais de uma pessoa.

A equipa da UPenn defende que, de facto, a IA consegue prever com precisão características importantes das pessoas baseando-se apenas numa análise facial — incluindo métricas associadas ao sucesso financeiro, como o respeito e a confiança.

Para o fazer, os investigadores utilizaram um sistema de IA treinado com base em investigações anteriores sobre deteção de personalidade a partir do rosto, para extrair cinco traços de personalidade — as chamadas “soft skills”: abertura à experiência, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo.

No estudo, recentemente publicado na SSRN, a equipa de investigadores, liderada pelo professor de Finanças da UPenn Marius Guenzel, recolheu no LinkedIn fotografias de perfil de 96.000 utilizadores com um MBA.

A equipa comparou então os dados com os percursos profissionais reais dos utilizadores, e afirma ter encontrado uma associação entre os traços de personalidade identificados pelas análises faciais e o sucesso alcançado no mercado de trabalho.

A implicação, dizem os autores do estudo, é que as técnicas de machine learning conseguem encontrar correlações entre características faciais e o sucesso real das pessoas.

A extroversão, por exemplo, é o “maior indicador positivo” de remuneração, enquanto a abertura à experiência indica uma menor probabilidade de receber um salário elevado.

É uma perspetiva assustadora, realça o Futurism: um algoritmo ter o poder de decidir se conseguimos um emprego, se obtemos um empréstimo bancário ou se podemos alugar um carro, apenas com base na sua aparência.

Mas, como refere o The Economist, num mundo em que o sucesso financeiro se sobrepõe a tudo o resto, as empresas teriam um “forte incentivo” para utilizar este tipo de sistemas — claro, partindo do princípio de que não discriminam com base em características protegidas por lei.

Ainda é cedo para saber se alguma empresa tecnológica mais entusiasta irá pegar nesta investigação e aplicá-la no mundo real, mas, tendo em conta algumas das startups que têm surgido recentemente, não seria surpreendente.

(ZAP)